Por que José Saramago em seu livro Ensaio sobre a Cegueira deixou de fora a Mulher do Médico ao resolver cegar os habitantes de uma cidade fictícia?Quis ele incorporar a personagem, e através dos seus olhos, ajudarem o leitor a analisar as facetas do comportamento humano durante uma crise epidêmica, ou mostrar, desde o início do texto, que vale mais reparar do que simplesmente ver?
A história da chamada Cegueira Branca que se espalhou por uma cidade atemporal, registra as atitudes para a sobrevivência física, a dignidade, e a espiritualidade do homem, quando submetido a uma epidemia.
Quem ainda enxergava se comportava com autoridade para decidir o que fazer com os cegos. Logo, todos passaram a ficar na idêntica situação, exceto a Mulher do Médico, que se manteve, sem explicação médica, até o fim da história podendo ver.
O autor declarou ter sofrido para escrever o texto, e quis que o leitor também participasse da angústia ao lê-lo.
Sem dúvida, quem teve o prazer de ler o texto passa pela experiência do sofrimento maduro da reflexão sobre a humanidade. A depender do momento, coloca-se favorável ou contra comportamentos de sobrevivência, mascarados pela hipocrisia social.
Os limites entre a sobrevivência e barbaridade, e os entre o instinto do progresso e o da autodestruição, são ultrapassados a todo o momento.
Saramago acerta em cheio na ferida. Quem ler Ensaio sobre a Cegueira não será mais o mesmo. No mínimo, passa a reparar tudo o que ver na tentativa de se tornar mais preocupado com as mazelas da humanidade.
A sutileza entre o “olhar” e o “ver” permeia a visão física remetendo-a para, uma mais atenciosa, a de "reparar". Esta última poderá ser observada mesmo na cegueira.
A exclusão social, a relação com o poder, a crítica às autoridades, as alternativas para a sobrevivência, a experiência adquirida na velhice retratada no personagem do Velho da Venda Preta, podem ser identificadas no texto.
Porém, um fato relevante foi citado de forma sutil: O personagem Escritor, que mesmo sem “ver”, registrava no papel tudo o que “reparava”, acreditava que um dia alguém soubesse o ocorrido. Desta forma, conseguiria perpetuar a memória e ajudar na formação da consciência coletiva.
Saramago diz: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, esta coisa é o que somos”.
Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias.
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