segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Na Colônia Penal – Franz Kafka

O conto metafórico de Kafka nos remete a reflexão sobre os regimes ditatoriais, cujo poder, em vez de distribuído na estrutura jurídica, é concentrado em pessoas.
A história ocorre em uma Colônia Penal sobre os olhos de um visitante, convidado a acompanhar o processo de torturas e execuções.
Sem poder expressar a sua opinião a respeito do que estava presenciando, o observador procurou manteve-se fora do contexto apesar de insultado e provocado pelo oficial juiz e executor.
Os interesses eram divergentes. Enquanto o observador analisava o processo para compará-lo ao usado em seu país, o oficial almejava a sua concordância, com o intuito de ganhar apoio para a manutenção do método, em razão da existência de um novo comandante na Colônia Penal que havia insinuado o desejo de alterar o antigo procedimento.
Durante uma das torturas, questionado sobre o crime praticado pelo condenado, o oficial juiz informou que o indivíduo havia dormido em serviço. Neste caso, a pena imputada, por ele, foi tortura seguida da execução.
Torturar, na Colônia Penal, quer dizer: escrever a sentença, no corpo do condenado, utilizando-se agulhas presas em uma espécie de rastelo ligado a uma máquina que se encarregava de deslizar no corpo imobilizado do sujeito.
Sem esboçar qualquer reação, o sentenciado era amarrado na sofisticada máquina, e, só depois de colocada para funcionar, a sentença era escrita, de forma cruel, no corpo desnudo, durante aproximadamente sete horas. O sangue jorrava, se misturava com água e escorria para o fosso. Depois de tatuada a sentença, a máquina concluía o procedimento executando o condenado. Não bastava condenar por banalidades, mas, torturar e executar, lentamente, de forma sádica.
Ao perceber que não teria o apoio do visitante e a discordância do novo comandante da Colônia Penal na defesa do método, o oficial juiz fez uso da geringonça que havia inventado e aperfeiçoado para o seu próprio fim. Aguardou deitado, calmo e convicto a ponta do estilete, preso no rastelo, atravessar a sua testa.

Kafka lembra metaforicamente os crimes praticados pela humanidade e antevêem, em 1914, outras atrocidades praticadas na Segunda Guerra Mundial. Induz, ainda, à reflexão que a consciência pune os indivíduos envolvidos em atos e ações desastrosas, a exemplo das praticadas no holocausto. Deixa, também, uma mensagem escrita em letras pequenas, para que todos necessitem se ajoelhar para lê-la, na lápide do antigo comandante que havia ajudado a criar o torturante procedimento: "Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, cavaram-lhe o túmulo e assentaram a lápide. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, ressuscitará e chefiará seus adeptos para a reconquista da colônia. Acreditai e esperai!"

Esta última metáfora, escrita na lápide, remete à convicção que os crimes e as torturas voltam a acontecer e que é sempre bom lembrar a necessidade da vigilância social e política. Há sempre adeptos da tortura, do autoritarismo e a crença da reencarnação. 

Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico. 

Referência bibliográfica
Kafka, Franz.
Na colônia penal / Franz Kafka; tradução Modesto Carone. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. - (Coleção Leitura)
51p.
ISBN 85-219-0223-9
1. Ficção alemã I. Título. II. Série

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma História Lamentável – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Três cavalheiros respeitáveis reunidos na casa do conselheiro Stepán Nikíforovitch Nikíforov conversavam, tarde da noite, até que um deles, o jovem general russo Iván Ilítch Pralínskii, expressou opiniões de cunho social: “Está mais do que na hora! Já nos retardamos demais, e, a meu ver, humanidade é a primeira condição; humanidade no modo de tratar os subalternos, pois não se deve esquecer que são homens como nós! A humanidade será a salvação universal e porá tudo nos trilhos...”

Os outros não concordaram com as idéias renovadoras do jovem general e, apesar de mantida a cortesia, a discussão gerou certo desconforto.
Iván acompanhado por Semión Ivánovitch Chipuliénko deixaram a casa do anfitrião e perceberam que o cocheiro Trifón havia saído com o trenó. Iván decidu ir andando até a sua residência.
Percebeu movimentação festiva em uma das casas e foi informado que se tratava da comemoração do casamento de um dos seus funcionários. Decidiu entrar e por em prática suas idéias socialistas humanitárias, defendidas minutos antes na casa do conselheiro Stepán.

Preocupado de como seria recebido pelo noivo Porfírii Petróvitch Pseudonimov, preparou-se para evitar convencionalismo, contudo, a sua presença, no primeiro momento, terminou causando inquietação dos presentes.
No decorrer da festa, Iván, se viu em constante conflito. Procurava se portar de forma a não criar embaraços aos convidados, e, ao mesmo tempo censurava as pessoas que estimuladas pelo álcool o tratavam de forma indiferente.
Sem alternativa para uma saída honrosa perdeu o controle e terminou se embebedando, fato que levou o ilustre intruso desmaiar. Sem alternativa, foi levado a ocupar a cama preparada para a noite de núpcias.
Não bastasse a apropriação da alcova, Iván Ilítch Pralínskii teve que ser amparado durante a madrugada, pela generosa mãe do noivo que ficou com a incumbência de transitar com um urinol, pelos corredores da casa, devido a um incontrolável desarranjo intestinal do general.
Recolhido em sua residência por oito longos dias, após o ocorrido, Iván, voltou envergonhado ao trabalho sem saber como se posicionar perante os subordinados. Sentado em uma cadeira exclamou: “Não suportei!”

O autor nos remete a uma reflexão: algumas vezes, os valores intrínsecos na consciência terminam por trair princípios sociais defendidos através da visão humanista, e promove um conflituoso sofrimento mental.
A pequena “História Lamentável” contada por Fiódor Dostoiévski é divertida e traz ponderações filosóficas importantes para o próprio comportamento e para o senso crítico de que os analisa. 

Informações sobre o autor Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski,  nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiodor, 1821-1881.
Uma história lamentável / Dostoiéviski; tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira.
2. ed. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
(Coleção Leitura)
101p.
ISBN 85-219-0225-5
1. Contos russos. I. Título. II.Série.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Veronika Decide Morrer – Paulo Coelho

A falta de percepção de significado para a vida, originada por uma silenciosa depressão, induziu a jovem Veronika tentar suicídio usando um coquetel de comprimidos.
Desacordada, foi levada a uma clinica para pacientes com problemas mentais. Lá, deparou-se com uma situação inusitada: viu-se ludibriada pelo médico psiquiatra que a usou em experiências, objetivando ajudar o tratamento de outros internos.
Lúcida, apesar de ter sido convencida que lhe restava poucos dias de vida, a jovem tentou fugir da clinica e antecipar, mais uma vez, a sua morte, já que não encontrava motivos para aguardar a natureza se encarregar do fato.
Por sua vez, o médico, cônscio que Veronika ainda podia viver por muito tempo, se viu dividido em dar continuidade à experiência médica psicológica e mantê-la, na clinica, com segurança.

Quando da visita dos pais, Veronika tenta explicar que nada do que havia acontecido tinha fundamento na relação familiar.

Apesar de depressiva, a jovem tinha perfeita consciência dos acontecimentos e com a ajuda de outros pacientes conseguiu se desvencilhar da situação fugindo com um rapaz que havia bloqueado a fala, por sentimento de culpa, devido a morte de sua namorada em um acidente de carro.

O livro remete o leitor a refletir sobre a capacidade da mente em processar sentimentos que podem levar a comportamentos e atitudes que mascaram alternativas para a felicidade. Mostra, ainda, que a falta do autoconhecimento e da percepção de uma visão dimensional de coisas, tempo e temas que envolvem a aquietação, necessária ao aguardo de soluções aparentemente insolúveis, pode levar o indivíduo a atitudes divergentes da ordem natural da vida.

