sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Albatroz Azul – João Ubaldo Ribeiro

Belinha, a única filha de Tertuliano em idade frutífera, casada com Saturnino Bororó, estava grávida e esperava que fosse mais uma mulher a somar às muitas já paridas. Ocorre que, Tertuliano tinha certeza, que desta vez, na barriga da filha crescia um menino.
Pesquisou o nome mais apropriado para o neto, mesmo antes de nascer, e concluiu que ele se chamaria Raymundo Penaforte. Guardou para si os preparativos e ficou aguardando chegar o dia que a parteira Altina Pequena seria chamada para ajudar no parto de Penaforte.

Durante o trabalho de parto, Altina mandou convocar Tertuliano, logo ele confirmou a aparição da lua cheia no céu. Ao chegar à casa de Belinha, Altina lhe informou que o menino estava nascendo de bunda e Tertuliano refletiu de imediato, sobre os sinais que havia recebido durante a gestação de Penaforte. Assim que o menino foi habilmente manipulado pelas mãos da parteira, lhe foi entregue para completar o ritual: “Depois de puxá-lo sem esforço, como se não tivesse havido nenhuma dificuldade antes, Altina passou o menino ainda gosmento a seu avô, que o levou com o traseirinho na direção da lua e assim o manteve em quanto rezava um padre-nosso e uma ave-maria...”.
Ou seja, o menino tinha nascido com o “cu para a lua”, e os que assim nascem sempre têm um destino promissor.

Nestor Gato Preto, velho amigo de Tertuliano, conhecedor de muitas seitas e religiões, o convidou para um passeio e revelou que o garoto era detentor de duas vidas.
Daí em diante restava preparar o futuro da criança. Primeiro, foi a escolha de Zé Honório e dona Roxa Flor como padrinhos. Casal com patrimônio e experiência suficiente para, na eventualidade, cuidar do futuro de Raymundo Penaforte.

Após o nascimento do neto e a revelação sobre suas duas vidas, Tertuliano, firmou idéia que uma das vidas, do neto, seria vivida por ele, após sua morte. Aliás, nada e ninguém conseguiram desvencilhar Tertuliano, da idéia, que ele estava caminhando, rapidamente, para a morte.

O conceito sobre a proximidade da morte levou o velho Tertuliano Jaburu a refletir sobre a história da sua vida.
O pai de Tertuliano, Juvenal Peixoto do Amaral Botelho Gomes era filho de Nuno Miguel Botelho Gomes, e foi criado por Antônia Vicência, a Cencinha, que tinha como filhas Albina e Catarina. Durante a convivência, Juvenal, pai de Tertuliano, dormia com as duas moças, e terminou por engravidá-las.

A possibilidade de Nuno voltar a se casar em Portugal deixou Cencinha agitada. Afinal, a esperada herança do português seria dirigida a sua nova e jovem esposa. Não deixou por menos, chamou o afilhado, namorado das filhas, e determinou que tomasse as providências. Juvenal visitou o mais conhecido e eficaz mestre da feitiçaria e “encomendou” o impedimento da realização do casamento de Nuno.
Tudo não passava de uma decepção, já que os trabalhos não haviam surtido o efeito desejado. Nuno Miguel havia se casado e a sua mulher estava grávida. A notícia chegou a Itaparica como uma ducha de água fria. O prestígio do mestre feiticeiro caiu por terra, até que, certo dia um mensageiro chegou informando que a nova mulher de Nuno havia morrido, com o filho na barriga.

Cencinha se apressou em formalizar o casamento de Juvenal com uma das suas filhas, antes da viagem dele para Portugal, que tinha a finalidade de assumir a herança. Nuno poderia exigir que Juvenal se casasse com uma portuguesa, caso ele chegasse solteiro em Portugal, e Cencinha, preocupada com esta possibilidade, resolveu que Juvenal se casaria com Catarina, sua filha mais querida, contudo, havia um problema a ser resolvido: Tertuliano era filho de Albina, mas, Cecinha e Juvenal concordaram com a idéia de que um filho homem agradaria a Nuno Miguel. Como Catarina tinha uma filha, Juvenal decidiu comunicar a Tertuliano Jaburu, avô de Raymundo Penaforte, que daquele dia em diante, ele, Tertuliano, não mais seria filho de Alba e sim de Catarina.

Tertuliano Jaburu, apesar de uma vida bem vivida e aceitar a morte com naturalidade, não se desvencilhava dos conflitos existenciais, entre os quais, estava o fato de ter mudado de mãe. Na cadeira de balanço, refletia sobre a vida e a morte até que apareceu o marujo holandês Hendrick Beekman, morto durante a expulsão dos holandeses da Bahia, e lhe revelou um segredo.
Assim surge o Albatroz Azul, livre, majestoso, solto no céu...

