segunda-feira, 21 de julho de 2014

A Senhoria – Fiódor Dostoiévski

A novela combina o drama sentimentalista com o devaneio fantasmagórico.
Vassíli Ordínov, personagem central da trama, navega entre a realidade trivial e a paixão alucinada pela jovem Katierina, que vive um relacionamento enigmático com um velho que apoderava-se de mandingas, livros e citações para mantê-la insegura e dependente.
Em uma igreja, Ordínov avista a bela Katierina e se ver atraído por ela. Sai à procura de um local para se hospedar e depara-se com o velho misterioso que termina por lhe alugar um dos cômodos da casa. A partir daí a novela impõe uma trilogia: um velho astuto, um jovem apaixonado e uma mulher insegura dividindo um ambiente incestuoso e sombrio.
A disputa por Katierina adquire um contexto filosófico aprofundado em consequências psicológicas que remete Ordínov à infância, tendo como parte das lembranças o velho camponês Múrin, seu opositor na disputa por Katierina.

O texto, escrito quando o autor tinha vinte e seis anos, é curto e melancólico, sinaliza aos seus apreciadores o acervo conflituoso das demais obras. Assim é Dostoiévski, transfere para o leitor as suas inquietações e o deixa entender que o passado e futuro, a exemplo da história vivida por Ordínov, é nada mais que o presente.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
A senhoria: novela petersburguense / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Fátima Bianchi; gravuras de Paulo Camillo Pena. 2. São Paulo: Ed. 34, 2006.
144 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-355-8
Tradução de: Khoziáik
1. Literatura russa. I. Bianchi, Fátima. II. Pen Paulo Camilo. III. Título. IV. Série.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Silêncio das Montanhas – Khaled Hosseini

A fábula contada pelo pai dos órfãos Abdullah e Pari tem a aldeia de Maidan Sabz como cenário da vida de devs, jinis e gigantes que perambulavam por terras de um fazendeiro chamado Baba Ayub. Um dev submete um pai a escolher um dos filhos para entrega-lo em troca da sobrevivência. A decisão da escolha acarretou sofrimentos, perdas, benefícios e recompensas.
Ao passar do tempo, a fábula se transforma em realidade e o pai de Abdullah e Pari é submetido a conflitos por ceder a filha em troca de recompensa financeira. A decisão acarretou consequências imprevisíveis e irreparáveis na vida e dos irmãos.  
O patrão do motorista, Nabi, casa-se com a poeta Nila Wahdati que descobre o interesse do marido, homossexual, por ele. Nila desperta a admiração de Nabi e ao conhecer a sua história o convence a leva-la à aldeia onde morava o pai de Pari. Convencido por Nila, o pai da garota abdica-se da filha em troca de recompensa financeira. Consumado o fato, Nila e Pari vão morar em Paris e deixa o marido, moribundo, aos cuidados do motorista, em Cabul.
Nila, filha de um afegão com uma francesa, embarca no mundo da intelectualidade e experimenta um relacionamento que interfere no convívio com a garota.

A história contada em vários cenários e por diversos personagens culmina com a morte de Nila que termina por revelar a verdadeira origem de Pari. De volta ao Afeganistão, a já adulta Pari, reencontra o irão e toma consciência das perdas acarretadas pela realidade sociopolítica do país e das consequências desastrosas do fato.
Fora do tema central que move a narrativa outros fatos são contextualizados referentes às perdas e dificuldades para recuperação da autoestima:
“Muitos anos depois, quando comecei a estudar para ser cirurgião plástico, entendi uma coisa que não sabia naquele dia na cozinha, enquanto argumentava para que Thalia saísse de Tinos e fosse para o internato. Aprendi que o mundo não via o seu interior, não se importava com as esperanças, os sonhos e as tristezas que pudessem existir sob a pele e os ossos. Era simples assim, absurdo e cruel. Meus pacientes sabiam disso. Percebiam que muito do que eram, do que seriam ou poderiam ser girava em torno da simetria de suas estruturas ósseas, do espaço entre os olhos, do tamanho do queixo, da projeção da ponta do nariz, se tinham ou não o melhor ângulo frontal.
A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente. ”

“Minha proposta para Thalia continua valendo até hoje. Sei que ela não vai aceitar. Mas agora eu entendo. Porque ela tem razão, isso é quem ela é. Não posso pretender saber como deve ter sido olhar para aquele rosto no espelho todos os dias, fazer um levantamento da horrível ruína, reunir vontade para aceitar. A força gigantesca necessária, o esforço, a paciência. A aceitação tomando forma lentamente, ao longo dos anos, como rochas num penhasco na beira do mar, esculpidas pelas ondas que batem. Foram minutos para o cachorro dar a Thalia aquele rosto, e toda uma vida para transformá-lo numa identidade. Ela não me deixaria desfazer tudo isso com meu bisturi. Seria como infligir um novo ferimento sobre o antigo. ”

O que move as pessoas na busca por mudanças não é o que querem, mas, o que não querem, afirma o autor...
“— É uma coisa engraçada, Markos, mas normalmente as pessoas veem a coisa ao contrário. Elas pensam que vivemos pelo que queremos. Mas o que as conduz é o que elas temem. O que elas não querem. ”

Em várias oportunidades e por motivos diversos o ser humano é submetido a situações parecidas com a da fábula. Mães e pais, obrigados ou por opção, se afastam dos filhos e/ou os apartam dos irmãos. As consequências são as mais diversas. Certamente, cada um de nós já ouviu contar situações parecidas.
O Silêncio das Montanhas é rico no campo das relações humanas e impõe escolhas e decisões que interferem na vida e bem-estar das pessoas. Não bastasse a importância do tema o autor usa uma narrativa que mantem o leitor zelado.
  
Informações sobre o autor - Khaled Hosseini é médico nascido em Cabul capital do Afeganistão, com naturalização estadunidense. Sua mãe era professora e o seu pai trabalhou no Ministério do Exterior afegão. Em 1976 mudou-se com a família para Paris por conta do emprego do seu pai. Enquanto estavam em Paris, os comunistas assumiram o poder. Formou-se em medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos. Escreveu além do Caçador de Pipas, A Cidade do Sol e O Silêncio das Montanhas

Referência bibliográfica
Hosseini, Khaled
O Silêncio das Montanhas: romance / Khaled Hosseini. - São Paulo: Editora Globo S.A., 2013.
eISBN: 9780986939754.
Título original: And the montains echoed.
Tradução: Claudio Carina.

Apresentação: Livro digital.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A Travessia de Caleb – Geraldine Brooks


A história começa em uma reservada comunidade inglesa na ilha Great Harbor e traz para discussão a influência calvinista e o choque entre culturas. O excesso e apego aos ensinamentos bíblicos, atrelado à repulsa aos prazeres da vida e a crença na predestinação social e religiosa, tornou a vida da jovem Bethia Mayfield um verdadeiro inferno.
Não bastasse o rigor religioso do pai, que recorria à vontade divina para justificar as agruras sofridas pela família, a jovem e talentosa Bethia foi privada da oportunidade de acesso às informações que pudessem balizar as suas escolhas. Aliás, escolhas era o que menos a jovem podia fazer.
A vida lhe reservou uma oportunidade que terminou alterando o curso dos acontecimentos. Em uma das suas caminhadas conheceu Caleb, filho de um líder tribal, habitante da ilha.  Daí, Bethia encontra na relação a naturalidade, desprovida de conceitos arcaicos e restritivos. As exigências sociais e religiosas tomam outra roupagem, ao perceber os valores atribuídos à natureza pelos nativos. Caleb desperta interesse, contudo, devido à pouca idade e à imposição cultural Bethia mantem-se confusa por muitos e muitos anos.
Sacrificada pelo pai após a morte de sua mãe, pelo irmão e avô após a morte do seu pai, Bethia torna-se serviçal em uma escola preparatória para possibilitar o ingresso do irmão e de Caleb em Harvard. Começa outra fase da história que dá outro curso à vida de Bethia.
Ao final, a narrativa traz surpresas e dá ênfase aos conflitos psicológico imputados por excesso de rigor religioso e opressão social. Leva à reflexão sobre como seria a história se alguns fatos não tivessem acorridos.