Paulo Coelho - Nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista. Vendeu mais de 100 milhões de livros, de acordo com a revista americana "Publishing Trends". O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 74 países, e vendeu mais de 35 milhões de exemplares. Este livro lhe rendeu em 2008 Prémio Guinness World Record pelo livro mais traduzido no mundo. ()

sábado, 21 de novembro de 2009

A Felicidade Conjugal - Leon Tolstói


A história é narrada pela jovem María Aleksândrovna, que perder os pais e passa a ser cuidada por Kátia, sua devota criada.
Serguêi Mikháilich, amigo da família, tornou-se provedor de María. Passou a frequentar a casa e despertou o interesse da jovem, apesar da diferença de idade entre eles. Serguêi sentia-se inibido em confessar a sua pretensão, mas, com o passar do tempo, a jovem facilita a decisão e, ele, a propõe o casamento.
Decidiram morar, nos primeiros meses de casados, na mansão de Tatiana Semiônovna, mãe de Serguêi. A felicidade era plena até María perceber que o estilo formal da família a sufocava e impossibilitava de demonstrar, com espontaneidade, o amor que sentia pelo marido.
Serguêi, ao perceber sinais do descontentamento da mulher, propôs a mudança para a cidade e a advertiu sobre a inconveniência de aproximação da sociedade local, contudo, María, por ser jovem e atraente, foi envolvida em festas e eventos, nos quais despertava a atenção de pessoas importantes da sociedade.
O fato incomodava Serguêi, apesar de se manter discreto. Entendia que não deveria exigir que a sua jovem esposa deixasse de experimentar o que ele próprio não valorava.
O nascimento do filho não inibiu o interesse de María pelas festas e a falta de interesse, pelo filho, era motivo de observações silenciosas de Serguêi.
Atraída por um marquês italiano, durante uma temporada de águas, após o nascimento do filho e a morte da sogra, a relação com Serguêi passou a ser fria e rotineira.
A diferença de idade do casal contribuiu para o conflito de objetivos. Enquanto Serguêi necessitava de tranquilidade, María buscava emoção.

Ao ser questionado sobre o relacionamento, Serguêi disse: “(...) será que alguém pode ficar descontente com alguma coisa, se é tão feliz como sou agora? É mais fácil ceder do que tentar dobrar os outros, estou convencido disso há muito tempo. Não existe situação em que não se possa ser feliz.”
O sentimento de Serguêi sobre felicidade foi modificado após o desgaste no relacionamento provocado pelo comportamento da mulher e contestou: “Todos nós, especialmente você mulheres, precisam viver todo o absurdo da vida, para podermos voltar à vida verdadeira.”

O autor mostra a dificuldade do relacionamento conjugal, o processo de tolerância nas relações, a insegurança nos relacionamentos entre pessoas com idades muito diferentes, a superficialidade das sociedades aristocráticas e, principalmente, o desinteresse provocado pelo tempo de relacionamento.

Leon Tolstói aborda o tema com sutileza e maestria, faz o leitor refletir sobre o que fez ou deixou por fazer para a manutenção de relacionamentos e mostra a vulnerabilidade das pessoas nas relacões conjugais.
Quando o leitor espera um final impactante, Tolstói nos remete a um simples e cotidiano ensinamento: “A partir daquele dia, terminou o meu romance com o meu marido. O antigo sentimento tornou-se uma recordação preciosa, mas impossível de renascer.”

O texto é impregnado de sentimento e desejo, feminino, de experimentar o que a vida oferece, enquanto o seu parceiro, pacientemente, observa o desenrolar dos acontecimentos, com o propósito de facilitar o seu aprendizado. Assim, María declara: “Havia em mim excesso de energia que não encontrava escoadouro (...).”

Informações sobre o autor Leon Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz e Anna Karenina. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples. () 

Referência bibliográfica
Tostói, Leon, gráf.. 1828-1910
A felicidade conjugal, seguindo de, O diabo / Leon Tostói; traduçãoe prrefácio de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. - Porto Alegre, RS : L&PM, 2009.
122p. (L&PM Pocket; v.692)
Tradução de: CeMeÑHOe CHaCTbe (Semeynoye schast'ye); e (Dyavol) 
ISBN 978-85-254-1505-9
1. Conto russo. I. Soares, Maria Aparecida Botelho Pereira. II. Título. 

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crônica de uma morte anunciada – Gabriel García Márquez

O extravagante Bayardo San Román decidiu procurar uma mulher para se casar em uma pequena cidade da Colômbia. Ao se deparar com a jovem Ângela Vicário lhe pediu em casamento e ofereceu o conforto da melhor casa da cidade.
Insegura, por não ser virgem, pensou em resistir à proposta, contudo foi persuadida a simular donzelice na noite de núpcias.
No dia do casamento, após as festividades que mobilizou inúmeros convidados, ela resolveu não fazer o que haviam orientado e teve, em troca, o imprevisto de ganhar uma surra do marido, além do dissabor de ser devolvida à família.

Interrogada pelos seus irmãos gêmeos, quem queriam saber quem a havia desvirginado, ela disse que tinha sido Santiago Nasar. Logo, não restou alternativa aos irmãos gêmeos, Pedro e Pablo Vicário, a não ser amolar as facas, que serviam para o abate dos porcos, e sair à caça de Santiago Nasar com o propósito de lavar a honra da família.

Os gêmeos, por onde passavam, anunciaram a todos com quem se encontravam a pretensão do ato criminoso, ao que parece, na esperança de que alguém os impedissem de concretizar o crime. Enquanto se preparavam para o massacre, encheram as panças de cachaça e mantiveram vigília até surgir a oportunidade para sangrar Santiago Nasar.

Apesar de alguns amigos tentarem avisar a Santiago sobre o intento dos irmãos Vicário a vítima não era localizada. A morte anunciada foi tão comentada na comunidade que o fato já era anunciado como concretizado, mesmo antes de acontecer.

O autor tenta desvendar a história com a esperança de confirmar se Santiago Nasar tinha sido o verdadeiro responsável pela desonra ou se a noiva, também vitima de preconceito social, o havia escolhido para esconder o verdadeiro amante.

O livro mantém um clima de suspense e induz o leitor a acreditar na possibilidade de mudar o veredicto sobre Santiago Nasar, por intermédio de ações da comunidade ou da manifestação do verdadeiro amante de Ângela.

Divertido pela forma que a história é contada, o texo submete autoridades políticas e religiosas a situações ridículas. Mostra conceitos e preconceitos arraigados em pequenas comunidades que induzem comportamentos ultrapassados, traiçoeiros e criminosos. Todos eles, de alguma forma, aceitos pelas famílias das vítimas, sejam as que induziram, referendaram, praticaram, ou retalharam Santiago Nasar como se fosse um porco inerte após o abate.

A honra lavada com sangue, perdurou durante as vidas de Bayardo San Román e de Ângela Vicário. O que tinha de bom para acontecer transformou-se em solidão, sofrimento e esperança. 

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”. () 

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Crônica de uma morte anunciada / Gabriel García Márquez; tradução Remy Gorga, filho; 39ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
157p.
Tradução de: Crónica de uma muerte anunciada
ISBN 978-85-01-01943-1
1. Crônicas colombianas. I. Gorga, Remy. 1933- II . Título.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Cândido - François-Marie Arouet (Voltaire)

O leitor menos avisado pode se enlear com o texto em face da forma escolhida por Voltaire para questionar valores sociais, governos, e crença de que o mundo deve ser enfrentado na forma como nos é apresentado.

O jovem Cândido, protagonista que dá nome ao título do livro, vide como agregado no castelo do barão Thunder-ten-Tronckh, em Vestefália, uma província na Alemanha e tem o mestre Pangloss como o responsável por ministrar os ensinamentos filosóficos que lhe ofereceria as condições psicológicas para o enfrentamento do mundo.

Os ensinamentos do preceptor Pangloss fizeram Cândido acreditar que tudo no mundo está encadeado para o melhor. Contudo, este conceito começou a ser questionado a partir do momento que ele foi expulso do castelo, quando o barão surpreendeu sua filha Cunegundes aproximar-se de Cândido e deixou cair um lenço. O jóvem apanhou o lenço e ela tomou-lhe inocentemente a sua mão. O rapaz a beijou na mão e em seguida suas bocas se encostaram, seus joelhos tremeram e a compromisso perpetuou-se pelo resto das suas vidas.

