segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Na Colônia Penal – Franz Kafka

O conto metafórico de Kafka nos remete a reflexão sobre os regimes ditatoriais, cujo poder, em vez de distribuído na estrutura jurídica, é concentrado em pessoas.
A história ocorre em uma Colônia Penal sobre os olhos de um visitante, convidado a acompanhar o processo de torturas e execuções.
Sem poder expressar a sua opinião a respeito do que estava presenciando, o observador procurou manteve-se fora do contexto apesar de insultado e provocado pelo oficial juiz e executor.
Os interesses eram divergentes. Enquanto o observador analisava o processo para compará-lo ao usado em seu país, o oficial almejava a sua concordância, com o intuito de ganhar apoio para a manutenção do método, em razão da existência de um novo comandante na Colônia Penal que havia insinuado o desejo de alterar o antigo procedimento.
Durante uma das torturas, questionado sobre o crime praticado pelo condenado, o oficial juiz informou que o indivíduo havia dormido em serviço. Neste caso, a pena imputada, por ele, foi tortura seguida da execução.
Torturar, na Colônia Penal, quer dizer: escrever a sentença, no corpo do condenado, utilizando-se agulhas presas em uma espécie de rastelo ligado a uma máquina que se encarregava de deslizar no corpo imobilizado do sujeito.
Sem esboçar qualquer reação, o sentenciado era amarrado na sofisticada máquina, e, só depois de colocada para funcionar, a sentença era escrita, de forma cruel, no corpo desnudo, durante aproximadamente sete horas. O sangue jorrava, se misturava com água e escorria para o fosso. Depois de tatuada a sentença, a máquina concluía o procedimento executando o condenado. Não bastava condenar por banalidades, mas, torturar e executar, lentamente, de forma sádica.
Ao perceber que não teria o apoio do visitante e a discordância do novo comandante da Colônia Penal na defesa do método, o oficial juiz fez uso da geringonça que havia inventado e aperfeiçoado para o seu próprio fim. Aguardou deitado, calmo e convicto a ponta do estilete, preso no rastelo, atravessar a sua testa.

Kafka lembra metaforicamente os crimes praticados pela humanidade e antevêem, em 1914, outras atrocidades praticadas na Segunda Guerra Mundial. Induz, ainda, à reflexão que a consciência pune os indivíduos envolvidos em atos e ações desastrosas, a exemplo das praticadas no holocausto. Deixa, também, uma mensagem escrita em letras pequenas, para que todos necessitem se ajoelhar para lê-la, na lápide do antigo comandante que havia ajudado a criar o torturante procedimento: "Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, cavaram-lhe o túmulo e assentaram a lápide. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, ressuscitará e chefiará seus adeptos para a reconquista da colônia. Acreditai e esperai!"

Esta última metáfora, escrita na lápide, remete à convicção que os crimes e as torturas voltam a acontecer e que é sempre bom lembrar a necessidade da vigilância social e política. Há sempre adeptos da tortura, do autoritarismo e a crença da reencarnação. 

Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico. 

Referência bibliográfica
Kafka, Franz.
Na colônia penal / Franz Kafka; tradução Modesto Carone. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. - (Coleção Leitura)
51p.
ISBN 85-219-0223-9
1. Ficção alemã I. Título. II. Série

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma História Lamentável – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Três cavalheiros respeitáveis reunidos na casa do conselheiro Stepán Nikíforovitch Nikíforov conversavam, tarde da noite, até que um deles, o jovem general russo Iván Ilítch Pralínskii, expressou opiniões de cunho social: “Está mais do que na hora! Já nos retardamos demais, e, a meu ver, humanidade é a primeira condição; humanidade no modo de tratar os subalternos, pois não se deve esquecer que são homens como nós! A humanidade será a salvação universal e porá tudo nos trilhos...”

Os outros não concordaram com as idéias renovadoras do jovem general e, apesar de mantida a cortesia, a discussão gerou certo desconforto.
Iván acompanhado por Semión Ivánovitch Chipuliénko deixaram a casa do anfitrião e perceberam que o cocheiro Trifón havia saído com o trenó. Iván decidu ir andando até a sua residência.
Percebeu movimentação festiva em uma das casas e foi informado que se tratava da comemoração do casamento de um dos seus funcionários. Decidiu entrar e por em prática suas idéias socialistas humanitárias, defendidas minutos antes na casa do conselheiro Stepán.

