domingo, 12 de setembro de 2010

Bipolar – Terri Cheney

A autora relatar fatos ocorridos no seu cotidiano e a dificuldade de viver com a alternância do estado de euforia e depressão. Mostra a dificuldade de esconder a perturbação psíquica para não prejudicá-la profissionalmente.
O seu estado de espírito definia a sua vida e o mundo real se tornou difícil de ser identificado. As conseqüências dos seus atos, quase sempre, não atendiam às boas intenções, apesar de alguns momentos de euforia lhe tenha favorecido profissionalmente e em outros proporcionaram desconforto e angustia.
O reconhecimento da situação psíquica era um fato real, contudo, a atitude para minimizar a crise se constituía numa barreira intransponível. O desejo para coisas extremas aparecia, sempre, amparado por uma farta energia e após os feitos vinha,  a reboque, a necessidade de restabelecê-la.
O sofrimento de esconder a situação começou a acabar quando, Cheney, decidiu revelar a amigos a sua condição psíquica e foi em busca do controle da sua verdade. Diz, ela: “Contar a verdade é uma dança como qualquer outra, com passos, ritmos e etiqueta. Eu tinha levado a vida inteira para aprender a mentir. E, agora, teria que dedicar um pouco mais de tempo para estudar a arte da revelação.”

O texto é uma contribuição importante para os leigos que desejam conhecer, superficialmente, a vida de uma pessoa bipolar, e, por certo, ajudará a identificar atitudes e comportamentos que levem ao entendimento, aceitação e quebra de preconceitos.

Informações sobre a autora – É advogada especializada em propriedade intelectual e contencioso de entretenimento. Depois de anos lutando secretamente com psicose maníaco depressiva, decidiu abandonar a profissão e se dedicar à causa das doenças mentais. Foi nomeada membro do conselho de consultores do Programa de Pesquisas sobre Desordens do Comportamento da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e fundou um grupo comunitário de apoio no Instituto de Neuropsiquiatria da UCLA. Mora em Los Angeles, Califórnia.

Referências Bibliográficas
Cheney, Terri
Bipolar / Terri Cheney; tradução Júlio de Andrade Filho e Clene Salles. – São Paulo: Larousse do Brasil, 2008.
Título original: Manic.
 ISBN 978-85-7635-284-6
1.    Cheney, Terri, 1959 – 2. Pacientes de transtorno bipolar – Biografia. 3. Transtorno bipolar. I. Título.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Múltipla Escolha - Lya Luft

Indignação, possivelmente, é a palavra mais adequada para descrever o ensaio escrito por Lya Luft.
O título, Múltipla Escolha, insinua a condição do ser humano em escolher o seu destino.
O texto é abrangente, instigante e provocativo, contudo, não apresenta sugestões para a maioria das questões sociais referidas. Oferece posicionamentos a respeito das relações, tendo como pano de fundo a hierarquia da pirâmide familiar.
A autora pontua a maioria dos temas que angustia a sociedade brasileira, com ênfase na ausência do exercício da autoridade familiar, e questiona ações equivocadas nos discursos sobre direitos humanos ao colocar a sociedade como responsável pelos desvirtuamentos de valores éticos.
Múltipla Escolha se apresenta como um discurso de desabafo diante do descontentamento por ausência da ética nas relações, necessária à formação de valores, que contribuem para o encontro com a esperada e remota justiça social.
Os temas abordados pela autora são cotidianos e conhecidos, porém, muitos dos valores distorcidos já se encontram arraigados nos comportamentos sociais e, muitas das vezes, impercebíveis como distorção.
Lya Luft cita: “É estranho pensar que tudo tem sua importância: o modo como levo o copo d’água, o jeito com olho o meu filho, dirijo meu carro, escrevo meu texto, prendo o botão da camisa com o cheiro da pessoa amada, cavo minha cova ou como uma fruta. Tudo modifica o mundo, tudo depende (em parte) de mim.”
Filosofa quando cita: “E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa em qualquer idade, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada, a alegria de viver, e o prazer das coisas.”
Diz mais: “enquanto o corpo encolhe a mente e o coração podem continuar expandindo.”