Cândido foge e segue os ensinamentos otimistas de Pangloss, afirmando que tudo estava bem apesar de tudo ir mal. O autor se apresenta irônico, sustentando a sua filosofia com sutileza necessária a manter-se ileso de possíveis condenações próprias à época.

A saída de Cândido do castelo e o distanciamento do mestre Pangloss promoveram oportunidades para convivências e questionamentos filosóficos, com uma velha que o abrigou, e, também, com o sábio Martinho.
Cacambo, seu criado, foi usado em várias oportunidades, não só pela dedicação e admiração que este tinha ao patrão, mas, também, por ser Cândido um fugitivo por ter assassinado três pessoas.

Voltaire fez o protagonista rodar o mundo, e deixa o leitor perceber as diferenças entre a Europa, países da América do Sul e em especial o território Inca.
Lá, no Eldorado, Cândido encontra aceitação e riqueza necessária a enfrentar as vicissitudes que o mundo havia lhe reservado e sinaliza, sutilmente, discordância à filosofia ensinada por Pangloss ao citar: “isto é bem diferente de Vestefália e do castelo do senhor barão; se o nosso amigo Pangloss visse Eldorado, nunca mais diria que o castelo de Thunder-ten-Tronckh era o que havia de melhor sobre a terra; sem dúvida, é preciso viajar.” Em seguida começa a ouvir os pensamentos filosóficos do sábio Martinho, contrários aos do seu antigo mestre.

Os acontecimentos que sucederam o terremoto que destruiu boa parte da cidade de Lisboa em 1755, serviram de base para questionamentos sobre a violência desembestada à época na Europa. Ficou decidido um auto-de-fé que incluiu o sacrifício de pessoas queimadas vivas para agradar a Deus e minimizar a fúria da natureza. Voltaire bate na igreja católica com veemência e mostra através da sobrevivência dos sacrificados no auto-de-fé que Deus rechaçou a oferenda.

Após ter percorrido o mundo em busca do conforto filosófico, Cândido envia a Bueno Aires seu fiel criado, Cacambo, com a incumbência para resgatar a sua amada Cunegundes. Quando se imagina tudo terminar bem, Cândido encontra um velho turco que não se envolve com absolutamente nada a não ser produzir alimentos para manter a família, fato que o leva a mais um conflito filosófico.
Por fim, questiona o otimismo de Pangloss, a astúcia de Martinho e o ceticismo do velho turco de Constantinopla e conclui referindo-se a uma provocação do antigo mestre: “isto está bem dito, (...), mas é preciso cultivar nosso jardim.”

Sem dúvida, Cândido é um texto atual, e de qualidade primorosa! 

Informações sobre o autor - François-Marie Arouet (Voltaire) nasceu na França em 1694 e ficou conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. Filósofo iluminista é conhecido pela acuidade na defesa das liberdades civis e religiosas. Escreveu nas mais várias formas literárias. Sua obra influenciou importantes decisões políticas a exemplo da Revolução Francesa. 

Referência bibliográfica
Voltaire, 1694-1778.
Cândido / Voltaire; tradução Maria Ermantina Galvão. - 3ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2003 - (Voltaire vive)
Título original: Candide
163p.
ISBN 85-336-1727-5
1. Romance francês. 2.Sátira francesa. 3. Voltaire, François Marie Arouet de, 1694-1778. I.Título.II. Série.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Diabo – Leon Tolstói


Após a morte do pai, Evguêni descobriu que a família estava afundada em dívidas. Levantou os compromissos, largou o trabalho que tinha e assumiu a administração da fazenda. Mudou-se para a propriedade, juntamente com a sua mãe, Mária Pávlovna e se jogou de corpo e alma na tentativa de recuperar o tempo perdido.

Quando empregado, na cidade, tinha relacionamentos sexuais com moças cujos compromissos não eram exigidos. Pagava pelo sexo e vivia independente de envolvimentos sérios.
No campo, isolado, na busca de solução para a modernização da fazenda e viabilização financeira do negócio se incomodava com a falta de sexo.
Sem chamar a atenção dos empregados procurou um velho amigo do pai para ajudá-lo. Daí em diante, Stepanida, casada com um cocheiro que trabalhava em Moscou, passou a se encontrar com Evguêni e, em troca, recebia algum dinheiro.
Ela era o tipo de mulher que, na Russia, chamavam de “mulher de soldado”. Uma referencia aos soldados que passavam muito tempo fora de casa e suas mulheres, até para sobreviverem, mantinham relacionamentos com outros homens.
Evguêni conheceu Liza Ánnenskaia e a pediu em casamento, contrariando Mária Pávlovna, a qual gostaria que o seu filho casasse com uma mulher de família rica.
Um acidente com Liza, quando gestante, resultou em aborto e o fato que quase se repetiu na segunda gestação.
Apesar do amor que Evguêni tinha por Liza e a dedicação que ela devotava a ele e aos afazeres da casa, alguns fatos levaram o reencontro entre Evguêni e Stepanida.
Enquanto ele procurava afastar-se, Stepanida flertava.
Desesperado, apaixonado pela antiga amante, Evguêni lutou para não ceder aos seus desejos e às insinuações de Stepanida. Ao perceber que havia perdido o controle sobre si mesmo, Evguêni imaginou: “Ela é o diabo. É o próprio diabo. Matá-la? Sim. Só há duas saídas: ou matar minha esposa, ou matá-la. Porque é impossível viver dessa maneira.”

Tolstói construiu uma novela que mostra os conflitos nas relações conjugais, impondo, neste caso, ao homem a tarefa de decidir sobre o caminho a tomar. Colocou em campos opostos o prazer e o conforto familiar.
A história termina de forma drástica e mostra a vulnerabilidade da mente humana ao se conflitar com os seus próprios diabos.



Leon Tolstói - É considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz e Anna Karenina. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples.

domingo, 18 de outubro de 2009

Do amor e outros demônios – Gabriel García Márquez

A marquesinha, filha de Bernarda Cabrera e do marques de Casalduero, nasceu de sete meses, em uma manhã chuvosa, com a aparência de uma rã desvanecida. Ao ouvir o anuncio da parteira que a menina não vingaria, Dominga de Adiviento prometeu a seus santos que se a graça de viver fosse concedida não se cortaria o seu cabelo até a noite do seu casamento.

Bernarda, mãe da marquesinha Sierva María de Todos los Ángeles, não gostava da filha por achar que ela tinha poderes sobrenaturais e a apelidou de María Mandinga. Certo dia, ao se deparar com uma boneca flutuando na tina, exigiu que a garota fosse viver no galpão, em companhia das suas escravas.
A convivência com elas lhe rendeu o aprendizado de línguas africanas, afastando-a, ainda mais, a convivência com os seus pais.

No dia que María completou doze anos, foi ao mercado em companhia de uma escrava, e se deparou com um cachorro raivoso. Retornaram à residência, porém o fato foi omitido da família.
Ao descobrir o ocorrido o marques Casalduero consultou o médico Abrenuncio e este atestou que a menina não havia contraído raiva, apesar de ter sido mordida pelo cão. O médico judeu não era do agrado do bispo Don Toríbio de Cárceres y Virtudes fato que levou a autoridade religiosa convocar o marques, pai de Servia María, para informá-lo que a sua filha havia incorporado o demônio e para salvá-la ele deveria confiar o seu destino aos cuidados da igreja.

Temeroso aos desígnios de DEUS o marques preparou María, com ainda seus cabelos longos e intocáveis, fruto da promessa feita quando do nascimento, e a levou ao convento, abandonando-a aos caprichos da abadesca Josefa Miranda e suas auxiliares.

No convento, a menina se encabritou e demonstrou quase tudo do que havia aprendido com as escravas no galpão.
Temida pelas freiras e noviças, María foi colocada em uma cela e isolada das demais moradoras do convento. Enquanto isso, o bispo Don Toríbio designou o padre Cayetano Alcino del Espíritu Santo Delaura y Escudero para exorcizá-la.