“Será sempre assim, no fim das coisas? Será que alguma mulher é capaz de contar os grãos de sua colheita e dizer: foi o suficiente? Ou será que sempre pensamos no que mais poderíamos ter vivido se o trabalho houvesse sido mais árduo, a ambição mais vasta, as escolhas mais sábias? Continuo a ler e me pego sorrindo para a jovem cheia de vigor, sua coragem, sua insensatez e seus muitos medos.”

O texto impõe à reflexão sobre o acaso:
“Se eu tivesse me afastado daquele menino à beira da lagoa, montado em Pintada e cavalgado de volta para o meu mundo, deixando-o em paz com seus deuses e espíritos, teria sido melhor? Ele ainda estaria vivo, agora como um senhor idoso, patriarca de uma família, líder de sua tribo? Talvez. Não tenho como saber.”
O livro possui uma linguagem direta, acessível e lógica. Mostra um história preconceituosa e intervencionista que desrespeita crenças e culturas a exemplo do que ocorreu em muitas das colonizações.

Informações sobre a autora – Geraldine Brooks é escritora e jornalista. Cresceu nos subúrbios ocidentais de Sydney. Trabalhou como repórter para o jornal Sydney Morning Herald e para o The Wall Street Journal, onde cobriu as crises no Oriente Médio, África e Balcãs. Escreveu Senhor March, Ano de Maravilhas, Ano de Milagres e As Memórias do Livro. Recebeu o Prêmio Pulitzer de ficção em 2006.

Referência bibliográfica
Brooks, Geraldine,1955.
A Travessia de Caleb: A luta de um homem para não se perder entre culturas / Geraldine Brooks; tradução Diego Alfaro. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
392p.: 23 cm
Tradução de: Caleb’s crossing
ISBN 978-85-209-2957-5
1.Cheeshahteaumuck, Caleb, 1646-1666 – Ficção. 2. Ficção histórica. 3. Ficção australiana. I. Alfaro, Diego. II. Título.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Duplo – Fiódor Dostoiévski


A narrativa imprime contradições da consciência humana e tem como protagonista o funcionário público Golyádikin. O isolamento provocado pelo distanciamento social produz sentimento de solidão, característico de pessoa que necessita ser aceita como parte de uma sociedade que não a vê de forma igualitária.
O texto, ao revelar os diálogos entre Golyádikin e Golyádikin segundo, se apresenta truncado, indicando a alteração da consciência do protagonista. Para facilitar este entendimento, logo no início da história, o autor conduz o protagonista ao consultório do seu médico, para indicar a existência de anormalidade na personalidade.
Golyádikin tentava, a todo custo, ser aceito em determinada classe social de uma Rússia Czarista, e, por não conseguir, terminou por criar o seu duplo como forma de projetar suas expectativas. Esta fantasia imprimiu diálogos desconexos e desencontrados com a realidade dos fatos. Adentrou, sem ser convidado, na casa do chefe durante uma festa e terminou sendo convidado a se retirar.
“O senhor Golyádikin reconhecera por completo seu amigo noturno. O amigo noturno era ele mesmo – o próprio senhor Golyádikin, outro senhor Golyádikin, mas absolutamente igual a ele, era, em suma, aquilo que se chama o seu duplo, em todos os sentidos...”
“(...) até o próprio senhor Golyádikin estaria disposto a considerar tudo isso um delírio quimérico, uma fugaz perturbação mental, um eclipse da mente (...)”
O duplo escreveu ao senhor Golyádikin: “Se te esqueceres de mim não me esquecerei de ti; tudo é possível na vida, não te esqueças tu de mim!” referindo-se a elevação da autoestima, já que quem falava era o próprio Golyádikin.

Um homem dialoga com ele mesmo e mostra o quanto o isolamento social traz consequências para a sua vida. Idealiza que a filha do chefe quer fugir com ele e se coloca à disposição deste interesse fictício. Enquanto projeta o encontro decide impor uma moral descabida.

O texto é riquíssimo, não só pela textura da linguagem, mas, também, por falar de sentimentos do próprio autor.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
O duplo: poema petersburguense / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Alfred Kubin. Texto sobre Kubin de Samuel Titan Jr. 2. São Paulo: Ed. 34, 2011.
256 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-472-2
Tradução de Dvoinik
1. Literatura russa. I. Bezerra, Paulo. II. Kubin, Alfred. Título. III. Titan Jr., Samuel. IV. Título. V. Série.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Eterno Marido - Fiódor Dostoiévski


O desconfiado, hipocondríaco e lamuriento Vieltchâninov padecia de insônia e, frequentemente, tinha sonhos muito estranhos. Ocupava-se na busca de uma solução para a conclusão de um processo que lhe daria a posse de uma propriedade. Deparou-se algumas vezes com Páviel Pávlovitch Trussótzki e percebeu que havia muita coincidência nos encontros, contudo, não conseguia lembrar-se de onde conhecia o seu seguidor que, estranhamente, portava um crepe no chapéu. Certa feita, Páviel vai à casa de Vieltchâninov e se identifica como viúvo de Natália Vassílievna e o informa da existência de Lisa, filha de Natália.
Tudo teria sido natural se, no passado, não tivesse havido um relacionamento amoroso entre Vieltchâninov e a atraente e dominadora Natália Vassílievna.
Lisa morre, dez dias após conhecer Vieltchâninov, e, só após sua morte, Páviel revela a Vieltchâninov que ela era sua filha. A revelação causou enorme descontentamento não só devido ao fato de não ter convivido com Lisa, mas, também, por perceber que a atitude de Páviel demonstrava vingança por ter sido traído.
Páviel tenta um relacionamento com Nadiejda e pede a Vieltchâninov que o acompanhe à casa da pretendente para formalizar o compromisso. Logo após são surpreendidos com um pedido do jovem Alexander Lobov para “limpar o campo” já que a Nadiejda era sua amada. Páviel se nega a desistir de Nadiejda e ouve do jovem a seguinte frase: “O senhor é como um cachorro sobre um monte de feno; não aproveita e não deixa que os outros aproveitem”.

Dostoiévski insere o amor nas relações pessoais em uma época que os matrimônios eram regidos por interesses familiares e patrimoniais. Fala do desejo sexual sem prudência com a moral, exigida à época.
O titulo do livro, o eterno marido, refere-se à citação usual feita a homens que toleram traição das esposas.  Jorge Amado, possivelmente, o titularia como “o corno manso”.
Enfim, a abordagem deixa a indagação sobre a possibilidade da união entre pessoas capazes de suportar/atrair parceiros que resistem as características típicas deste padrão de relacionamento.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
O eterno marido / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman. 2. São Paulo: Ed. 34, 2003.
116 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-283-4
Tradução de Viétchnii Muj
1. Literatura russa. I. Schnaiderman, Boris. II. Título. III. Série.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O homem revoltado – Albert Camus


A leitura do texto requer paciência do leitor para não se apoquentar devido à sua complexidade. Traz a história filosófica sobre a revolta do homem e faz referências a importantes pensadores, quando menciona o niilismo, o surrealismo e o existencialismo. André Breton, Pierre Naville, Sade, Nietzsche e Dostoiévski são citados em várias oportunidades e o leitor precisa ter, pelo menos, noção do que cada um pensava a respeito das crenças e necessidades sociais.