O leitor embarca no clima e na linguagem regional da Ilha de Itaparica, na Bahia, e se delicia com um texto folclórico, comprometido com histórias hilárias de crendices, que aqueles que por lá passaram, percebem na atmosfera a maresia carregada de hábitos, crenças, manipulações e convicções de um povo habituado a forma simples de ser. 

Informações sobre o autor – Baiano da Ilha de Itaparica começou a escrever cedo, aos vinte e um anos, publicou Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro, A casa dos budas ditosos, Diário do farol, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu o prêmio Camões, atribuído aos maiores escritores da língua portuguesa. 

Referência bibliográfica
Ribeiro, João Ubaldo
O albatroz azul / João Ubaldo Ribeiro. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
236p.
ISBN 978-85-209-2386-3
1. Romance brasileiro. I.Título.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O menino de pijama listrado – John Bonye

A história de ficção é baseada nos horrores do Holocausto, contada por um garoto alemão, cujo pai, foi designado por Hitler, para comandar o campo de concentração de Auschwitz.

Bruno, o protagonista da história, tinha nove anos quando foi obrigado a abandonar, em Berlin, os amigos Karl, Daniel, e Martin, além da avó Nathali e o avô Matthias, e, acompanhar o pai, que havia sido designado para comandar o campo de concentração de Auschwitz, que o autor apelidou de Haja-Vista.

Desde que Bruno chegou a Haja-Vista, detestou a casa e o lugar, não só pelo que tinha deixado para traz, mas, também por ser um lugar sem vida, sem amigos e sem escola. Não bastassem estas condições, a única pessoa que se aproximava de sua idade era a sua irmã Gretel, porém, os dois, competiam entre si em todas as situações.
O fato do escritório de Ralf, pai de Bruno, ser na própria residência, fazia com que o entra e sai de soldados na casa se tronasse constante. Esta situação despertava a curiosidade do garoto, até porque não lhe era permitido adentrar ao escritório, tampouco acompanhar os diálogos lá ocorridos. Não bastasse o impedimento, nas reuniões sociais, tanto ele como a irmã Gretel, recebiam a recomendação para se recolherem aos seus quartos.

O habito de ler histórias de aventuras, despertou, em Bruno, o interesse por descobertas de lugares e coisas desconhecidas. Na casa em Berlin ele tinha muitos lugares para explorá-la, contudo, em Haja-Vista, após ter descoberto, através da janela do seu quarto, pessoas, além da cerca, usando o que ele chamou de pijama listrada, resolveu contornar a cerca do campo de concentração, sem saber exatamente o que se tratava, e terminou fazendo contato com Shumel, um garoto judeu que tinha a sua idade e nascido no mesmo dia que ele.
Após a conversa com Shumel, o qual se tornou seu melhor e único amigo em Haja-Vista, as visitas se tornaram diárias, oportunidade que Bruno lhe brindava com merendas levadas nos bolsos da calça.
Os diálogos entre Shumel e Bruno eram recheados de cordialidades, apesar de eventualmente, haver citações sobre a grandiosidade do povo alemão em detrimento aos judeus. Situação, contornada habilmente pelo garoto judeu, já que tinha, em Bruno, a alternativa de reforçar a fraca dieta do campo de concentração. Para Bruno, o interesse era dialogar com alguém disposto a ouvi-lo, já que em sua família, poucos estavam atentos à sua necessidade, a não ser Maria, a empregada, e Pavel, o médico idoso, encarregado de descascar verduras.

É sabido que na Alemanha, na época da grande guerra, formam cometidas muitas atrocidades contra judeus, contudo, o povo não se rebelava contra a prática dos crimes, não se sabe se por temor aos castigos do exército que servia a Hitler, ou por conforto do discurso equivocado de ser um povo de casta superior aos demais humanos.
Bruno se contradizia: em algumas situações ele se colocava como defensor dos oprimidos, em outras, se incluía entre os que se julgavam superiores. Ao que parece, o protagonista adsorveu diálogos de desaprovação de atitudes entre sua avó e seu pai, que influenciaram no conflito dos conceitos.
Certa vez, em uma reunião familiar, Nathali, avó de Bruno, disse ao filho, ao vê-lo com um uniforme novo, após a sua promoção: “Eu me pergunto – será que foi nisso que eu errei com você Ralf. Imagino se todas aquelas performances que eu exigir de você o levaram a isso. Fantasiar-se de fantoche. Você fica aí no seu uniforme como se isso o tornasse alguém especial. Nem se importa com o seu verdadeiro significado. O que ele representa.”