Percebendo que Sierva María não havia contraído raiva tampouco estava com o diabo no corpo, o padre tentou, sem sucesso, convencer o bispo para liberar a menina.
Afastado da tarefa de exorcismo pelo bispo após ter se declarado apaixonado por Sierva María, o padre Cayetano mantinha contato noturno com a menina e trocavam amabilidades na esperança de um dia poderem compartilhar uma vida feliz.

Após várias tentativas, sem sucesso, para libertar María do cárcere, o padre Cayetano passou a freqüentar a casa do médico Abrenuncio e teve acesso a livros proibidos pela igreja.
Pego de surpresa, no convento, em uma das oportunidades que visitou a jovem, o padre foi condenado pelo Santo Ofício a prestar serviços em um hospital para leprosos. Impotente e confuso ele percebeu muitos dos erros na igreja pela qual havia dedicado toda a sua vida.

Após ser submetida a novos castigos durante o exorcismo, dentre os quais a cabeça raspada com navalha, a jovem Sierva María morre e para surpresa de todos os seus cabelos continuaram crescendo.

O livro expõe a igreja na prática do exorcismo se contrapondo a parapsicologia, mostra o seu poder no controle político-social, chama a atenção para as dificuldades nas relações conjugais quando ocorrem interferências familiares, e, principalmente, a capacidade de sobrevivência do ser humano em ambientes hostis.
O sacrifício imposto à vida de uma garota que desde o seu nascimento até a sua morte foi submetida a situações esdrúxulas, serviu de lenda para questionamentos legítimos feitos por Gabriel Garcia Marques. Poucos são os autores que possuem a capacidade para, através de fábulas como esta, alçar temas ricos para reflexão humana, sem cair no vulgar.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Do amor e outros demônios / Gabriel García Márquez; tradução Moacir Werneck de Castro. 18ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
221p.
Tradução de: Del amor y otros demonios
1. Romance colombiano. I. Castro, Moacir Wemeck de. II . Título.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Montanha e o Rio – Da Chen

Ao atirar-se do alto do monte Balan, com o intuito de acabar com a sua vida e a do filho que carregava na barriga, a jovem chinesa não imaginava que a energia provocada pelo impulso pudesse expulsar do seu ventre o pequeno Shento, filho de um respeitado general do exército chinês.
Encontrado por um velho curandeiro pendurado num galho de uma árvore, preso pelo cordão umbilical, Shento foi salvo e teve a infância parecida com a de muitas outras crianças chinesas, até o dia que um faminto mendicante lhe propôs contar a verdadeira história de sua vida em troca do lanche que carregava.
Daí em diante, o jovem Shento elegeu o seu verdadeiro pai como referência e aguardou que ele o reconhecesse como filho, contudo, apesar da aproximação incidida devido o excelente desempenho que tinha na escola, alguns fatos impediram a continuidade do convívio. Posteriormente, a interferência de pessoas da família provocou revolta no jovem disposto a lutar por um lugar ao sol.
Jogado em uma escola com características de campo de concentração nazista, Shento conheceu a jovem Sumi e deste convívio nasceu um relacionamento amoroso que resultou no assassinato de três colegas no momento que tentavam estuprar Sumi. A fuga de Shento tornou-se inevitável, porém, o desapontamento por ter abandonado a sua amada naquele ambiente degradado foi transformado em motivação para um provável reencontro.

Enquanto isso acontecia, Tan Long, meio-irmão de Shento, vivia em berço de ouro em Beijing. Convivia com a família e frequentava escolas de qualidade. A sua professora de inglês Miss Yu o envolveu em movimentos estudantis direcionados à democratização da China, e este envolvimento resultou na prisão e na tortura de Tan por ter ajudado na fuga de Miss Yu. Não bastasse o ocorrido, Tan Long teve o dissabor de ver o seu avô e o seu pai depostos de importantes cargos que exerciam no governo.
Reclusos em terras da família, os Long´s, se tornaram proprietários de grandes conglomerados empresariais, devido a uma ousada estratégia de Tan Long ao resgatar títulos públicos que havia adquirido a preços de bagatela, quando ninguém acreditava que os referidos títulos fossem honrados pelo Banco da China.

Por força do destino, o jovem Tan Long conheceu Sumi no período que ela se submetia aos caprichos de um esquisito empresário para prover a sobrevivência do filho, fruto da relação que teve com Shento na escola, antes do assassinato que motivou a sua fuga.
Sem saber da existência do seu meio-irmão Shento, e a história de Sumi, Tan Long matou o empresário que se dizia dono de Sumi e a libertou juntamente com o filho Tai Ping.

Sumi tornou-se escritora, e, ao lado de Tan Long, membros do Clube da Árvore Venenosa e do Partido Democrático Chinês. Foi defensora dos direitos humanos na China e teve seus livros e textos usados como ferramenta de campanha para democratização do país.

Shento galgava postos importantes no governo e procurava localizar Sumi, na esperança de um dia poder viver ao seu lado. Ao encontrá-la, ficou decepcionado devido ao envolvimento da amada com o seu meio-irmão. Propôs viver com Sumi e seu filho que acabara de conhecer e enquanto aguardava o posicionamento dela fez incursões para destruir o seu meio-irmão.
Revoltada com as ações de Shento, Sumi se afastou dos dois para evitar o conflito.
Daí em diante, Shento, sem perceber, foi usado pelo então presidente Teng Tu para destruir a família do seu pai Long. As consequências desastrosas interferiram no sofrimento de todos, inclusive do próprio Shento, que ao substituir Teng Tu no cargo de presidente do país se deparou com problemas psicológicos. Em momento de desespero e desilusão Shento pondera: “Neste vazio, fui despido de todo o meu poder e voltei a ser o enjeitado nu que eu era. Meu coração tinha fome e meus pés estavam frios.”

O autor da obra, Da Chen, dá um show em sua primeira incursão na área da ficção. O leitor fica ansiado para completar o texto, riquíssimo de detalhes que inclui as tradições orientais e o regime ditatorial chinês. A história lembra o livro “Caim e Abel” escrito por Jeffrey Archer, em outro plano político-social. A estrutura e a forma se assemelham, porém, Da Chen rebrota o texto a exemplo das gemas da árvore que salvou o pequeno Shento, que emergem quando se imagina hibernarem.

Informações sobre o autor - Da Chen nasceu no sul da China, em 1962, emigrou para os Estados Unidos aos 23 anos. É formado pela Faculdade de Direito da Universidade de Columbia. Mora na região do rio Hudson, no estado de Nova York com a esposa e os dois filhos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Recurso – John Crisham

Uma empresa montou uma unidade de pesticida em uma cidade do Mississipi. Apesar de gerar empregos para a população durante trinta anos, o lixo químico foi jogado no solo e provocou a contaminação do lençol freático. A água contaminada foi consumida pela população que terminou contraindo câncer e leucemia.

O casal de advogados, Wes e Mary Grace, se endividaram para defender uma causa que durou setenta e um dias de julgamento no tribunal de Hattiesburg no Mississipi, que terminou por condenar a Krane Chemical Corporation a pagar a vultosa soma de quarenta e um milhões de dólares.

Despertados pela decisão, outros escritórios de advocacia moveram ações coletivas, no intuito de ganharem em acordos que pudessem vir acontecer. Enquanto isso, Carl Trudean, proprietário da Kane, articulava através de meios não convencionais, a anulação da condenação.
As ações da empresa despencaram na Bolsa de Valores, e um esperto senador, percebendo o desespero do proprietário, telefonou, lhe oferecendo os serviços da empresa Judicial Vision, especializada em soluções pouco legítimas.

O Recurso foi encaminhado à Suprema Corte do Mississipi, e, enquanto o julgamento não ocorria, a empresa conseguiu substituir a juíza Sheila McCarthy pelo desconhecido advogado Ron Fisk, que garantiu a anulação da condenação.

O compromisso de Ron Fisk, ao aceitar as condições para a indicação de juiz da Suprema Corte, terminou por envolvê-lo em fatos inesperados.
Trata-se de uma ficção, que expõe a justiça americana ao mostra o poder do dinheiro na defesa dos interesses empresariais e o quão fácil é ludibriar o povo através de campanhas que não refletem a realidade dos fatos. Apesar de ser um livro bem escrito e relatar situações nas quais pessoas são transformadas em vítimas do capitalismo político, a história não apresenta surpresas. 