O escrito tangencia um ensaio literário a respeito da revolta do homem e traz reflexões sobre propostas políticas e sociais ocorridas nos últimos anos. Possivelmente, por isso, os questionamentos de Albert Camus, que contestam teorias da época, não tenham sido aceitos por alguns pensadores franceses encabeçados pelo filósofo Jean-Paul Sartre.

Camus, afirma que a revolução e o amor são incompatíveis: “A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe. Mas aquele que ama um ser vivo, se realmente o ama, ele só aceita morrer por ele.” Cita que o homem revoltado se contrapõe à ordem de quem o oprime e reage quando sente que não deve ser oprimido além do que pode admitir. Entende que a revolta não nasce, única e obrigatoriamente entre os oprimidos, pode também surgir do espetáculo da opressão. Neste caso, o revoltado se identifica com o outro indivíduo.

Cita que “Não se pode dar uma coerência ao assassinato, se a recusamos ao suicídio. A mente imbuída da idéia de absurdo admite, sem dúvida, o crime por fatalidade; mas não saberia aceitar o crime por raciocínio. Diante do confronto, assassinato e suicídio são a mesma coisa: ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos.”

Diz que “A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. Mas transformar é agir, e agir, amanhã, será matar, enquanto ela ainda não sabe se matar é legítimo. Ela engendra justamente as ações cuja legitimação lhe pedimos. É preciso, portanto, que a revolta tire as suas razões de si mesma, já que não consegue tirá-las de mais nada. É preciso que ela consinta em examinar-se para aprender a conduzir-se.” E que: “Na nossa posição diária, a revolta desempenha o nosso papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos.”

Afirma que “Para combater o mal, o revoltado, já que se julga inocente, renuncia ao bem e gera novamente o mal.”

O texto é riquíssimo em questionamentos e possibilita tirar conclusões sobre muito do que se propagou a respeito das revoluções sociais.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.


Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
O homem revoltado / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek.- 8ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
210p.
Tradução de: L’homme révolté

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Hipnotista – Lars Kepler

A história é marcada por datas e turnos das ocorrências dos fatos que envolvem profissionais médicos, policiais, famílias e pessoas inocentes, todas elas vítimas do descontrole mental de pessoas padecidas por histórias perversas, que apesar dispostas a alterarem o curso da vida são induzidas, por visão distorcida, à prática de crimes na busca de culpados.
A vingança aparece como forma de punição e purificação da distorção mental em um contexto difícil e abstrato.
Os protagonistas são submetidos a situações de impotência frente ao desconhecido e, muitas vezes, renunciam relações pessoais por suspeitas infundadas e ou fatos decorrentes da necessidade de atenção.
Independente das queixas e repulsas, os envolvidos, levados pelo objetivo mais forte do resgate do filho Benjamim, terminam se perdoando e reconhecem que ações e atitudes, próprias dos humanos, são fruto de carências e expectativas criadas em relação ao outro.

O texto é escrito em linguagem direta e de fácil compreensão. Mantém o leitor atento do início ao fim da história.

Informações sobre o autor – Lars Kepler é o pseudônimo do casal sueco de Alexandre Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. Escreveu O Hipnotista e O Executor. Alexandre escreveu outros romances publicados sobre o seu próprio nome.

Referência bibliográfica
Kleper, Lars
O hipnotista /Lars Kleper; tradução de Alexandre Martins. – Rio de janeiro : Intrínseca, 2011.
480p.; 123cm.
Tradução de: The  hypnotist.
ISBN 978-85-8057- 091-5
1. Ficção sueca. I. Martins, Alexandre. II. Título.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Morte de Ivan Ilitch - Leon Tolstói

O texto aborda questionamentos sobre o sentido da vida e a busca do entendimento a respeito da fase que a maioria dos humanos rechaça: a morte. A futilidade, a intolerância, o zelo moral e a busca desmedida do reconhecimento e valorização profissional são questionados no momento que o homem se depara com o sentimento de finitude e a real proximidade da morte. Por ser único e diferente para cada ser humano, o processo da morte não abarca experiências pessoais que possam servir de subsídio para o entendimento do fato.

Ivan Ilitch, personagem escolhido por Tolstói para retratar a fase final da vida, busca entender o porquê do sofrimento exacerbado e duradouro que antecede à morte, experimentado por algumas pessoas enquanto outras  passam por processos rápidos e menos sofridos. Há causas que determinem o sofrimento ou a sutileza?  A escolha do caminho a ser trilhado pelo homem é decisiva para os acontecimentos que antecedem ao fim? É possível nos preparar para minimizar os efeitos do sofrimento ou seremos, sempre, pegos de surpresa? Ignorar é uma escolha para fugir da realidade finita ou ela se presta como esperança para postergação à prova final da vida? O sofrimento se apresenta como um acerto de contas contrapondo-se à futilidade escolhida pelo homem ou ele, o sofrimento, oferece oportunidade para a liberação das amarras que o cercam durante a sua existência?

O protagonista se depara com uma realidade entediante: viveu em busca de valores que não ajudaram a suportar os momentos que antecederam à morte e não consegue identificar nada que pudesse auxiliá-lo a concluir como seria a vida que devesse ter experimentado. A angústia por esta busca cresce, a cada momento, que se aproxima da morte. Ivan Ilitch considera a esposa e a filha com estorvos capazes de impedirem uma visão realista do processo e passa a se sentir mais confortável na companhia de um servo, que se dedica ao patrão sem pedir nada em troca.

O texto, irretocável e riquíssimo em questionamentos, é um intenso depoimento da perspectiva da morte e envolve sentimentos de perda e, ao mesmo tempo, de libertação ao tomar consciência dos apegos equivocados.

Informações sobre o autor – Leon Nikolaievitch Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, A Morte de Ivan Ilitch e Anna Karenina. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples. () 

Referência bibliográfica
Tostói, Leon, gráf.. 1828-1910
A Morte de Ivan Ilitch/ Leon Nikolaievitch Tostói; tradução Vera Karam. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
122p.; 18 cm. -  (Coleção L&PM POCKET; v.16)
ISBN 978-85-254- 0600-2
1. Ficção russa - novelas. I. Título. II. Série

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski


A história tem como pano de fundo uma cidade na Rússia e aborda os conflitos entre quatro irmãos, filhos de três mulheres, e o avarento e depravado pai, detentor de uma fortuna proveniente dos dotes de suas duas esposas, Adelaída e Sófia.
Fiódor Pavlovitch Karamázov, pai de Dmitri, Ivan, Alieksêi e do bastardo Pável, era um homem egoísta, sem princípios éticos e morais, contudo, detentor de recursos que o permitia exercer poder e acessibilidade.

Dimitri, único filho de Karamázov com Adelaída, criado por um primo de sua mãe, requereu a sua parte na herança e, logo, os conflitos entre ele e o pai começaram. Em consequência da disputa pelo dinheiro, Dimitri conhece a jovem Grúchenka, amante do pai, e se apaixona por ela. Termina o noivado com a rica Catierina e resolve disputar, com o pai, o amor da sua amante.

Ivan e Alieksêi, filhos de Karamázov com Sófia, sua segunda esposas, falecida prematuramente, tentaram negociar um acordo com o pai, com a intermediação do respeitado monge Zossima, objetivando convencê-lo a pagar o que lhes eram devidos, contudo, a intransigência do velho terminou por contrariar os interesses dos herdeiros.