Ao ser informado, pelo pai, que voltaria para Berlin, juntamente com a sua irmã e sua mãe, Bruno, que já havia se adaptado a Haja-Vista, decidiu de comum acordo com o amigo Shumel, entrar no campo de concentração e ajudá-lo a localizar o pai, do garoto judeu, que havia sumido. Esta foi uma aventura idealizada por Bruno, devido às leituras habituais sobre explorações, relatadas nos livros que gostava de ler.
O fato trouxe uma grande e tenebrosa surpresa, que para entendê-la, o leitor precisará conhecer um pouco das práticas no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

O texto é escrito na forma direta e simples, recheado de diálogos ingênuos e comportamentos infantis de adolescentes. Oferece a oportunidade de visão do holocausto a partir de uma criança alemã, componente de uma família, cujo pai, era envolvido nos crimes de guerra. 

Informações sobre o autor - Nasceu na Irlanda em 1971, e é autor de mais sete romances. Os livros do autor foram traduzidos para mais de trinta idiomas.  

Referência bibliográfica
Boyne, John
O menino de pijama listrado: uma fábula / John Boyne; tradução de Augusto Pacheco Calli - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
186p.
ISBN 978-85-359-1112-1
1. Amizade - Ficção 2. Berlim (Alemanha) - Ficção 3. Ficção irlandesa 4. Jovens - Ficção I.Título.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Relato de um Náufrago – Gabriel García Márquez

Na noite que antecedeu o retorno do destróier Caldas, da frota da marinha colombiana, dos Estados Unidos, onde havia sido reparado, um grupo de marinheiros preparou uma festa de despedida, se encheram de uísque, abraçaram e beijaram as namoradas que estavam deixando para traz, saíram do descanso forçado provocado pela reforma da embarcação e assumiram seus postos de trabalho.

Ao enfrentarem uma tempestade no mar do Caribe, o comando do Caldas determinou que oito tripulantes parassem de curtir a ressaca, em seus aposentos, e subissem para contrabalançar a embarcação, desalinhada pelas fortes ondas. Entre os tripulantes estava o protagonista da história, Luís Alexandre Velasco.

Onda pra lá, onda pra cá, os oito tripulantes foram arremessados ao mar, juntamente com um carregamento, nada comum em uma embarcação de defesa nacional. O destróier carregava contrabando de eletrodomésticos, trazidos dos Estados Unidos com destino à Colômbia, enquanto o país vivia sob a ditadura militar do general Gustavo Rojas Pinilla.

Velasco, o único sobrevivente entre os que caíram no mar, conseguiu agarrar-se a uma balsa e ficar dez dias, a deriva, lutando pela sobrevivência, sem comer, e sem beber.
Enquanto a marinha colombiana anunciava a inexistência de sobreviventes, Velasco, foi levado à Colômbia, pelas correntes marinhas, e, após dez dias de convivências com tubarões, gaivotas, e fantasma de um dos companheiros que não sobreviveu a fúria do mar, arrastou-se até a terra firme, e pediu ajuda de moradores, que o levaram, em comitiva, a caça de cuidados médicos.

Surpresa, com a sobrevivência de Velasco, a marinha não mudou a versão dos fatos, contudo, o transformou em herói nacional. Enquanto isso, o náufrago, ganhava dinheiro com propaganda das marcas do relógio e do sapato que usava, por terem resistido às intempéries.

Esquecido pelo sistema político que o projetou, Velasco, resolveu procurar o jornal El Espectador, e contar a sua versão da história.
Assim, o jovem jornalista, Gabriel García Márquez, ouve o náufrago e publica em quatorze dias consecutivos a verdadeira história. O fato toma novo rumo, e apesar das tentativas de ingerência dos militares para impedir a divulgação da narrativa tornou-se de interesse do público.

O texto não tem a forma característica de outras obras de Gabriel García Márquez. Os acostumados a ler o autor, percebe, com facilidade, que não se trata de mais uma obra idealizada por um dos gênios da literatura, mas, o “Relato de um náufrago”, chamado Luís Alexandre Velasco. Aliás, o autor cita: "há livros que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre, e este é um deles". 

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.  

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Retrato de um náufrago / Gabriel García Márquez; tradução Remy Gorga; Ilustrações de Caribé. 35ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
134p.
Tradução de: Relato de un naufrago
ISBN 978-85-01-01120-6
1. Velasco, Luis Alejandro. 2. Sobrevivência (após acidentes aéreos, náufragos etc.). 3. Marinheiros - Colômbia - Biografia. I.Título.

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