O texto merece ser visto como um retrato social que concentra atitudes que ultrapassam direitos e deveres, entretanto, sabe-se que muitos dos que se dedicaram à procura do mundo perfeito terminaram se decepcionando com o resultado. A humanidade é mutável e os valores variam de sociedade para sociedade. É só ver as notícias divulgadas de outras civilizações para entender que o feio, ruim e extravagante para um povo pode ser belo, bom e normal para outros.

Informações sobre a autora - Lya Luft começou a carreira em 1980, aos 41 anos,com a publicação do romance As parceiras, seguido por A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1994), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996), Secreta mirada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro ( 2002), Perdas & Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004), Histórias de Bruxa Boa (2004), além de outros títulos. Formada em letras anglo-germânicas e com mestrado em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya professora de linguística de 1970 a 1980. Atuou como tradutora de várias obras de autores consagrados, como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing.

Referência bibliográfica
Luft, Lya
Múltipla escolha / Lya Luft. - Rio de Janeiro: Record, 2010.
189p.
ISBN 978-85-01-08952-6
1. Luft, Lya, 1938-. 2. Ensaio. I. Título.

sábado, 21 de agosto de 2010

A Peste – Albert Camus

Albert Camus escolhe a cidade de Oran, confinada entre o mar e as portas cerradas, para simbolizar a ocupação nazista na França. A doença disseminada pelos ratos que saiam dos esgotos, dos porões e das fábricas invade a cidade, contamina a população e obriga os seus dirigentes a aguardarem, pacientemente, o fim do processo dominador. Uma espécie de atitude de inferioridade que o ser humano assume quando se depara com determinadas situações. A cidade que serve de palco para a história é finita apesar do horizonte marítimo. Os seus limites físicos servem para simbolizar a impotência em relação ao poderio armamentista da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

A peste bubônica ataca a cidade e mata, diariamente, um número razoável de concidadãos, como se refere o autor, tempo em que os vivos, sem saber quando serão escolhidos pela peste, aguardam pacientemente e ordeiramente o destino, restando-lhes, apenas, a prática da solidariedade.
O relato simbólico da peste foca as relações pessoais, a amizade não declarada, a prática do bem, o questionamento de valores religiosos, a família, o sofrimento taciturno e introvertido, a separação amorosa, e os privilégios das classes sociais mais poderosas.
A peste atacou bons e maus, adultos e crianças, religiosos e ateus. Não se sabia o antídoto da defesa, por isso, submeteram-se a imposição. O remédio veio com o tempo. O soro da liberdade foi anunciado com veemência e recebido pela população com alegria e festejo. A fraternidade foi exercitada durante todo processo simbólico, contudo, a desigualdade se apresentou na forma de acesso aos gêneros alimentícios, nas quarentenas e, ao que parece, apesar do sofrimento não remeteu a mudanças significativas.

A Peste é um livro fantástico. Mostra a mudança de valores quando o ser humano é submetido a situações de impotência. O que parece importante deixa de ser e o coletivo passa a tomar corpo em detrimento do individual. Os pecadores podem ser aceitos e os santos renegados. A Peste conduz o leitor a experimentar situações que lembra fatos políticos ocorridos no mundo, não só, na simbologia da Segunda Guerra Mundial, mas, também, nos Estados autoritários experimentados na Europa, na Ásia, e nas Américas.

A analogia entre a impotência humana sob a epidemia e a exclusão da liberdade é a trama escolhida para despertar as agruras da humanidade. O autor exige uma moral simultânea de conhecimento da necessidade e o exercício de poder: "Na realidade, um homem deve lutar pelas vítimas. Mas, se deixa de gostar de todo o resto, de que serve lutar?"

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
A peste / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek Chaves. - 18ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
218p.
Tradução de: La peste
ISBN 987-85-01-01487-0
Romance francês. I. Chaves, Valerie Rumjanek.II.Título

domingo, 25 de julho de 2010

O Rei da Noite – João Ubaldo Ribeiro

O livro de crônicas do baiano João Ubaldo Ribeiro aborda temas do cotidiano que interferem nas relações, no comportamento e na psique. Tudo é dito de forma hilária, contudo, o que nos parece muito divertido concentra relatos de atitudes e sentimentos que interferem no dia-a-dia das pessoas, e, certamente, marcaram a vida do autor.