Alieksêi, que tinha uma vida simples no mosteiro e era discípulo dos ensinamentos de Zossima, buscou minimizar os efeitos dos conflitos e descontentamentos, não só em relação à parte financeira, mas, também, às atitudes pessoais e relacionamentos amorosos dos irmãos Dimitri e Ivan.

Pável, por sua vez, filho bastardo de Karamázov e da demente perambulante Lizavieta, foi parido no jardim da casa do depravado pai e devido à morte da mãe terminou sendo adotado pelo casal Grigori e Marfa, empregados do velho malquisto. Devido à adoção, acabou como serviçal na casa do próprio pai e teve a oportunidade de conhecer os irmãos, analisar suas personalidades e arquitetar um crime que envolveu todos eles.

O autor caracteriza Dimitri como um homem debochado e impulsivo; Ivan como um filósofo e intelectual questionador; Alieksêi com elevada capacidade de percepção e exacerbada habilidade de relacionamento; e, Pável como discreto, invejoso, dissimulado e estrategista vingativo.

O texto se destaca pela capacidade do autor em discorrer, de forma ficcional, assuntos familiares que contrapõem interesses pessoais e abalam as relações humanas. A história escancara de forma perversa o comportamento humano e deixa para o leitor a responsabilidade da analise e avaliação dos variados tipos de comportamentos, personalidades e crenças.
Trata-se de uma obra aberta, onde os personagens são caracterizados de forma precisa, sem perder a linguagem própria, característica do nível social e do contexto que cada um se insere, já que os irmãos Karamásov tiveram, apenas, o pai como ponto de confluência. No demais, devido à ausência de um ambiente familiar acolhedor, o destino proporcionou a cada um dos filhos experiências discrepantes: formação intelectual, construção da personalidade, e acessibilidade social. As diferenças retratadas em cada personagem enriquecem a trama arquitetada para o autor alcançar o seu pleno objetivo.
Dostoiévski nos brinda com questionamentos que incomodam o conforto mental. Expõe cada personagem ao extremo da ética e da moral: “Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante.”
Os Irmãos Karamázov é considerada, por muitos estudiosos, uma obra-prima da literatura russa. Trata-se do último romance escrito pelo autor. Segundo comenta-se, apesar das suas novecentos e noventa e nove páginas, é uma obra inacabada.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamázov, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Os Irmãos Karamázov / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Ulysses Bôscolo. - São Paulo: Ed. 34, 2008. 
Título original: Brátya Karamázovy.
ISBN 978-85-7326-411-1.
999p.
1.Ficção russa. I. Bezerra, Paulo. II. Bôscolo, Ulysses. III. Título. IV. Série.

domingo, 11 de março de 2012

O Mito de Sísifo – Albert Camus

Camus utilizou-se de Sísifo, personagem da mitologia grega, para centralizar questionamentos filosóficos na busca da percepção da vida e o determinismo de responsabilidade das ações que possam nortear o caminhar do homem no sentido metafísico e nas relações interpessoais.

Sísifo age de forma talentosa e consegue amenizar a fúria de Zeus, rei dos deuses, quando ordenou Tânatus, deus da morte, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Ele elogia a sua beleza e obtém a concordância de Tânatus para colocar um colar em seu pescoço, com o qual manteve a morte aprisionada. Hades, que governava o mundo subterrâneo dos mortos, se uniu a Ares, deus das guerras, e fisgou Sísifo, que antes de se afastar da mulher pediu a ela que não o enterrasse após sua morte. Tão logo se viu no inferno, conseguiu a concordância de Hades para retornar e se vingar da atitude da esposa. Desta forma Sísifo retomou o seu corpo e fugiu. Devido à habilidade de Sísifo, a morte só lhe alcançou na velhice. Insatisfeitos, os deuses o condenaram, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha e, sempre que chegava próximo ao topo uma força poderosa a rolava de volta até o ponto de partida. Assim, segundo a mitologia grega, a humanidade ficou sabendo não ter a mesma liberdade divina.  

Ao se referir ao raciocínio absurdo, Albert Camus, fala da construção da vida sobre o amparo da esperança. Quanto mais se espera o amanhã mais próximo estamos da morte e conclui que o mundo cruel é estranho. “Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas idéias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).”
Cita, ainda: “Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”
Diz, mais: “Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que ficar, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que se pode atribuir às conclusões da filosofia existencial.”
Conclui, sobre o raciocínio absurdo: “Pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado. (...) Se eu me convencer que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o seu equilíbrio reside na perpétua oposição entre minha revolta consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que  minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais.”

Albert Camus aborda as questões do homem absurdo (aquele que não se separa do tempo) referindo-se ao amor, o ator e o conquistador. Em relação ao amor cita o personagem Don Juan lembrando que quanto mais se ama mais se concretiza o absurdo. A representação teatral oferece ao homem absurdo a possibilidade de ver além de si mesmo, contudo, não o impõe mudança que possa lhe submeter qualquer angústia.  Sobre as conquistas interpreta como uma escolha do homem em prejuízo da contemplação, como algo necessário a mantê-lo atuante, apesar da percepção que um dia terá que cessar.
O autor aborda a arte como alternativa para expressar o mundo inexplicável. Cita Dostoiévski, Kafka, Malraux, Balzac e Sade como romancistas capazes de explorar o suicídio filosófico.
Faz analogia ao trabalho repetitivo, dos dias atuais, à tarefa determinada a Sísifo, pelos deuses. Intui que a  busca do homem pelo cotidiano o afasta da tomada de consciência da vida, impondo-se à mediocridade mental conformista.

O Mito de Sísifo é um texto questionador, não só pelas características do ensaio literário, mas, também, pela abordagem filosófica que adiciona incômodo reflexivo diante de um cotidiano e valores morais.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
O mito de Sísifo  / Albert Camus; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. – Rio de Janeiro: Record, 2010.
138p.
Tradução de: Le mythe de Sisyphe
ISBN 987-85-7799-269-0
Ensaio francês. I. Roitman, Ari. II. Watch, Paulina. III. Título

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Levantado do chão - José Saramago

A saga, de três gerações, da família Mau-Tempo é retratada em paralelo com os acontecimentos políticos ocorridos em Portugal. O sapateiro Domingos e a sua esposa Sara Conceição representam a primeira geração, escolhida pelo autor para caracterizar o sofrimento e a tolerância passiva de uma política social repressora, imposta em benefício dos latifundiários.
A segunda geração, representada por João Mau-Tempo, toma consciência que a transformação política depende de questionamentos que leve à valorização do trabalho. Esta mudança de atitude resultou em afrontamento aos proprietários rurais, que recebiam a complacência da igreja.
A terceira geração, liderada por Manuel Espada, casado com a filha de João Mau-Tempo, agiu de forma contundente contra a aceitação das políticas impostas ao povo. Os opositores ao sistema se depararam com a repressão.

Saramago utiliza-se de um cenário rural, na região do Alentejo, para romanescar a luta dos portugueses em busca de transformações políticas. As influências das guerras, do regime totalitário salazarista e da Revolução dos Cravos são tomadas como referências, não literais, para discorrer sobre os reflexos na vida da população carente.