Preocupado de como seria recebido pelo noivo Porfírii Petróvitch Pseudonimov, preparou-se para evitar convencionalismo, contudo, a sua presença, no primeiro momento, terminou causando inquietação dos presentes.
No decorrer da festa, Iván, se viu em constante conflito. Procurava se portar de forma a não criar embaraços aos convidados, e, ao mesmo tempo censurava as pessoas que estimuladas pelo álcool o tratavam de forma indiferente.
Sem alternativa para uma saída honrosa perdeu o controle e terminou se embebedando, fato que levou o ilustre intruso desmaiar. Sem alternativa, foi levado a ocupar a cama preparada para a noite de núpcias.
Não bastasse a apropriação da alcova, Iván Ilítch Pralínskii teve que ser amparado durante a madrugada, pela generosa mãe do noivo que ficou com a incumbência de transitar com um urinol, pelos corredores da casa, devido a um incontrolável desarranjo intestinal do general.
Recolhido em sua residência por oito longos dias, após o ocorrido, Iván, voltou envergonhado ao trabalho sem saber como se posicionar perante os subordinados. Sentado em uma cadeira exclamou: “Não suportei!”

O autor nos remete a uma reflexão: algumas vezes, os valores intrínsecos na consciência terminam por trair princípios sociais defendidos através da visão humanista, e promove um conflituoso sofrimento mental.
A pequena “História Lamentável” contada por Fiódor Dostoiévski é divertida e traz ponderações filosóficas importantes para o próprio comportamento e para o senso crítico de que os analisa. 

Informações sobre o autor Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski,  nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiodor, 1821-1881.
Uma história lamentável / Dostoiéviski; tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira.
2. ed. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
(Coleção Leitura)
101p.
ISBN 85-219-0225-5
1. Contos russos. I. Título. II.Série.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Veronika Decide Morrer – Paulo Coelho

A falta de percepção de significado para a vida, originada por uma silenciosa depressão, induziu a jovem Veronika tentar suicídio usando um coquetel de comprimidos.
Desacordada, foi levada a uma clinica para pacientes com problemas mentais. Lá, deparou-se com uma situação inusitada: viu-se ludibriada pelo médico psiquiatra que a usou em experiências, objetivando ajudar o tratamento de outros internos.
Lúcida, apesar de ter sido convencida que lhe restava poucos dias de vida, a jovem tentou fugir da clinica e antecipar, mais uma vez, a sua morte, já que não encontrava motivos para aguardar a natureza se encarregar do fato.
Por sua vez, o médico, cônscio que Veronika ainda podia viver por muito tempo, se viu dividido em dar continuidade à experiência médica psicológica e mantê-la, na clinica, com segurança.

Quando da visita dos pais, Veronika tenta explicar que nada do que havia acontecido tinha fundamento na relação familiar.

Apesar de depressiva, a jovem tinha perfeita consciência dos acontecimentos e com a ajuda de outros pacientes conseguiu se desvencilhar da situação fugindo com um rapaz que havia bloqueado a fala, por sentimento de culpa, devido a morte de sua namorada em um acidente de carro.

O livro remete o leitor a refletir sobre a capacidade da mente em processar sentimentos que podem levar a comportamentos e atitudes que mascaram alternativas para a felicidade. Mostra, ainda, que a falta do autoconhecimento e da percepção de uma visão dimensional de coisas, tempo e temas que envolvem a aquietação, necessária ao aguardo de soluções aparentemente insolúveis, pode levar o indivíduo a atitudes divergentes da ordem natural da vida.

Paulo Coelho - Nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista. Vendeu mais de 100 milhões de livros, de acordo com a revista americana "Publishing Trends". O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 74 países, e vendeu mais de 35 milhões de exemplares. Este livro lhe rendeu em 2008 Prémio Guinness World Record pelo livro mais traduzido no mundo. ()

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