Ele descreve sobre os equívocos cometidos por pessoas que não sabem se comportar em reuniões sociais; o sofrimento de fumantes dispostos a largarem o vício; os traumas de infância provocados pelas famílias; os conflitos psicológicos levados pelo conforto da ociosidade e a necessidade da atividade física; o padrão de beleza nacional em relação às mulheres de cinturas fina e bundas grande; a banalidade das cirurgias plásticas; as experiências no uso da alimentação macrobiótica; as minorias da sociedade; a evolução tecnológica, apreciada desde a infância, e a difícil adaptação no momento atual; a ignorância em relação à prevenção de doenças, especialmente a Aids; a exploração sexual por estrangeiros; as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, quando o assunto é sexo; as surpresas em relação aos mitos; a mudança comportamental nos relacionamentos conjugais e o uso da família como suporte; o medo da família em relação à droga; a pressão feminina nas relações familiares; o retrato cultural em relação aos mentirosos, cujo termo regional ele se refere a colhudeiros; as relações de empregos, especialmente os temporários e  extravagantes;  o sofrimento dos escritores ao aguardarem as tiragem das primeiras edições dos livros; as campanhas para prevenção à saúde e seus interesses econômicos; e, além de outros temas, a preocupação da sociedade em relação à segurança pública e a sua incapacidade na gestão dos processos, através de ações individualizadas.

O livro é um deleite, o leitor se diverte do início ao fim do texto. Sua forma não inibe a percepção sobre os temas, ao contrário, ressalta e estimula o debate e remete a lembranças de fatos do cotidiano.

O título O Rei da Noite é, também, a crônica de abertura e se torna o convite, irrecusável, para a leitura das demais.

Informações sobre o autor – Baiano da Ilha de Itaparica começou a escrever cedo, aos vinte e um anos, publicou Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro, A casa dos budas ditosos, Diário do farol, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu o prêmio Camões, atribuído aos maiores escritores da língua portuguesa.

Referência bibliográfica
Ribeiro, João Ubaldo
O rei da noite / João Ubaldo Ribeiro. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
197p.
ISBN 978-85-7302-929-1
1. Crônica brasileira. I.Título.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Criação Imperfeita – Marcelo Gleiser

A descrição sobre a origem do Universo, feita pelo físico Marcelo Gleiser, conduz o leitor a acreditar que se a Natureza fosse perfeita não estaríamos aqui.
A maioria dos cientistas procura por uma explicação da origem do Universo baseada nas simetrias, contudo, Gleiser esclarece que se não fosse as assimetrias, provavelmente, a vida não existiria. Pode-se concluir que as mutações ocorridas na Natureza são responsáveis pela evolução da vida até chegar ao nível da consciência humana. A nossa existência se deve às imperfeições no processo de reprodução genética.

Sobre os humanos o autor esclarece que pouco importa se somos ou não os únicos seres conscientes no Cosmo, já que as distâncias no Universo impossibilitam qualquer tentativa de contato.

A procura por uma “Teoria Final”, perfeita, que esclareça a criação do Universo, pesquisada com obstinação pelos cientistas, provavelmente, nunca será elucidada.  Vivemos em um Universo imperfeito, bem diferente das nossas expectativas de simetria e beleza. Aliás, a assimetria, diferente do que muitos imaginam, em muitas situações, é quem traz a encanto.

Gleiser prepara os leitores menos familiarizados com as leis da física, esclarece as teorias e descobertas feitas pela ciência, nos leva a entender o processo da criação com o uso de uma linguagem clara e sem agressão às crenças religiosas. Consegue esvaziar nossa expectativa a respeito da necessidade de busca por um sentido do homem na Terra. Para ele somos obra do acaso e estamos aqui por um processo evolutivo.

Marcelo Gleiser diz que a nossa visão de mundo é determinada pelo que podemos ver e medir e que a Fé brota da nossa dificuldade de lidar com o imprevisto, o que foge ao nosso controle ou não somos capazes de compreender. Somos únicos e especiais, não porque fomos criados por Deus, ou por sermos resultado de uma intensionalidade cósmica, mas, porque estamos vivos e temos consciência da nossa existência.

O livro é contemporâneo e remete o leitor à reflexão de conceitos familiares e religiosos que oferecem conforto psicológico. Apesar de o tema ser complexo a linguagem é simples, direta e a forma estimula a leitura. Ao encerrar a última página, ninguém sai como entrou... 