Refere-se ao desemprego: “E há o desemprego, primeiro os mais moços, depois as mulheres, por fim os homens. Vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável. Não se vêem nestas alturas feitores nem capatazes nem manajeiros, muito menos se veriam patrões, todos fechados em suas casas, ou longe na capital e noutros resguardos. A terra é só crosta seca ou lamaçal, não importa. Cozem-se ervas, vive-se disso, e os olhos ardem, o estômago faz tambor, e vêm as longas, dolorosas diarréias, o abandono do corpo que se desfaz de si próprio, fétido, canga insuportável.  Apetece morrer, e há quem morra.”
Sobre o despertar da mudança, o autor cita: (...) o tempo verdadeiro dos homens e o que neles é mudança não se rege por vir o sol ou ir a lua, coisas que afinal só fazem parte da paisagem, (...) Às vezes requer-se uma impaciência dos corpos, senão um exaspero, para que as almas enfim se movam (...)
E, sobre os efeitos das ações repressoras: “Não se trata os homem como nós temos sido tratados, depois falaremos, os ares ficaram enturvecidos depois destas prisões, deixa passar o tempo até que tudo se componha, isto é como uma rede de pesca, leva mais tempo a consertar do que a romper, e Manuel Espada rematou assim, Espero o tempo que for preciso.”
 

Em Levantado do Chão, o autor oferece ao leitor um romance político social, com versatilidade ensaística e linguagem característica do meio rural, entremeda por citações filosóficas que permitem vivenciar metaforicamente as agruras dos que, ainda hoje, vivem em situações parecidas às relatadas no texto escrito em 1980.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Azínhaga, Golegã, Portugal e morreu em 2010 na Província de Las Palmas, Canárias, Espanha. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Camões em 1995 e o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Viveu entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. Escreveu Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez, As Intermitências da Motre, A Viagem do Elefante, Caim, Claraboia, dentre outros trabalhos.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922 -2010
Levantado do chão / José Saramago. 15ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
368p.
ISBN 978-85-286-0063-6
1. Romance português. I. Título.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

Eva, mãe de Kevin, escreve várias cartas a Franklin, seu esposo, relembrando os fatos que possam ter sido determinante para justificar o comportamento esquisito do filho, que resultou na chacina de sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um colégio de Nova York.
A notícia sobre a gravidez e as recomendações para alteração dos hábitos alimentares incomodou a mãe de Kevin, não só em relação à mobilidade profissional, mas, também, quanto à mudança de foco. Afinal, Eva não se sentia preparada para alterar seus hábitos no relacionamento que tinha com fotógrafo Franklin. Kevin, veio ao mundo muito mais para satisfazer ao desejo do pai do que para contribuir na formação de uma estrutura familiar.
O parto sem anestesia, aos 37 anos, foi associado à derrota devido às limitações físicas e ao sofrimento. O bebê chegava ao momento de sair da barriga e Eva o trazia de volta para evitar a dor.
Kevin emite sinais de anormalidade. Em muitas ocasiões eram observadas pela mãe que não obtinha a atenção devida do pai, que considerava a maioria dos acontecimentos normais, próprios de crianças e adolescentes.
Eva cansou de tentar chamar a atenção do marido para o comportamento inadequado do filho e decide compensar o sentimento de insatisfação diante do fracasso, deixando-se engravidar. Desta feita, nasce Celia, tímida, insegura e amável. É ignorada pelo pai e se torna vítima das travessuras do irmão.

O livro evidencia a ausência de atitude, passividade e tolerância excessiva dos pais para com o comportamento dos filhos, que podem levar a distorção de personalidade.
“Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontra e o quão pouco possa evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo que seus filhos têm, e a convicção deles de que você saberá protegê-los é contagiosa.”

A história é enriquecida nas duas últimas cartas escritas por Eva. Nelas algumas surpresas são reveladas.
Apesar da intensidade sórdida dos atos praticados, o texto induz ao leitor acompanhar a angustia da mãe, cujo filho arquitetou atos abomináveis que levaram aos assassinatos e à destruição da família.

Ao ver a fotografia que ilustra a capa do livro, Vicente, meu neto de dois anos, apontou para o livro e disse: “- gato malo!” Ele tem razão, Kevin é um gato malo!

Informações sobre o autor – Lionel Shriver nasceu com o nome de Margaret Ann Shriver em 1957, na Carolina do Norte, Estados Unidos, e mudou de nome aos 15 anos. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia, viveu em Nairóbi, Bangcoc e Belfast. Precisamos falar sobre o Kevin ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha, em 2005. Sétimo romance da autora que escreveu The Female of the Species; Checker and the Derailleurs; Ordinary Decent Criminals; Game Control; A Perfectly Good Family; e The Post-Birthday.

Referências bibliográficas
Shriver, Lionel, 1957 -
Precisamos falar sobre o Kevin / Lionel Shriver; tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
454p
Título original: We Need to Talk  Abaut Kevin.
ISBN 978-85-98078-26-7
1.Adolescentes (Meninos) – Ficção. 2. Ensaio secundário – Ficção. 3. Massacre – Ficção. 4. Romance americano - I. Vieira, Beth. II. Ribeiro, Vera. III. Título.

sábado, 31 de dezembro de 2011

A Marca Humana – Philip Milton Roth

Um decano da Faculdade de Athenas, nos Estados Unidos, depois de dedicar a sua vida ao ensino, é acusado de racismo por se referir a dois alunos, que nunca apareceram na classe, como spooks.
A história deste professor de setenta e dois anos teria sido diferente se os alunos citados não fossem negros.
Coleman Silk é pressionado, inclusive por outros professores, e resolve pedir desligamento da faculdade.
Após a morte da esposa, o decano pede ao seu vizinho Nathan Zuckerman, para escrever a sua história e este decide narrar os acontecimentos e suposições dos fatos.
Na verdade, o professor era filho de pais negros, apesar de possuir características fenotípicas de individuo branco. Ao ser discriminado por uma namorada branca, que o rechaçou após conhecer a sua família negra, Silk decide se passar por um judeu branco, sem antepassados e irmãos.
À sua esposa judia, Iris, segunda namorada banca, nunca foi revelada a sua verdadeira origem, tampouco aos seus quatro filhos que herdaram características parecidas às da mãe.
Após a morte da sua esposa, vitimada devido às injustiças feitas ao marido, Coleman Silk se aproxima de uma jovem faxineira esposa de um ex-combatente na guerra do Vietnã, que se diz analfabeta. Este novo relacionamento impõe a quebra de paradigmas morais e sociais, não aceitos por colegas e filhos do protagonista.
A intolerância social imposta ao decano devido ao novo relacionamento com a jovem faxineira, que lhe devolveu o prazer de viver, o afastou ainda mais do convívio com os filhos e ex-colegas, e, de presente, ganhou a oposição ferrenha de Les Ferley, ex-marido de Faunia Farley, sua amante.
Les Ferley, por sua vez, não consegue perdoar a ex-esposa pela morte dos filhos e tenta, a todo custo, esquecer-se dos fatos ocorridos nos combates no Vietnã. Persegue Coleman e Faunia e termina como suspeito da morte dos dois.
O escritor convidado a contar a história tende a compreender os motivos que levaram o protagonista a se passar por branco, porém, ao conhecer seu opositor Les Ferley, enquanto investigava o acidente que vitimou Coleman e Faunia, passa a entender os motivos para o sofrimento e revolta do ex-combatente.

A infeliz Delphine Roux, também professora da universidade, decide infernizar a vida de Coleman, ao que parece por desprezo do mesmo em relação aos seus sentimentos amorosos.

O texto, rico em conteúdo, agrega criticas contundentes ao governo americano quanto à decisão de gastar uma fortuna para combater o regime comunista vietnamita, submetendo soldados a situações vexatórias, enquanto dirigente político é denunciado por ter relações sexuais, em pleno expediente, com estagiária na Casa Branca. Não bastassem as divergências morais, a crítica impera sobre a demora da sociedade americana em reparar os erros referentes à discriminação racial.

