quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Levantado do chão - José Saramago

A saga, de três gerações, da família Mau-Tempo é retratada em paralelo com os acontecimentos políticos ocorridos em Portugal. O sapateiro Domingos e a sua esposa Sara Conceição representam a primeira geração, escolhida pelo autor para caracterizar o sofrimento e a tolerância passiva de uma política social repressora, imposta em benefício dos latifundiários.
A segunda geração, representada por João Mau-Tempo, toma consciência que a transformação política depende de questionamentos que leve à valorização do trabalho. Esta mudança de atitude resultou em afrontamento aos proprietários rurais, que recebiam a complacência da igreja.
A terceira geração, liderada por Manuel Espada, casado com a filha de João Mau-Tempo, agiu de forma contundente contra a aceitação das políticas impostas ao povo. Os opositores ao sistema se depararam com a repressão.

Saramago utiliza-se de um cenário rural, na região do Alentejo, para romanescar a luta dos portugueses em busca de transformações políticas. As influências das guerras, do regime totalitário salazarista e da Revolução dos Cravos são tomadas como referências, não literais, para discorrer sobre os reflexos na vida da população carente.

Refere-se ao desemprego: “E há o desemprego, primeiro os mais moços, depois as mulheres, por fim os homens. Vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável. Não se vêem nestas alturas feitores nem capatazes nem manajeiros, muito menos se veriam patrões, todos fechados em suas casas, ou longe na capital e noutros resguardos. A terra é só crosta seca ou lamaçal, não importa. Cozem-se ervas, vive-se disso, e os olhos ardem, o estômago faz tambor, e vêm as longas, dolorosas diarréias, o abandono do corpo que se desfaz de si próprio, fétido, canga insuportável.  Apetece morrer, e há quem morra.”
Sobre o despertar da mudança, o autor cita: (...) o tempo verdadeiro dos homens e o que neles é mudança não se rege por vir o sol ou ir a lua, coisas que afinal só fazem parte da paisagem, (...) Às vezes requer-se uma impaciência dos corpos, senão um exaspero, para que as almas enfim se movam (...)
E, sobre os efeitos das ações repressoras: “Não se trata os homem como nós temos sido tratados, depois falaremos, os ares ficaram enturvecidos depois destas prisões, deixa passar o tempo até que tudo se componha, isto é como uma rede de pesca, leva mais tempo a consertar do que a romper, e Manuel Espada rematou assim, Espero o tempo que for preciso.”
 

Em Levantado do Chão, o autor oferece ao leitor um romance político social, com versatilidade ensaística e linguagem característica do meio rural, entremeda por citações filosóficas que permitem vivenciar metaforicamente as agruras dos que, ainda hoje, vivem em situações parecidas às relatadas no texto escrito em 1980.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Azínhaga, Golegã, Portugal e morreu em 2010 na Província de Las Palmas, Canárias, Espanha. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Camões em 1995 e o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Viveu entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. Escreveu Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez, As Intermitências da Motre, A Viagem do Elefante, Caim, Claraboia, dentre outros trabalhos.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922 -2010
Levantado do chão / José Saramago. 15ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
368p.
ISBN 978-85-286-0063-6
1. Romance português. I. Título.

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