quinta-feira, 14 de maio de 2009

101 dias em Bagdá - Asne Seierstad

Aliya, a interprete da jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad, que acompanhou a invasão americana ao Iraque, de janeiro a abril de 2003 e escreveu o livro 101 dias em Bagdá, viveu a guerra de forma diferente dos demais iraquianos.

Segundo Asne, ela foi indicada pelo governo de Saddam Hussein para acompanhá-la em suas atividades, dias antes do início da invasão americana.
Apesar de contestar o comportamento de Aliya, diante da disciplina imposta pelo antigo regime, Asne tentou compreendê-la ao ter conhecimento da forma que eram cobradas os descumprimentos às ordens de Saddam.

O que parecia atitude vinda da consciência, não passava de lavagem cerebral imposta aos iraquianos, que não tinham a oportunidade de analisar o que era certo e errado.
No entanto, a disciplina às leis imposta pelo regime, e principalmente a falta de condições de questioná-las fez de Aliya uma pessoa desprovida de opinião. E quando as tinha não sabia se podia externá-las.

Após a invasão do Iraque pelas forças aliadas aos Estados Unidos a interprete chegou a se perguntar, sem, contudo expressar a opinião a respeito: - “As pessoas dizem que ele (Saddam) não se preocupava conosco. Dizem que só pensa em si mesmo.”
Enquanto um soldado americano observava a destruição da Babilônia expressou a sua opinião: - “Não tenho certeza que esta guerra seja justa. (...) Acho que tudo isso é por causa do petróleo. (...) O único ministério que protegemos é o do petróleo.”

Os 101 dias relatados pela escritora foram alternados pelo silêncio, pânico, expectativa, e destruições. Faltaram serviços essenciais a exemplo de energia, água, comunicação, além de alimentos para a população.
Para exercer o trabalho de correspondente precisou driblar a segurança de Saddam Hussein e desenvolver habilidades próprias para conseguir informações a serem transmitidas ao exterior.
Não poucas foram as oportunidades que precisou se proteger dos bombardeios americanos. Até mesmo na hora de transmitir as notícias em horários definidos pelas redes de TV descumpriu recomendações de segurança.

Os temores de uma jornalista que viveu dentro de uma guerra, foram relatados com isenção no livro 101 dias em Bagdá. No mais, Saddam já recebeu a sua sentença, e o os iraquianos torcem por uma vida normal, apesar das ingerências internacionais, especialmente as dos Estados Unidos que não sabem como sair do país. 

Informações sobre o autor - Asne Seierstad nasceu na Noruega em 1970, é jornalista e escritora. É licenciada em filologia russa e espanhola e história da filosofia pela Universidade de Oslo. Correspondente de guerra desde 1994 cobriu diversos confrontos internacionais para meios de comunicação escandinavos, holandeses e alemães. Recebeu o Grande Prêmio Norueguês de Jornalismo, em 2003. 

Referência bibliográfica
Seierstad, Asne,1970
101 dias em Bagda / Asne Seierstad; adaptação da tradução portuguesa por Sofia de Sousa Silva. - 2ª ed. - Rio de Janeiro:

Record, 2006.
383p.

Tradução de: Hundre og én dag: En Reportasjereise
ISBN 85-01-07779-8
1. Seierstad, Asne, 1970 - Viagens - Bagdá (Iraque). 2 Iraque, Guerra do, 2003 - Narrativas pessoais norueguesas. 3. Iraque, Guerra. do 2003 - Jornalista. I.Título.

domingo, 10 de maio de 2009

As Intermitências da Morte – José Saramago

A narrativa do livro permite ao leitor embarcar em avaliações distintas com base no ângulo que mais lhe convier. Contudo, por mais que se escolha um foco, as questões éticas, políticas e sociais permeiam a história de forma hilária.