John Grisham - Nascido em 8 de fevereiro de 1955 na cidade norte-americana de Jonesboro, John Grisham começou a escrever nas poucas horas vagas que sua carreira como advogado lhe permitia. Suas especialidades eram defesa criminal e processos por danos físicos. Foi o caso de uma vítima de estupro de apenas 12 anos que o inspirou a escrever sobre o universo jurídico. Esse primeiro romance, Tempo de matar, foi publicado em 1988. Desde então, o ofício de escritor acabou se tornando prioritário em sua vida. Hoje, ele é um dos seis autores mais lidos nos EUA. Sete de seus romances se tornaram filmes de sucesso, como A firma, O dossiê Pelicano, O cliente e O homem que fazia chover. Outros livros do autor: A câmara de gás, A casa pintada, A confraria, A intimação, Esquecer o Natal, O advogado, O júri, O sócio e O testamento. 

Referência bibliográfica
Grisham, John
O Recurso/ John Grisham; tradução de Michele Gerhardt MacCulloch. Rio de Janeiro: Rocco, 2008..
380p.

Tradução de: The appeal
ISBN 978-85-325-0912-3
1. Indústria química - Ficção. 2. Ficção americana. I.NacCulloch, Michelle Gerhardt. II.Título.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Budapeste – Chico Buarque de Holanda


A maior cidade da Hungria, Budapeste, situada nas margens do famoso rio Danúbio, é o resultado da fusão das antigas cidades de Buda e Peste.
Possivelmente, pela dualidade geográfica e da ocorrência de duas tentativas de fusão, o autor a escolheu como cenário para descrever uma história recheada de posições contraditórias.
Esgotado e sufocado no próprio talento José Costa, um escritor fantasma se depara com situações existenciais.
Radicado no Rio de Janeiro, ao se deslocar para um congresso de escritores anônimos, por força do acaso, termina conhecendo Kriska em Budapeste, e, o interesse subjetivo por ela o induziu a se familiariza com a difícil língua húngara.

A história é dolente porque os pesos impostos aos personagens entremeiam relacionamentos inimagináveis. As manobras impostas pelas relações culturais e relacionamentos amorosos definidas entre as cidades do Rio de Janeiro e Budapeste, servem para permear entendimentos divergentes e conflitantes, deixando a leitura densa e inconclusa.
Duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas e muitos outros dois, se contrapondo e impossibilitando a tomada de partido nos conflitos psicodélicos, pela obscuridade proposital do conhecimento.
O interesse pela escrita move o protagonista entre dois mundos, duas cidades e duas mulheres. Com Vanda, no Brasil, a expressão não era valorada enquanto com Kriska, na Humgria, a palavra era exaltada.
Assim, o livro atrai pela forma e curiosidade despertada pelos padrões da vida.
No mais, José Costa e Zsoze Kósta são as mesmas pessoas em constantes conflitos existenciais.

Informações sobre o autor - Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d´água (1975), e Ópera do Malandro (1979); a novela Fazenda modelo (1974) e os romances Estovo (1991) e Benjamim (1995).

sábado, 29 de agosto de 2009

Entre quatro paredes - Jean-Paul Sartre


A história coloca três personagens em um inferno hipotético, onde são obrigados a conviverem sem elementos que possam refletir a própria imagem, a não ser os olhos dos habitantes do confuso ambiente.

A filosofia existencialista, defendida por Sartre, responsabiliza o indivíduo na escolha do caminho que melhor lhe agrada e orienta sobre a importância dos sentimentos na vida das pessoas. O filósofo cita: “aquele que me olha é sempre o meu carrasco.
Ou seja, apesar do indivíduo desejar ser refletido na melhor forma, os olhos dos outros ignoram esta aspiração e o enxerga em profundidade, com o rigor que efetivamente ele, o individuo, não gostaria.
Sendo assim, a importância dos outros para cada um de nós, gera influências que podem se tornar um inferno, devido à incapacidade humana de compreender nossas fraquezas. Ele cita: “o inferno são os outros” numa alusão à sua própria imagem refletida nos olhos de quem os observa.
A afirmação sobre a vigilância e o julgamento constante aos quais somos submetidos, não elimina a possibilidade de um paraíso. Neste caso, cabe ao individuo a responsabilidade da escolha do caminho que mais lhe agrada. Resumidamente, apesar de o inferno ser os outros é possível a conquista do paraíso.

Entre quatro paredes, sem janelas, sem pausas para a vida cotidiana e descanso da observação aos olhos dos outros personagens, os três protagonistas foram obrigados a conviverem. Cita um dos protagonistas referindo-se ao piscar dos olhos, como fuga ao julgamento dos outros, como se os seus olhos fechados impossibilitassem as críticas de quem o observa: “A gente abria e fechava; isso se chamava piscar. Um pequeno clarão negro, um pano que cai e se levanta, e aí a interrupção. (...) Quatro mil repousos em uma hora. Quatro mil pequenas fugas”.

Entre as quatro paredes, Garcin, um jornalista pacifista, que pretendia ser herói, mantinha um disfarce e procurava esconder o seu crime. Sua maior agonia era a possibilidade das duas companheiras, no inferno hipotético, descobrirem a sua fraqueza ou covardia que naquela situação não podia ser alterada. Mulherengo, péssimo marido, insensível aos sentimentos da esposa, precisava dos olhos de Inês, outra protagonista, para se desculpar.
Inês, uma funcionária dos correios, com atitudes hostis, cujo ódio e a crueldade lhe nutrem, é a única entre os protagonistas que admite a culpa. Reconhece estar no inferno e mostra o seu caráter, admitindo a situação que se encontram. Adere ao fato e tenta tirar proveito dele. Tinha uma reflexão interior profunda e consciência clara do papel a ocupar.
A burguesa Estelle, cujo casamento foi realizado com um homem mais velho, por interesse financeiro, esconde o seu crime e tenta convencer Garcin e Inês que havia um engano em mantê-la no inferno. Fútil, superficial e desorientada, necessitava dos olhos do jornalista, Garcin, para manter-se desejada vez que os valores superficiais a impedia de enxergar na forma mais adequada e consciente.

Independente da intensidade, todos os protagonistas se olhavam e esta visão não passava do inferno de cada um. Cada um sabia os motivos de estar ali, conduto, tentavam esconder dos outros os fatos que os levaram à situação, para serem vistos como pessoas boas, exceto Inês, que não tinha esperança de mudança.

Enquanto Estelle e Garcin tentaram esconder os seus crimes, Inês expõe o por ela praticado e chama a atenção dos demais condenados, igualmente a ela, a permanecerem de forma irreversível, no lugar onde um é o espelho do outro. Tenta fazer com que Estelle enxergue Garcin através da avaliação dos seus olhos, como alternativa, já que ela o avaliava de forma superficial.

A história segue com Inês tentando conquistar Estelle, que por sua vez procura se relacionar com Garcin, e - sabedores de que a consciência é liberdade condenada a existir - sem possibilidade de fuga Garcin se antecipa ao fechamento das cortinas e diz: "Pois bem, continuemos..."

Jean-Paul Charles Aymard Sartre - Filósofo, escritor e crítico francês, conhecido representante do existencialismo. Era um militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Recusou a receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1964. Dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma essência posterior à existência. Escreveu "Os Dados Estão Lançados", "Os Caminhos da Liberdade", "O Sequestro de Veneza", "As Palavras", "A Náusea", e "O Muro".

Referência bibliográfica
Sartre, Jean-Paul, 1905 - 1980 
Entre quatro paredes / Jean-Paul Sartre; tradução de Alcione Araújo e Pedro Hussak. - 4ª ed.. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008..
127p.
Tradução de: Huis clos
INBN 978-85-200-0559-0
1. teatro francês (Literatura). I. Araújo, Alcione. II Hussak, Pedro. III. Título.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Noites Brancas – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

A solidão vivida por pessoas que habitam grandes cidades é narrada por Dostoiéviski no livro Noites Brancas. Em decorrência, vêm os sonhos de firmar relacionamentos fortes e duradouros. Assim, o autor constrói o protagonista da história.