Coleman e Les Ferley são colocados como personagens centrais de uma história, escrita por Philip Roth, de forma que o leitor possa incorporá-los em momentos diferenciados, sem, contudo, chegar a nenhuma conclusão prática, devido ao contexto social em que eles são atirados. Philip Roth escancara a Marca Humana como uma pecha a ser extirpada da sociedade moderna e do mundo que defende direitos igualitários sem se preocupar em abolir a prática imperialista e preconceituosa.

Ao findar o texto o leitor continua relendo, refletindo, remoendo, revendo, remetendo-se a fatos históricos de um mundo corrompido e individualista. Um mundo cujo discurso afinado impera contrapondo-se com a prática política avalizada por povos desinformados, subservientes e sem foco em ações que possam minorar o sofrimento causado pela discriminação racial, social e regional dos povos. 
 
Informações sobre o autor – Philip Milton Roth nasceu em 1933, Nova Jersey, Estados Unidos. Tem origem judia e é considerado um dos maiores escritores americanos da metade do século XX. Escreveu Complô contra a América, O Complexo de Portnoy, Teatro de Sabath, O avesso da vida, Professor de desejo, Diário de uma ilusão, Casei com uma comunista, Pastoral Americana, A Mara Humana, O Animal Moribundo, O homem comum, Fantasma sai de cena, Indignação, dentre outros. Muitas de suas obras tratam de aceitação e identidade dos judeus nos Estados Unidos e explora o desejo sexual e a autocompreensão.

Referências bibliográficas
Roth, Philip, 1933.
A marca humana / Phiplip Hoth ; tradução de Paulo Henrique Britto. - São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
454p
Título original: The Human Stain.
ISBN 978-85-359-0198-6
1.Romance norte-americano - I. Título

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Nariz - Nicolai Vassilievitch Gogol


A história fantasmagórica, escrita por Gogol, revela uma crítica ferrenha à sociedade de São Petersburgo, na Rússia.
O nariz do major Kovaliov é encontrado pelo barbeiro Ivan Iákovlevich, dentro de um pão, durante o seu café da manhã, que, de pronto, o reconhece. Decidido a se desvencilhar do achado, para não ser incomodado por agentes da autoridade, saiu à rua carregando o tal apêndice e terminou sendo surpreendido em todas as tentativas que fez para depositá-lo em algum lugar.
Enquanto isso, ao acordar, o major percebe que o seu importante nariz não se encontrava no rosto e decide recorrer a vários meios para reavê-lo, tempo em que tenta identificar o responsável pela façanha.
Diante da perplexidade que o episódio ensejou, a polícia se esquivou de iniciar um procedimento e a imprensa, por sua vez, decide não publicar um anuncio, encaminhado pelo major, acerca do detalhamento do nariz. 
Depois de flagrado o nariz em situações exorbitantes o major Kovaliov recorre a um médico para recolocá-lo no devido lugar e, para sua surpresa, é informado da impossibilidade.
No dia seguinte, ao acordar, o nariz fujão reaparece, são e salvo, no rosto da autoridade e Gogol, com esta história hilária e surreal, debocha e cobra, do seu jeito, o respeito da sociedade pela condição humana.

Informações sobre o autor – Nicolai Vassilievitch Gogol, nasceu na Ucrânia em 1809 e foi para São Petersburgo aos vinte anos. Considerado um dos mais importantes escritores russos, escreveu Almas Mortas, O Capote, O Inspetor Geral, O Retrato, O Diário de um Louco, dentre outros. Morreu em 21/02/1852.

domingo, 6 de novembro de 2011

A Costureira e o Cangaceiro – Frances de Pontes Peebles

A história conta a dificuldade das famílias que habitaram a caatinga nas margens do rio São Francisco, que divisa os estados da Bahia, Alagoas e Pernambuco.
Os leitores que conhecem a região são atraídos pela forma, precisa, de caracterizar o contexto, não só quanto aos fatos políticos e composição sociológica, mas, também, pelo detalhamento, não cansativo, do cenário que emoldura a trama.
A narrativa nos remete à década de trinta, onde os movimentos políticos, liderados por Getúlio Vargas, se contrapõem com a magnitude climática, cuja seca dizima tudo e a todos, a chuva, faz renascer a esperança, provoca o rebroto da flora enquanto a fauna desperta da hibernação protetora.

Duas irmãs, marcadas pelo sofrimento, decidem caminhar em sentidos opostos. Uma, na tentativa de se desvencilhar da subserviência caótica, arranja um relacionamento, nada comum à época, e se desloca para a cidade litorânea do Recife enquanto a outra ignora a esperança, se deixa raptar por um bando de cangaceiros.

A história centrada nas dificuldades de pessoas nascidas em ambientes insalubres, desprovidos de conforto e submetidas às atrocidades dos coronéis latifundiários, margeia a conhecida saga  de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, famoso cangaceiro decapitado na Grota do Angico, às margens do São Francisco, por tropa do governo.

A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder e adentrou a caatinga com ações repressivas, com o intuito de exterminar os bandos de justiceiros do nordeste brasileiro, à época apoiados pela população carente e por coronéis, latifundiários, em troca de segurança.
A seca castigava e a falta de condições mínimas para sobrevivência obrigou a população a migrar para as periferias das grandes cidades.  Muitos dos que permaneceram na caatinga morreram de sede e fome, presos as origens, e grupos sem poder de decisão sobre suas vidas, diante da falta do mínimo necessário à sobrevivência, foram recebidos em campos de refugiados da seca, montados pelo governo, na tentativa de frear o êxodo rural.

O texto percorre a saga do cangaço, matizada com histórias familiares que caracterizam os valores sociais à época. Bem escrito, apesar de extenso, transporta o leitor para uma reflexão dos aspectos regionais que continuam intrínsecos ao povo catingueiro.  É só ir até a Grota do Angico para entender a dicotomia.

Informações sobre o autor – A escritora, filha de mãe pernambucana e pai norte-americano, nasceu no Recife, Pernambuco. É formada em letras pela Universidade do Texas, em Austin, fez mestrado no Writers’ Workshop da Universidade de Iowa. Mora em Chicago, Illinois, e todo ano passa férias em seu sítio em Taquaritinga do Norte, Pernambuco. Ganhou os prêmios Friends of American Writers Award for Fiction e Elle Magazine’s Grand Prix 2008.

Referência bibliográfica
Peebles, Frances de Pontes
A costureira e o cangaceiro / Frances de Pontes Peebles; Tradução de Maria Helena Rouanet.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Tradução de: The seamstress.
620p.
ISBN 978-85-209-2168-5
1. Romance americano. I. Rouanet, Maria Helena, 1950.  II. Título.

domingo, 28 de agosto de 2011

Ninguém escreve ao Coronel – Gabriel García Márquez

Em reconhecimento aos serviços prestados à nação, o governo decidiu compensar os veteranos de guerra com uma pensão vitalícia. Devido à falta de verba para contemplar todos os veteranos, de uma só vez, elaborou uma relação com os nomes a serem beneficiados.
O Coronel, protagonista do conto, residia em uma ilha com sua mulher e mantinha-se esperançoso, apesar de sua posição na lista ser a de número 1823. Ou seja, havia 1822 combatentes a serem atendidos antes dele. O governo não revelava quantas pensões já tinha sido concedida e este procedimento mantinha o Coronel esperançoso e convicto de que um dia seria comunicado da concessão. Todas as sextas-feiras a esperança era renovada, se dirigir ao cais do porto e aguardava a lancha que trazia o correio para a ilha, na expectativa de receber a carta com a notícia.
Com o passar do tempo e o tardar da notícia, sem dinheiro, o Coronel começou a vender os objetos que havia na casa, dentre eles uma máquina de costura, herdada do filho, alfaiate.
Restou ao Coronel um galo de briga, deixado pelo filho Agustin, assassinado pela polícia, e lhe foi oferecido 900 pesos pela ave, diante do bom desempenho no treino para a luta prevista para quarenta e cinco dias após. Vendê-lo e suprir as necessidades imediatas ou aguardar a luta para aventurar um bom dinheiro, com a possível vitória?

