domingo, 6 de novembro de 2011

A Costureira e o Cangaceiro – Frances de Pontes Peebles

A história conta a dificuldade das famílias que habitaram a caatinga nas margens do rio São Francisco, que divisa os estados da Bahia, Alagoas e Pernambuco.
Os leitores que conhecem a região são atraídos pela forma, precisa, de caracterizar o contexto, não só quanto aos fatos políticos e composição sociológica, mas, também, pelo detalhamento, não cansativo, do cenário que emoldura a trama.
A narrativa nos remete à década de trinta, onde os movimentos políticos, liderados por Getúlio Vargas, se contrapõem com a magnitude climática, cuja seca dizima tudo e a todos, a chuva, faz renascer a esperança, provoca o rebroto da flora enquanto a fauna desperta da hibernação protetora.

Duas irmãs, marcadas pelo sofrimento, decidem caminhar em sentidos opostos. Uma, na tentativa de se desvencilhar da subserviência caótica, arranja um relacionamento, nada comum à época, e se desloca para a cidade litorânea do Recife enquanto a outra ignora a esperança, se deixa raptar por um bando de cangaceiros.

A história centrada nas dificuldades de pessoas nascidas em ambientes insalubres, desprovidos de conforto e submetidas às atrocidades dos coronéis latifundiários, margeia a conhecida saga  de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, famoso cangaceiro decapitado na Grota do Angico, às margens do São Francisco, por tropa do governo.

A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder e adentrou a caatinga com ações repressivas, com o intuito de exterminar os bandos de justiceiros do nordeste brasileiro, à época apoiados pela população carente e por coronéis, latifundiários, em troca de segurança.
A seca castigava e a falta de condições mínimas para sobrevivência obrigou a população a migrar para as periferias das grandes cidades.  Muitos dos que permaneceram na caatinga morreram de sede e fome, presos as origens, e grupos sem poder de decisão sobre suas vidas, diante da falta do mínimo necessário à sobrevivência, foram recebidos em campos de refugiados da seca, montados pelo governo, na tentativa de frear o êxodo rural.

O texto percorre a saga do cangaço, matizada com histórias familiares que caracterizam os valores sociais à época. Bem escrito, apesar de extenso, transporta o leitor para uma reflexão dos aspectos regionais que continuam intrínsecos ao povo catingueiro.  É só ir até a Grota do Angico para entender a dicotomia.

Informações sobre o autor – A escritora, filha de mãe pernambucana e pai norte-americano, nasceu no Recife, Pernambuco. É formada em letras pela Universidade do Texas, em Austin, fez mestrado no Writers’ Workshop da Universidade de Iowa. Mora em Chicago, Illinois, e todo ano passa férias em seu sítio em Taquaritinga do Norte, Pernambuco. Ganhou os prêmios Friends of American Writers Award for Fiction e Elle Magazine’s Grand Prix 2008.

Referência bibliográfica
Peebles, Frances de Pontes
A costureira e o cangaceiro / Frances de Pontes Peebles; Tradução de Maria Helena Rouanet.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Tradução de: The seamstress.
620p.
ISBN 978-85-209-2168-5
1. Romance americano. I. Rouanet, Maria Helena, 1950.  II. Título.

Um comentário:

  1. Li o livro a pouco tempo, sei que é um ficção com base em pesquisa bem feita sobre um passado que a maioria quer esquecer, devido as crueldades, que se assemelham a certos filmes de terror. Porem lendo atentamente o livro se pode tirar dele vários entendimentos de como funcionava a mistura de poderes entre um estado ainda "engatinhando" em um território enorme e os Coronéis e Cangaceiros que conseguiam sobreviver em meios a caatinga seca e hostil.

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