Diz ele: E as pessoas abanam a cabeça e murmuram: “Como os anos passam depressa!” E perguntam ainda: “Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver ou não?” “Olha”, dizemos para nós mesmos, “repara que frio faz neste mundo. Basta que passem mais uns anos para que chegue a espantosa solidão, a trêmula velhice que traz consigo a tristeza e a dor. O teu mundo fantástico há de perder então as suas cores, murcharão e morrerão os teus sonhos, e, como as folhas amarelas que tombam das árvores, também eles se desprenderão de ti...”

O sonhador, protagonista da história, manifesta, com sutileza, que as imposições da vida não podem ser ignoradas, apesar de seguir contemplando a possibilidade de viver experiências em uma atmosfera fantasiosa de devaneios.

Em uma das noites brancas de São Petersburgo o tímido sonhador conheceu Nástienhka, jovem, ingênua, e também sonhadora, que derramava lágrimas apoiada em uma balaustrada, à espera de um prometido amor. Durante quatro noites brancas os dois de encontram e trocam confidências, até que ele, o sonhador, resolve expor seu encantamento pela jovem que tinha uma vida restrita a satisfazer os caprichos da avó. O diálogo é meloso, digno de jovens apaixonados, que sonham por um mundo romântico. Os encontros se resumem a experimentar a satisfação da proximidade, do diálogo, e do toque, beirando ao amor platônico.
O personagem romântico constrói juntamente com Nástienhka uma atmosfera fantasiosa, capitaneado pelos desejos de um mundo fictício, criado por sonhos, que termina norteando um diálogo sentimentalista.

De volta à realidade, o sonhador se vê desiludido, em um quarto escuro e sujo, e diz: “Talvez a culpa de tudo isso fosse aquele raio de sol que de súbito surgiu por entre as nuvens, para logo depois voltar a esconder-se por detrás de outra ainda mais escura, que anunciava chuva, de tal maneira que todas as coisas se tornaram ainda mais lúgubres e mais sombrias...”

Percebe-se, que o personagem, desiludido, utiliza-se das noites brancas de São Petersburgo para estabelecer relação de perspectiva, prevendo dias mais sombrios e sem sonhos. Apesar do sentimento de dúvida a respeito de novos momentos de felicidade, conclui que os vividos com Nástienhka foram verdadeiros e induz o leitor a acreditar que a felicidade não é eterna, contudo pode ser experimentada em momentos da vida.

O título da obra Noites Brancas se refere a um fenômeno comum na Europa em que, mesmo à noite, o sol não se põe completamente.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.

sábado, 1 de agosto de 2009

A Metamorfose – Franz Kafka

O texto metafórico, escrito por Kafka, faz uma crítica rigorosa à instituição familiar.
Apesar de não ser autobiográfico, muito do que se ler remete à Carta ao Pai, também escrita pelo autor, no qual retrata o seu relacionamento com o pai.
Os conflitos, levados pela falta de aceitação da figura paterna, permeiam a obra do autor e possibilita inúmeras reflexões. Isto ocorre, também, nos livros O Castelo, e O Processo.
Kafka surpreende e encanta pela complexidade existencial. Transforma o cotidiano em um estado surrealista e imprime perplexidade na reflexão do tema.

Considerada uma das obras literárias mais importantes do século vinte, o livro A Metamorfose, convida o leitor a acompanhar os sentimentos de Gregor Samsa, caixeiro viajante, surpreendido, ao acordar, com o corpo na forma de um inseto. Gregor, já inseto, pensava e sentia como humano e sua família demonstrava sentimentos de repulsa e desconforto com a situação.

O surrealismo escolhido por Kafka para discutir o tema, alcança objetividade clara e direta, no momento que o leitor embarca no conceito filosófico da obra. O autor manipula o personagem e surpreende o leitor logo na primeira frase do texto: Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamofoseado num inseto monstruoso”.

Kafka mostra as transformações ocorridas em função de mudanças provocadas pela orígem do dinheiro que promovia a manutenção da família, pela imposição moral e alienação intelectual, ausência de liberdade, sentimento de culpa, além de outros temas relacionados à humanidade.
Isolado em seu quarto, excluído pela empresa e ignorado pela família, Gregor, sentiu, no corpo de um inseto, os reflexo das atitudes humanas e percebeu o incômodo da submissão social.

O surrealismo, escolhido por Kafka para transgredir a sociedade, valendo-se da situação para excluir-se da família e dos valores sociais impostos, é algo inimaginável para a época, já que o livro foi escrito em 1912. Além dos conflitos familiares, Kafka, escolhe a forma para questionar as imposições do regime capitalista, negando-se a trabalhar.

O leitor que enfocar o personagem como vilão em vez de vítima pode perceber a tendência da obra, na qual, Kafka, travestido de Gregor, mostra a imposição de mudança comportamental na família, cuja sobrevivência dependia financeiramente dele. Metamorfoseado, Gregor, liberta-se da pressão político-social e o que parece castigo transforma-se em liberdade.

Eleger A Metamorfose como um das obras literárias mais importantes do século vinte, sem dúvida não é exagero.

Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Crime e Castigo – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Um estudante pobre que habitava um pequeno quarto de uma pensão na cidade de Petersburgo, na Russia, foi o personagem escolhido por Dostoiévski para expor os efeitos psicológicos, originados em conceito fictício, que classifica a humanidade em seres especiais e seres materialistas.

Conforme o conceito era permitido às pessoas consideradas especiais não se aterem às leis e regras definidas, diante da sua posição social e intelectual. Estas pessoas poderiam, inclusive, cometer crimes, sem necessariamente refletirem sobre o fato, ou sofrerem retaliações.
Cabia aos indivíduos classificados como materialistas, o cumprimento das leis e regras definidas pelos ditos seres especiais.

Rodion Românovitch Raskólnikov, protagonista da história, se considerava um indivíduo especial, e tinha em Napoleão sua fonte de inspiração. Sendo assim, se deu o direito de cometer dois crimes.
A primeira vítima foi uma velha agiota, Alena Ivanovana, que se aproveitava das necessidades financeiras de pessoas carentes. A segunda, Isabel, tornou-se vítima devido ao fato de ter flagrado o criminoso no momento que executava a sua irmã.

Enquanto planejava os detalhes da ação, o criminoso entendia que, matando a velha agiota estava fazendo um benefício social à humanidade. Assim, com tempo disponível e inteligência rebuscada, desenvolveu um plano perfeito para não deixar vestígios do crime.

Dostoiévski, ao escrever a história, abandona o mistério policial e foca os dramas psicológicos vividos pelo criminoso, e por outros personagens que compartilham da trama. Entre eles, há coisas em comum, que afloram de forma e em momentos diferentes da vida.

Crime e Castigo é apoiado em dilemas morais aguçados por desprezo social, arrogância, prepotência, repressão, uso inadequado do poder, machismo, e jogo de interesses.
Neste ponto, o protagonista da história, apesar de pobre, ao se classificar como uma pessoa especial, não abre mão de conceitos, mesmo que estes viessem a prejudicá-lo, na sua condenação.
O fato de sua irmã, Dúnia ter sido prometida ao funcionário público, Piotr Pietróvitch Lújin, por interesse financeiro, deixou Rodion R. Raskólnikov irritado, ao ponto de afrontar o pretendente, fato este, que lhe rendeu muito trabalho após o desenlace da relação.

Piotr P. Lújin tinha um amor doentio por si mesmo e auto-estima elevada. Achava que desposar uma mulher carente, nova, inexperiente, desprotegida, e que tivesse sido questionada socialmente, lhe assegurava total submissão e gratidão.

Outro personagem marcante é o burguês, Svidrigáilov, que se casou com a rica Marfa Pietrovna. Ela pagou as dívidas do trapaceiro e assinou um contrato que permitia a ele sair com mulheres, desde que não repetisse a parceira. Apesar de Svidrigáilov declarar que preferia mulheres bem jovens, manteve o casamento com Marfa até tornar-se suspeito por sua misteriosa morte.
Este fato, o levou a Petersburgo, com a esperança de concretizar o desejo, de iniciar um relacionamento com Dúnia, irmã de Raskólnikov, cuja admiração se iniciou na época em que ela, Dúnia, era empregada da sua falecida esposa.