A história do Coronel que vivia ao lado de uma mulher asmática, triste pela morte do filho e esperançoso por uma notícia que tardava a chegar, narrada por Gabriel García Márquez, tem gosto sutil de humor inteligente sem perda do foco social.
O texto, escrito em linguagem direta, mostra o ser humano com suas fraquezas e esperanças, acreditando em promessas que lhes são convenientes, principalmente, quando estas se tornam a única forma de sobrevivência. Evidencia a história de um homem que, em prejuízo do sustento, decide manter-se reservado para não passar por constrangimentos, apesar da notória exposição social.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Ninguém escreve ao Coronel / Gabriel García Márquez; tradução Danubio Rodrigues; [Ilustração de Carybé] 24ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2011.
Tradução de: El coronel no tiene quién le escriba.
ISBN 978-85-01-01655-3
1. Conto colombiano. I. Rodrigues, Danubio.  II. Título.


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sábado, 13 de agosto de 2011

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

O texto, escrito em 1962, conta a história de um adolescente que vive na cidade de Londres.   O autor cria uma sociedade futurista na qual a violência atinge proporções gigantescas, exaladas nas mais diversas formas, inclusive na prática de roubos, estupros, espancamentos e assassinatos.
A violência praticada sem uma causa perceptível foi enfrentada, pelo governo, de forma totalitária. 

Anthony Burgess utiliza uma linguagem curiosa, carregada de gírias nadsat, com palavras rimadas, exigindo do leitor o seu aprendizado para remetê-lo ao centro do contexto, para vivenciar a história. O insere como observador na gangue comandada pelo idiota Alex que tem a companhia dos não menos retardados Pete, Georgie e Tosko.

Na maioria, as vítimas da gangue são os idosos e intelectuais. A escolha pode ter sido proposital para consagrar frustrações relacionadas à intelectualidade socialista e a ausência de práticas familiares apropriadas ao bem-estar dos jovens.

A solução encontrada pelo governo para combater as ações de Alex, não se caracterizou como menos hostil. “O diretor olhou para mim com uma cara muito cansada e disse:- Acho que você não sabe quem era aquele hoje de manhã, sabe 6655321? – E, sem esperar que eu dissesse não, ele disse: - Ninguém menos que o Ministro do Interior, o novo Ministro do Interior que eles chamam de reformador. Bem, essas novas idéias ridículas finalmente chegaram e ordens são ordens, embora cá entre nós eu lhe diga que não aprovo.”

Ainda hoje, o texto se firma como atualíssimo no cenário londrino haja vista as demonstrações de insatisfação social dos jovens e adolescentes e a resposta do poder para a solução dos conflitos.
A diferença entre o texto e a atualidade ocorre na diversidade da escolha das ações para possível solução, contudo, o capitalismo se vale da força para amordaçar o discurso proveniente da segregação social e racial encobertado e distorcido pela imprensa, conveniente, em vez da prática democrática saudável e construtiva.
O autor, Anthony Burgess, joga, sem piedade, o leitor para conviver com o abestalhado Alex no intento de fazê-lo entender a deformidade de caráter provocada por mentes vazias e desocupadas, cuja sociedade intelectualizada e “madura” demonstra incapacidade para definir políticas não excludentes.

O texto, aparentemente descomprometido, traduz uma polêmica social que mesmo os países com economias sólidas e estruturadas não conseguem elaborar e implantar políticas alternativas voltadas para a inclusão social.
Alex diz: “- Eu, eu, eu. Eu? Onde é que eu entro nisso tudo? Será que eu sou apenas uma espécie de animal ou cão? – E isso fez com que eles começassem a govoretar (falar) ainda mais alto e lançar slovos (palavras) para mim. Então eu krikei (gritei) mais alto, ainda krikando (gritando): - Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?

Informações sobre o autor –  Anthony Burgess nasceu em Manchester em 1917. Formou-se em Inglês pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1966, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Foi neste período que começou sua carreira literária.  Ao retornar a Inglaterra, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro: os dois médicos lhe deram no máximo um ano de vida. Mudou-se para a cidade costeira de Hove, no sul da Inglaterra, com a intenção de escrever vários livros para que os direitos autorais pudessem ajudar no sustento de sua esposa depois de sua morte. Mas, o diagnóstico estava errado, e Burgess viveu até 76 anos.

Referência bibliográfica
Burgess, Anthony  – 1955
Laranja Mecânica / Anthony Burgess; tradução Fábio Fernandes.
-São Paulo: Aleph, 2004.
Título original: A clockwork orange.
199p.
ISBN 978-85-7657-003-5
1. Ficção inglesa - I. Título.


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domingo, 19 de junho de 2011

Servidão Humana – William Somerset Maugham

O garoto Philip, aleijado de um pé, fica órfão. Seu tio Carey, irmão de sua mãe e seu padrinho passa a cuidar dele. A partir de então convive em uma família impregnada de conceitos morais e dogmas religiosos que terminam por conduzi-lo a uma formação rigorosa que o leva a rechaçar.
A falta de independência financeira, já que não tinha idade para gerir a pequena herança deixada pelo pai, inibe as suas escolhas e com isso advém o sofrimento.
Encaminhado a uma escola para formação básica é discriminado devido à deformidade. Rogou a Deus para curá-lo e como suas preces não foram atendidas acreditou que a sua fé não era suficientemente forte para merecer a atenção divina.

Philip decide ir à Alemanha e ao retornar a Inglaterra encontra uma hospede na casa dos tios, miss Wilkinson filha de um vigário, com a qual teve um relacionamento, apesar da diferença de idade entre eles.
Contra a sua vontade, o protagonista é encaminhado para Londres com aprendiz de contador, sente-se sozinho e teve um desempenho desastroso. Acreditando na sua capacidade artística, resolve mudar-se para Paris e matricular-se em um ateliê de pintura, contudo, também, não logrou sucesso.

Em Paris, conhece miss Price que o leva a ver obras de pintores famosos. Ao ser conduzido para apreciar “Gare St. Lazare”, o famoso quadro de Monet que representa uma estação de trem, Philip comenta com a amiga que os trilhos não estão paralelos. Price, por sua vez, responde: “Que importância tem isso?” O autor vale-se desta citação para criticar a filosofia cartesiana e mostrar que os artistas apreciam o mundo de forma diferente das pessoas comuns.
Ainda em Paris, Philip conhece o poeta Cronshow e debatem sobre a moral abstrata e a ética.  Enquanto o protagonista defendia comportamentos morais o poeta rechaçava a sua prática induzindo-o a perceber que a moral não passa de receio à punição social.

Philip desiste de ser pintor e retorna a Londres com o objetivo de estudar medicina, a mesma profissão do pai. Conhece a deselegante garçonete Mildred pela qual se apaixona: “Aquele amor era um tormento e Philip se ressentia amargamente da sujeição em que ele o mantinha. Estava prisioneiro e suspirava pela liberdade.” O autor cria esta relação para mostrar a dificuldade de aceitação, por uma das partes, em reconhecer o relacionamento fora dos padrões de beleza, moral, ética e elegância. Duas pessoas díspares, ao extremo, sendo que uma se apaixona fervorosamente pela outra mesmo sabendo que os seus valores não coadunam. Philip joga todas as suas cartas na relação com Mildred, apesar de sua exigência quanto à beleza:Estaria privado de gozar todos os prazeres que se lhe ofereciam por causa de um defeito de visão que parecia exagerar tudo quanto havia de revoltante?Aqui, o autor usa “defeito de visão” no sentido do comportamento frente às relações pessoais.

