sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A queda – Albert Camus

O texto traduz o sentimento de ansiedade, próprio do indivíduo que traz a angustia e a necessidade de ser ouvido, devido à falta de atitude que levou Jean-Baptiste Clamence, protagonista da história, a sentir culpa por não ter dado a atenção a um fato que resultou na morte de uma mulher.
A impossibilidade de retroceder no tempo e transformar a omissão em ação fez do personagem um indivíduo ansioso, a ponto de levar o autor a estruturar o texto em um monólogo, capaz de colocar o leitor na condição do interlocutor desconhecido, inoperante e absorto.

Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que se denominou “juiz-penitente”, deixou o glamour da cidade após uma vasta experiência hedonista, na qual a busca do prazer e da satisfação pessoal chegou a extrapolar o sentimento egocentrista. Instalou o seu escritório, em um botequim conhecido como México-City, na cidade de Amsterdam e em companhia dos frequentadores identificava clientes potenciais.

Quase sempre, divulgava suas ideias às pessoas que conviviam no local, contudo, certo dia, elegeu um cliente do botequim México-City como ouvinte da maioria das suas angustias e inquietações.   
O monologo é composto de frases provocativas e audaciosas. Coloca o protagonista no cento da história, expondo-o à avaliação de conceitos e atitudes que evidenciam um estilo de personalidade  com tendência existencialista.

Diz o protagonista com sentimento egocentrista: “Já reparou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabaram de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam mais, que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa homenagem que talvez tivesse esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há mais obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não é o morto recente que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

Cita a respeito da ausência de caráter: “Quanto a mim, moro no bairro judeu, ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados – é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”

O monólogo traz, também, um desabafo, sofrido, de um homem que não consegue se desvencilhar do sentimento de culpa e o remete a avaliações que o incorpora no contexto  de uma sociedade individualista e pouco preocupada com uma conjuntura mais ampla. Vejamos: “Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”

O livro é um ensinamento, grandioso, que só autores da estirpe de Albert Camus são capazes de levar o leitor à reflexão do comportamento humano, muitos dos quais, seus reflexos, são irreversível para si próprio e para a humanidade.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
A queda  / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. - 16ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
114p.
Tradução de: La chute
ISBN 987-85-01-01284-5
Romance francês. I. Rumjanek, Valerie. II.Título

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Notícia de um sequestro – Gabriel García Marquez

O autor consegue informar as nuances de uma guerra produzida pelo mais famoso traficante de drogas colombiano, Pablo Emilio Escobar Gaviria. Sem perder o contexto político da história o texto esmiúça o drama de cada personagem sem se importar em que lado ele se encontra. Em muitos momentos o bem e o mal andam de mãos dadas na busca do entendimento racional do contexto que estão submetidos.
A história toma rumos que parece satisfazer aos envolvidos, mas logo depois, os sequestrados, seus familiares e o governo vislumbram um caminho que parece sem volta.
Sem propósito surge o padre García Herreros que se ofereceu para ajudar a intermediar as negociações, e, ao lado de Alberto Villamizar Cárdenas, marido de Maruja Pachón, uma das sequestradas, articula entendimentos para a rendição de Escobar, que por sua vez se esconde atrás dos chamados Extraditáveis para não assumir diretamente os crimes.
Afinal, a luta pela aprovação, na Assembléia Constituinte já infiltrada pelo narcotráfico, da proibição da extradição dos traficantes para os Estados Unidos, após a rendição, era o ponto chave das negociações.
Decidido a não extradição, Escobar se entrega e os que sobreviveram aos sequestros voltaram à rotina da vida com os seus traumas e as suas experiências.

O livro mostra o absurdo da guerra entre o poder constituído e o domínio do tráfico de drogas, a dificuldade de um país em manter os valores sociais e políticos além do sofrimento dos sequestrados, vítimas de uma situação que não contribuíram para ocorrer.