O texto é perturbador, e a teoria que se baseia a história é ainda mais extravagante. A ausência de fundamento e critério aceitos socialmente, nos remete a reflexões sobre responsabilidade em fatos, cujas definições não transparecem critérios e formas definidas. Assim, as ações, obedecem a critérios subjetivos, individualizados, e fora do controle.

A história publicada originalmente em 1866 termina com uma sequência de tragédias, instigada pelo vazio de vidas sem sentido, cujas personagens, se entregam à própria sorte.
Dostoiévski brinca com a imaginação do leitor, coloca o protagonista da história em situações de suspeito e, ao mesmo tempo, colaborador nas investigações do crime.
Finda com o questionamento sobre a necessidade de busca, do homem, de relações que possibilite aquietar a mente.
Coloca, ainda, a moral religiosa como fonte de conforto espiritual, submetendo a intelectualidade do protagonista a conceitos simples expressados por uma jovem prostituta, disposta a submeter-se a situações de sofrimento em busca do reconhecimento humano.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

Por que José Saramago em seu livro Ensaio sobre a Cegueira deixou de fora a Mulher do Médico ao resolver cegar os habitantes de uma cidade fictícia?
Quis ele incorporar a personagem, e através dos seus olhos, ajudar o leitor a analisar as facetas do comportamento humano durante uma crise epidêmica, ou mostrar, desde o início do texto, que vale mais reparar do que simplesmente ver?

A história da chamada Cegueira Branca que se espalhou por uma cidade atemporal, registra as atitudes para a sobrevivência física, a dignidade, e a espiritualidade do homem, quando submetido a uma epidemia.

Quem ainda enxergava se comportava com autoridade para decidir o que fazer com os cegos. Logo, todos passaram a ficar na idêntica situação, exceto a Mulher do Médico, que se manteve, sem explicação médica, até o fim da história podendo ver.

O autor declarou ter sofrido para escrever o texto, e quis que o leitor também participasse da angústia ao lê-lo.
Sem dúvida, quem teve o prazer de ler o texto passa pela experiência do sofrimento maduro da reflexão sobre a humanidade. A depender do momento, coloca-se favorável ou contra comportamentos de sobrevivência, mascarados pela hipocrisia social.
Os limites entre a sobrevivência e barbaridade, e os entre o instinto do progresso e o da autodestruição, são ultrapassados a todo o momento.

Saramago acerta em cheio na ferida. Quem ler Ensaio sobre a Cegueira não será mais o mesmo. No mínimo, passa a reparar tudo o que ver na tentativa de se tornar mais preocupado com as mazelas da humanidade.

A sutileza entre o “olhar” e o “ver” permeia a visão física remetendo-a para, uma mais atenciosa, a de "reparar". Esta última poderá ser observada mesmo na cegueira.

A exclusão social, a relação com o poder, a crítica às autoridades, as alternativas para a sobrevivência, a experiência adquirida na velhice retratada no personagem do Velho da Venda Preta, podem ser identificadas no texto.
Porém, um fato relevante foi citado de forma sutil: O personagem Escritor, que mesmo sem “ver”, registrava no papel tudo o que “reparava”, acreditava que um dia alguém soubesse o ocorrido. Desta forma, conseguiria perpetuar a memória e ajudar na formação da consciência coletiva.

Saramago diz: Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano

O livro versa sobre a economia política da América Latina, com riqueza de detalhes históricos. Chama a atenção do leitor para fatos que influenciaram e continuam influenciando nos países latinoamericanos.

A obra multifacetada, permite, ao leitor, se embrenhar no que mais lhe convier.
Os interessados nas variadas ciências políticas e sociais podem se aprofundar nas pesquisas, tendo por base os documentos e citações.

Foi escrito com base em documentos que registram momentos importantes, e oferece aos desprovido de paixão política, oportunidade para analisar fatos importantes e tirar suas conclusões.

Os genocídios de populações e destruições de culturas indígenas praticadas por povos europeus na América Latina tiveram por objetivo: explorar as riquezas minerais; a fertilidade do solo; e a mão de obra abundante e barata.

A América Latina se tornou uma área estratégica para os Estados Unidos e para a Europa, como fornecedora de minerais e base para a produção de alimentos. Na região se produzia o que interessava à Europa e aos Estados Unidos, e interrompia a produção ao termino dos seus interesses.

As conveniências econômicas e políticas dos importadores mudavam a geografia agrícola do produto. Assim, aconteceu com a cana de açúcar, o cacau, o café, a seringa, e o algodão.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa reduziu a sua influência na América Latina e cedeu espaço aos Estados Unidos que expandiu os seus interesses no continente.
Neste caso, a América do Norte fomentou, estimulou, apoiou e financiou movimentos políticos que concordaram com os seus interesses estratégicos, para tornar-se a maior economia do planeta.
Assim, vários regimes autoritários forma instalados, estimulados por países que se dizem guardiãs da democracia...

O modelo fundiário implantado na América Latina visou tão somente o baixo custo das explorações agrícolas para exportação.
O latifúndio, largamente estimulado pelos Estados Unidos como modelo fundiário, divergiu do implantado para ocupação dos seus territórios. Lá, Abraão Lincoln assegurou a cada família 65 hectares para estender as fronteiras. Promoveu a matança de índios, e a migração de estrangeiros.

Meio milhão de nordestinos brasileiros sucumbiu às epidemias, ao impaludismo, ou à tuberculose na época do auge da borracha, ao migrarem para a Amazônia.
Estima-se que oito milhões de vida foram ceifadas na exploração da prata que existia na rica montanha de Potosi, na Bolívia.
O autor cita crimes praticados contra índios que habitavam a Amazônia, para beneficiar empresas multinacionais na exploração de jazidas minerais.

O livro revela os motivos da renuncia de Jânio Quadros, do suicídio de Getúlio Vargas, o apoio americano a golpes militares no Brasil, na Argentina, no Chile, e em outros países latinoamericanos. Fala ainda sobre o genocídio praticado pelo Brasil, Argentina e Uruguai contra os povos paraguaios.

Informações sobre o autor - Eduardo Hughes Galeano, jornalista e escritor nascido em Montevidéu no Uruguai em 1940. Suas obras foram traduzidas em diversas línguas. Escreve histórias que contempla assuntos políticos e o cotidiano. Foi exilado político na Espanha e na Argentina. Sua obra de maior relevância política e social é "As Veias Abertas da América Latina". Escreveu dentre outros títulos “Casa de Las Américas”, “Memória do Fogo”.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Carta ao Pai – Franz Kafka

Em sua Carta ao Pai, Kafka, relata fatos que determinaram o difícil relacionamento. Muitos destes contribuíram, decisivamente, para estimular a insegurança, tida como característica determinante de sua personalidade.
O caráter enigmático de Hermann, cuja autoridade era exercida com base no direito que ele mesmo se atribuía, o fez tirano, na concepção kafkiniana. Para Franz Kafka, o exercido da autoridade deveria acontecer com base na consistência das idéias.

Apesar da dificuldade do relacionamento, Kafka não culpa exclusivamente o pai, embora, não economizou palavras para recriminá-lo diante da falta de apoio aos seus projetos e escolhas, e, principalmente, à fria recepção diante do anúncio de seu noivado com Julie Wohryzek.

Kafka divergia de citações feitas pelo pai, principalmente, quando surgiam atitudes criadas para justificarem o distanciamento entre eles: “Eu sempre gostei de ti, mesmo que na aparência eu não tenha te tratado como outros pais costumam tratar seus filhos, justamente porque não sei fingir como eles”.
Aos trinta e seis anos, Kafka havia experimentado dois noivados fracassados com Felice Bauer; e outro com Julie Wohryzek, com quem também não contraiu matrimônio. Fora isto, carregava uma relação confusa com Ottla, sua irmã favorita; uma carreira literária pouco brilhante à época, além de intenso descontentamento, proveniente do emprego que mantia no governo.