O ocidental tem o hábito de ao falar sobre a morte considerar-se fora do contexto. Saramago trata o assunto com naturalidade, às vezes cômica. Leva o leitor a avaliar as consequências de uma eventual greve daquela que a maioria dos mortais não a querem por perto.

A temática da escrita é focada do início ao fim do livro, e chega ao ponto do leitor tentar se inserir no dialogar com a morte. O desejo da inserção tem o objetivo de reabitá-la da pseudo maldade, e mantê-la em atividade mortífera oxigenando a logística criada pela sociedade moderna.

O leitor deseja também dialogar com a personagem principal do livro para se aconchegar, e se possível, tornar-se amigo e convencê-la a excluí-lo da lista. Conhecendo-a melhor, ele teria a oportunidade de entender o procedimento da escolha e interagir de forma adequada, em oposição a este.
O medo da inflexibilidade da morte é verdadeiro. Quando ela dá as caras e desiste, por uns tempos, muitos ensinamentos são percebidos, apesar da ausência de diálogo.

As famílias, os hospitais, o governo, as funerárias, os cemitérios, as seguradoras, e muitas estruturas que vivem da logística, criada para viabilizar conforto aos vivos, reclamam da trégua unilateral da morte.

A sociedade se queixa, discretamente para não parecer antiética, e aceita os préstimos da máfia para viabilizar o intento de substituir a morte naquele país imaginário que ninguém morreu durante muitos meses.

Saramago mostra, mais uma vez, que os princípios éticos, defendidos socialmente, são deixados de lado quando a crise abrange o contexto geral. Bate de frente nos filósofos e religiosos de meiatigela, sem poupar a personagem principal do livro: a morte.
É um livro fascinante, apesar do tema que traz a personagem que carrega a foice encarregada de ceifar a vida.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores, foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922
As intermintências da morte: romance / José Saramago. - São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
206p.
ISBN 978-85-359-0725-4
1. Romance português. I.Título.

De frente para o sol – Irvin D. Yalom


O que nos leva a uma fonte inesgotável de idéias e a independência do pensamento é a boa saúde e a riqueza intelectual. A perturbação causada pela interpretação que fazemos das coisas pode distorcer o fato, já que o mesmo tema é analisado e sentido de várias formas por diferentes pessoas.

Um olhar sem hesitação para a morte constitui a mensagem de Irvin D. Yalom, que sugere a necessidade de analisá-la com a mesma independência que temos para confrontar outros medos.
A negação da morte termina nos impondo uma cobrança elevada e em consequência vem o encolhimento da vida interior, o ofuscamento da visão e o achatamento da racionalidade. Quanto mais se fracassa em viver, mais medo se tem da morte.

O filósofo francês existencialista Jean Paul Satre disse que a última batida do seu coração estaria gravada na última página de seu trabalho e a morte estaria levando apenas um homem morto.
Enquanto Satre deixa bem claro o que pensava sobre a morte, o não menos respeitável filósofo grego Epícuro de Samos descreve que a preocupação com a morte não é consciente para a maioria das pessoas. Ela se apresenta por meio de manifestações disfarçadas, a exemplo de uma religiosidade excessiva, um acúmulo obsessivo de riquezas, e, até mesmo, sob a forma de propagação de realizações e desejo cego de poder e honraria. Em todos os casos há uma visão equivocada de imortalidade.

O livro apresenta análises psicológicas de pessoas que sofreram com problemas relacionados à morte de forma inconsciente e tiveram oportunidades de aflorá-los com a ajuda profissional.
Apesar da conhecida posição religiosa do autor, o texto flui de forma leve, sem drama ou preconceito. Pelo contrário, todas as citações são extremamente responsáveis e éticas.

Informações sobre o autor – Irvin D. Yalom é um escritor americano, filho de imigrantes russos. Formou-se em psiquiatria na Universidade de Stanford. O seu primeiro romance foi “Quando Nietzsche Chorou”. Escreveu também “A Cura de Schopenhauer”, “Mentiras no divã” e “Os desafios da terapia”.

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