Depois de Mildred, Philip teve um relacionamento insosso com a escritora Norah, boa interlocutora, jovem, inteligente e de natureza delicada. Conheceu o jornalista Athelmy e, apesar de não esperar que as pessoas lhe mostrassem bondade, a visita a sua residência lhe rendeu uma convivência duradora e harmoniosa. Esta relação o ajudou a desvencilhar-se do imbróglio que esteve metido.

Maugham cita sobre as dependências nos relacionamentos: “Uma coisa curiosa da vida é que, depois de ver uma pessoa todos os dias, durante meses, a gente se lhe torna tão íntima que não pode imaginar a existência sem ela; mas vem a separação e tudo prossegue de idêntica maneira, de sorte que a companhia que parecia essencial revela-se desnecessária.” Diz sobre a busca incessante da felicidade: “A vida se lhe afigurará horrível quando medida pelo padrão da felicidade, mas agora tinha a impressão de ganhar forças ao descobrir que ela podia ser aferida por outros padrões.” E mostra que em momentos de dificuldade as mesmas pessoas que recriminam comportamentos imorais e antiéticos desejam praticá-los como alternativa para saída daquela situação. Assim, Maugham, inclui a vítima Philip, também, como estrategista mental para antecipar a morte do tio e se beneficiar do seu patrimônio. Lembrando que: (...) a falta de dinheiro torna o homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o caráter o faz olhar o mundo por um prisma vulgar.”

O autor ensina que as pessoas nos vêem de forma diferente da que imaginamos e que o perdão é a saída para minorar o sentimento de inferioridade e injustiça. Chama a atenção para a manipulação nas relações humanas de forma que as pessoas busquem suas verdadeiras necessidades sem deixar-se influenciar por opiniões não fundamentadas nas necessidades individualizadas. A felicidade pode ser encontrada em ações simples, sem projetos mirabolantes e intermináveis. Ensina que o amor não necessita navegar por grandes emoções. Por fim, ainda com sentimento de inferioridade, Philip diz a Sally, filha de Athelmy: “Como é que você pode gostar de mim? - Sou insignificante, aleijado, comum e feio. Ela tomou-lhe a face com as duas mãos e beijou-lhe os lábios – Você é um bobalhão, isso é o que você é.”

A obra, apesar de extensa e rica em detalhes, não cansa o leitor, ao contrário, se finda as 676 páginas com vontade de continuar lendo. O pouco de ficção contido no texto não descaracteriza a autobiografia que figura entre as obras mais importantes da literatura mundial.

Informações sobre o autor – William Somerset Maugham nasceu em Paris, em 1874. Sexto filho do procurador da embaixada britânica, sua primeira língua foi o francês. Ficou órfão aos dez anos, quando o mandaram para a Inglaterra para viver com o seu tio, vigário de Whitestable.  Formou-se em medicina e abandonou a carreira após o sucesso de seus primeiros romances e peças teatrais. Escreveu O pecado de Liza (1897), Servidão Humana (1915), O fio da navalha (19441), Uma dama na Malásia (1932), Histórias dos mares do Sul (1936), Férias de Natal (1939), Véu Pintado (1925), O destino de um homem (1930), dentre outros. Sofria de disfemia e foi ridicularizado na Inglaterra, pelos colegas de escola, por não falar bem o inglês. Tinha baixa estatura. Maugham viveu em desgraça, tanto na comunidade religiosa do tio, como na escola, onde era maltratado por companheiros. Tal fato fez com que desenvolvesse a habilidade de fazer observações sarcásticas daqueles que o enfureciam.

Referência bibliográfica
Maugham, W. Somerset, 1874 – 1965.
676p.
Servidão humana / W. Somerset Maugham ; tradução Antônio Barata; prefácio Carlos Vogt. 10.ed.rev. – São Paulo: Globo, 2005.
Tíyulo original: Of human bondage
ISBN  85-250-3877-2
1. Romance inglês I.Vogt, Carlos. II. Título.


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sábado, 14 de maio de 2011

Travessuras da menina má - Mario Vargas Llosa

De um lado um amor sem limites, do outro uma ambição desmedida e inconsequente. Assim, Mario Vargas Llosa constrói a brilhante história de Ricardo Somocurcio e Otilia.
A canalhice, normalmente praticada pelos homens nas relações amorosas, é colocada, desta vez, na figura feminina e, ao que parece, apesar das ações desprezíveis recheadas com toque de carinho verbal, leva o leitor a não odiar a personagem.
Otilia muda de nome como camaleão muda de cor para praticar as safadezas. Ricardo, por sua vez, não consegue entendê-la. Percebe-se que as aventuras da menina má deixam de ser uma necessidade para transformar-se em aberração de caráter: vai ao encontro do risco por necessidade de sofrimento. Sofrer era não se aventurar. Sujeitar-se ao risco era uma forma de punir-se. O autor nos remete para a prática da tolerância, do amor desmedido e da aceitação dos diferentes. Mostra que a opção de vida escolhida pelo indivíduo é como uma flecha lançada, na maioria das vezes não tem volta.

O leitor censura a menina má e, ao mesmo tempo, deseja que alguma coisa de normal aconteça.
A aventura começa com a chilenita Lily, depois veio a camarada Arlete, madame Robert Arnoux, Mrs. Richndson e Kuriko. Todos elegeriam madame Somocurcio com favorita, mas, a aventura exalava da pele da menina má como nicotina evapora do corpo de um fumante.

Mario Vargas Llosa se aproveita da menina má para oferecer um cenário sociopolítico vivido no Peru. Migram os personagens para a França, país símbolo da democracia, para Cuba, na busca de justiça social e  para a Inglaterra reverenciando os movimentos culturais das décadas 60 a 80. A tortura sofrida pela menina má, no Japão, serve de alusão ao regime implantado no Peru pelo ex-presidente, Fujimori, que também possui cidadania japonesa.
Llosa, chama a atenção para a adoção de menores e exalta a prática como uma decisão a ser tomada sem preconceito. A criança vietnamita incapaz de falar, adotada por um casal amigo de Ricardo,  começa a balbuciar a partir do momento que atende ao telefone da menina má. Este tema adoça a carapaça da aventureira, mostra que perdas, carências sociais e afetivas podem ser superadas através da atenção para com o próximo. Lembra que o bem e o mal estão no mesmo indivíduo e nos compete à escolha por um ou outro. 

O texto apresenta uma aventura descomunal e oferece um aprendizado digno da experiência do grande escritor, Mario Vargas Llosa. A leitura é imperdível!

Informações sobre o autor – Mario Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e escritor consagrado internacionalmente. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, ganhou notoriedade literária com a publicação do romance A cidade e os cachorros (1961). Mudou-se para Paris nos anos 60 e lecionou em diversas universidades americanas e européias, ao longo dos anos. Publicou Conversa na catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, Quem matou Palomino Molero? Cartas a um jovem escritor. Recebeu os prêmios Cervantes, Príncipe das Astúrias. Foi candidato derrotado à presidência do Peru, em 1990, perdendo a eleição para Alberto Fugjimori..

Referência bibliográfica

Vargas Llosa, Mario
Travessuras da menina má / Mario Vargas Llosa ; tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht..
302p.
Tradução de: Travessuras de la niña mala.
ISBN  85-7302-808-4
Romance peruano. I.Roitman, Ari, paulina. II. Título.


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