Informações sobre o autor – Marcelo Gleiser é professor de Filosofia Natural e de Física e Astronomia no Dertmouth College, onde dirige um grupo de pesquisa em física teórica. É autor de “A dança do universo” e “O fim da terra e do céu”, ambos vencedores do Prêmio Jabuti.
 
Referência bibliográfica
Gleiser, Marelo, 1959
Criação imperfeita / Marcelo Gleiser. 3ª edição - Rio de Janeiro: Record, 2010.
366p.
ISBN 978-85-01-08997-7
1. Criação. 2. Religião. 3. Matéria – Constituição. 4. Deus. I. Título.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mãe e o sentido da vida – Irvin D. Yalom

O autor narra seis situações de psicoterapias voltadas para questões de pacientes com dificuldades de relacionamentos, medo da morte e sentimentos de perdas.
O texto entrelaça histórias e envolvimento do psiquiatra além das revelações autobiográficas a respeito das dificuldades, na infância, que interferiram na relação com a sua mãe.
As simbologias reveladas nos sonhos são usadas para indagações e busca de sentido dos sofrimentos na tentativa de encaminhar mudança comportamental que possam minimizar a angustia dos pacientes.

Ao escrever Quando Nietzsche chorou, Irvin criou um embate entre o doutor Josef Breuer e o filósofo Friedrich Nietzsche, agora, no texto em questão, o autor relata um embate contundente entre ele, o psiquiatra, e uma paciente, médica, que resolveu competir e interagir no tratamento de forma pouco comum, chegando a liderar grupos de debates de pessoas com câncer. Paula, a paciente, questiona o psiquiatra, e o acusa de traidor por não entender o seu afastamento.

Na primeira reunião com um dos grupos a paciente surpreendeu o psiquiatra com a leitura de uma parábola:  “ Um rabino teve uma conversa com o Senhor sobre o paraíso e o inferno. Vou mostrar-lhe o inferno, disse o Senhor, e levou o rabino para um aposento em que havia uma grande mesa redonda. As pessoas sentadas em volta dela estavam famintas e desesperadas. No centro da mesa havia uma enorme panela de cozido, com um cheiro tão delicioso que a boca do rabino se encheu de água. Cada pessoa em torno da mesa segurava uma colher com um cabo longuíssimo. Mas, apesar de as colheres alcançarem a panela, seus cabos eram mais compridos que os braços dos candidatos a comensais: assim, incapazes de levar o alimento à boca, nenhum deles conseguia comer. O rabino viu que seu sofrimento era realmente terrível.
“Agora, vou mostrar-lhe o paraíso”, disse o Senhor, e foram para outro aposento, exatamente igual ao primeiro. Lá estavam a mesma grande mesa redonda, a mesma panela de cozido. As pessoas, tal como antes, estavam munidas das mesmas colheres de cabo longuíssimo – mas lá, todas eram bem nutridas e cheinhas, riam e conversavam. O rabino não conseguiu entender. “è simples, mas exige uma certa habilidade”, disse o Senhor. “Nesta sala, como você vê, eles aprenderam a alimentar uns aos outros.”

O texto é recheado de informações técnicas, contudo pode ser compreendido pelo leitor pouco familiarizado com o estudo da psicanálise. A sua forma possibilita analise de quanto os sentimentos interferem na vida  quando os motivos não são identificados.

Informações sobre o autor – Irvin D. Yalom é um escritor americano, filho de imigrantes russos. Formou-se em psiquiatria na Universidade de Stanford. O seu primeiro romance foi “Quando Nietzsche Chorou”. Escreveu também “A Cura de Schopenhauer”, “Mentiras no divã”, “De Frente para o Sol” e “Os desafios da terapia”. 

Referência bibliográfica
Yalom, Irvin, 1931
Mãe e o sentido da vida: histórias de psicoterapia / Irvin D. Yalom; tradução de Lucia Ribeiro da Silva. -Rio de Janeiro: Agir, 2008.
246p.
Tradução de: Momma and the Meaning of Life
ISBN 978-85-220-0921-3
1. Psicoterapia – Estudo de casos – Ficção. I. Silva, Lucia Ribeiro da II.Título