Na extensa carta, com mais de cem páginas, o escritor relata a sua dor diante do ambiente de disputa, ao perceber que o seu pai o tinha como um inimigo indigno de batalhas, devido às suas “fraquezas” rotuladas a partir do próprio físico franzino.

Para Hermann, que trabalhou muito para adquirir a independência financeira, os seus filhos, que recebiam o que precisavam para sobreviverem sem muito esforço, eram fracos e inferiores, não só em relação à força física.

Dificilmente alguém consegue relatar, com tamanha precisão, os sentimentos que influenciaram a sua vida na forma analítica como Kafka o fez. O autor tenta ajustar as contas apesar de não ter obtido sucesso, já que não se conhece os motivos que o motivou desistir da idéia de entregar a Carta ao destinatário.
O que era para ser um acerto de conta familiar tornou-se mais uma importante obra do autor, e revelou que muito do que se ler em “A Metamorfose”, “O Castelo”, e “O Processo” estão ligados a traumas psicológicos do seu relacionamento com o pai.

Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Atentado - Yasmina Khadra

“Podem te tirar tudo, teus bens, teus mais belos anos, todas as tuas alegrias e todos os teus méritos, até tua última roupa – sempre restarão teus sonhos para reinventar o mundo que te confiscaram”.

Esta é a visão do mundo para o médico Amin, personagem que narra a história escrita por Yasmina Khadra, surpreendido quando sua discreta esposa se envolve em um atentado, que resultou na morte de dezenove inocentes.
Shiem, esposa de Amin, amarrou bombas na cintura e entrou em um restaurante próximo ao hospital que o marido prestava serviços. Explodiu o que carregava e tornou-se kamikaze por convencimento de fundamentalistas.

A história é envolvente e relata as arriscadas aventuras do médico à procura dos responsáveis, quando ele próprio se torna um dos suspeitos para a polícia.
Vai à cidade onde o movimento fundamentalista aparelhou sua esposa e se surpreende com o envolvimento de parentes próximos. Quanto mais lutava para provar a inocência da mulher, maior era a decepção por ter mantido uma relação dissimulada só descoberta após o triste desfecho.

Informações sobre o autor - Yasmina Khadra é o pseudônimo literário do argelino Mohamed Moulessehoud. Recebeu o Prêmio dos Livreiros Franceses 2006. É considerado uma das grandes vozes da moderna literatura francesa.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

101 dias em Bagdá - Asne Seierstad

Aliya, a interprete da jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad, que acompanhou a invasão americana ao Iraque, de janeiro a abril de 2003 e escreveu o livro 101 dias em Bagdá, viveu a guerra de forma diferente dos demais iraquianos.

Segundo Asne, ela foi indicada pelo governo de Saddam Hussein para acompanhá-la em suas atividades, dias antes do início da invasão americana.
Apesar de contestar o comportamento de Aliya, diante da disciplina imposta pelo antigo regime, Asne tentou compreendê-la ao ter conhecimento da forma que eram cobradas os descumprimentos às ordens de Saddam.

O que parecia atitude vinda da consciência, não passava de lavagem cerebral imposta aos iraquianos, que não tinham a oportunidade de analisar o que era certo e errado.
No entanto, a disciplina às leis imposta pelo regime, e principalmente a falta de condições de questioná-las fez de Aliya uma pessoa desprovida de opinião. E quando as tinha não sabia se podia externá-las.

Após a invasão do Iraque pelas forças aliadas aos Estados Unidos a interprete chegou a se perguntar, sem, contudo expressar a opinião a respeito: - “As pessoas dizem que ele (Saddam) não se preocupava conosco. Dizem que só pensa em si mesmo.”
Enquanto um soldado americano observava a destruição da Babilônia expressou a sua opinião: - “Não tenho certeza que esta guerra seja justa. (...) Acho que tudo isso é por causa do petróleo. (...) O único ministério que protegemos é o do petróleo.”

Os 101 dias relatados pela escritora foram alternados pelo silêncio, pânico, expectativa, e destruições. Faltaram serviços essenciais a exemplo de energia, água, comunicação, além de alimentos para a população.
Para exercer o trabalho de correspondente precisou driblar a segurança de Saddam Hussein e desenvolver habilidades próprias para conseguir informações a serem transmitidas ao exterior.
Não poucas foram as oportunidades que precisou se proteger dos bombardeios americanos. Até mesmo na hora de transmitir as notícias em horários definidos pelas redes de TV descumpriu recomendações de segurança.

Os temores de uma jornalista que viveu dentro de uma guerra, foram relatados com isenção no livro 101 dias em Bagdá. No mais, Saddam já recebeu a sua sentença, e o os iraquianos torcem por uma vida normal, apesar das ingerências internacionais, especialmente as dos Estados Unidos que não sabem como sair do país. 

Informações sobre o autor - Asne Seierstad nasceu na Noruega em 1970, é jornalista e escritora. É licenciada em filologia russa e espanhola e história da filosofia pela Universidade de Oslo. Correspondente de guerra desde 1994 cobriu diversos confrontos internacionais para meios de comunicação escandinavos, holandeses e alemães. Recebeu o Grande Prêmio Norueguês de Jornalismo, em 2003. 

Referência bibliográfica
Seierstad, Asne,1970
101 dias em Bagda / Asne Seierstad; adaptação da tradução portuguesa por Sofia de Sousa Silva. - 2ª ed. - Rio de Janeiro:

Record, 2006.
383p.

Tradução de: Hundre og én dag: En Reportasjereise
ISBN 85-01-07779-8
1. Seierstad, Asne, 1970 - Viagens - Bagdá (Iraque). 2 Iraque, Guerra do, 2003 - Narrativas pessoais norueguesas. 3. Iraque, Guerra. do 2003 - Jornalista. I.Título.

domingo, 10 de maio de 2009

As Intermitências da Morte – José Saramago

A narrativa do livro permite ao leitor embarcar em avaliações distintas com base no ângulo que mais lhe convier. Contudo, por mais que se escolha um foco, as questões éticas, políticas e sociais permeiam a história de forma hilária.

O ocidental tem o hábito de ao falar sobre a morte considerar-se fora do contexto. Saramago trata o assunto com naturalidade, às vezes cômica. Leva o leitor a avaliar as consequências de uma eventual greve daquela que a maioria dos mortais não a querem por perto.

A temática da escrita é focada do início ao fim do livro, e chega ao ponto do leitor tentar se inserir no dialogar com a morte. O desejo da inserção tem o objetivo de reabitá-la da pseudo maldade, e mantê-la em atividade mortífera oxigenando a logística criada pela sociedade moderna.

O leitor deseja também dialogar com a personagem principal do livro para se aconchegar, e se possível, tornar-se amigo e convencê-la a excluí-lo da lista. Conhecendo-a melhor, ele teria a oportunidade de entender o procedimento da escolha e interagir de forma adequada, em oposição a este.
O medo da inflexibilidade da morte é verdadeiro. Quando ela dá as caras e desiste, por uns tempos, muitos ensinamentos são percebidos, apesar da ausência de diálogo.

As famílias, os hospitais, o governo, as funerárias, os cemitérios, as seguradoras, e muitas estruturas que vivem da logística, criada para viabilizar conforto aos vivos, reclamam da trégua unilateral da morte.

A sociedade se queixa, discretamente para não parecer antiética, e aceita os préstimos da máfia para viabilizar o intento de substituir a morte naquele país imaginário que ninguém morreu durante muitos meses.

Saramago mostra, mais uma vez, que os princípios éticos, defendidos socialmente, são deixados de lado quando a crise abrange o contexto geral. Bate de frente nos filósofos e religiosos de meiatigela, sem poupar a personagem principal do livro: a morte.
É um livro fascinante, apesar do tema que traz a personagem que carrega a foice encarregada de ceifar a vida.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores, foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922
As intermintências da morte: romance / José Saramago. - São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
206p.
ISBN 978-85-359-0725-4
1. Romance português. I.Título.

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