O autor, conhecido como excelente ficcionista, constrói um texto informativo robusto e sem tendências. Relata o ocorrido sem tomar partido e deixa para o leitor a análise do contexto. O fim de Pablo Escobar é conhecido, portanto, não há surpresa, até porque o texto não se propõe a levar o leitor a um final desconhecido, mas participar da emoção e da angustia dos sequestrados, dos seus familiares, do governo e do caminho sem volta de um dos traficantes mais conhecido no mundo.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Notícia de um sequestro / Gabriel García Márquez; tradução Eric Nepomuceno. - Rio de Janeiro: Record, 1996.
336p.
Tradução de: Noticia de un secuestro
INBN85-01-04694-9
1. Novela colombiana. I. Nepomuceno, Eric, 1948. II. Título.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recordações da Casa dos Mortos – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Ao falar a respeito do livro Recordações da Casa dos Mortos convém comentar o ocorrido com o seu autor, antes de ter passado pela experiência de presidiário.
A Europa enfrentava conflitos sociais. Vivia um sonho libertário e o socialismo aparecia como alternativa utópica para acabar com o feudalismo existente na Rússia. Ainda jovem, Dostoiévski, envolveu-se na conspiração do revolucionário Mikhael Petrachévski, que tinha o propósito assassinar o Czar Nicolau I.
Apesar de negar o seu envolvimento, o autor foi preso em 1849 e condenado a morte com mais vinte e um companheiros. Com vinte graus abaixo de zero, vestindo túnicas mortuárias, os condenados foram amarrados em postes na Praça Semionovski e experimentaram a desagradável sensação que antecede uma execução: padres, fuzis, tambores e só depois do ritual lhes foi revelado que a punição inicial havia sido substituída por prisão e trabalhos forçados na Sibéria.

No presídio, o protagonista, considerado nobre, convive com criminosos comuns e vivencia, possivelmente, a maior e mais inesquecível experiência de sua vida. Rejeitado por uns e cortejado por outros passa quatro anos de sua vida sofrendo com o frio, as precárias instalações, a deficiente alimentação, e, principalmente, com o tormento de nunca poder ficar sozinho.
Os detentos eram na sua maioria, retraídos, desconfiados, invejosos, valentões e extremamente insensíveis.
O livro é uma obra voltada para a psicologia criminal. As observações do autor a respeito do comportamento humano em situações de culpa enriquecem sobremaneira a obra e remete o leitor a análise de modelos aparentemente corretivos, mas no fundo para nada servem.
Diz o autor: “Não resta dúvida de que o tão gabado regime de penitenciária oferece resultados falsos, meramente aparentes. Esgota a capacidade humana, desfibra a alma, avilta, caleja e só oficiosamente faz do detento “remido” um modelo de sistemas regeneradores.”

O protagonista experimenta na prisão momentos do bem e do mal, do crime e da culpa. Procura uma resposta para a prática do crime, independente da classe social que o homem está inserido e se tudo não bastasse analisa a si próprio: “Mas o tempo fluía e dei em me habituar gradativamente. À medida que os dias passavam, as realidades cotidianas iam me irritando menos. Os meus olhos, por assim dizer, se iam habituando aos acontecimentos, ao ambiente e aos homens.”

O autor fala, também, de esperança ao dizer: “Quando o sol brilha, a gente pensava na liberdade muito mais intensamente do que nos dias cinzentos do outono e nas horas opacas do inverno.”

Não bastassem as observações sobre os criminosos, o autor não abandona as críticas sobre as atrocidades praticadas pelas autoridades do presídio. Além do trabalho forçado, sob condições desumanas, o uso dos grilhões, mesmo nos doentes prestes a morrer, e os castigos exagerados praticados pelas autoridades tomam lugar de destaque no texto, a exemplo do relato de um açoitado ao revelar: “É, atroz, dá a impressão de fogo aplicado demoradamente na pele. Assa as costas como um grelha.”

O livro fala, com maestria, das dificuldades nas relações entre pessoas de diferentes classes sociais e insere o próprio protagonista nesse contexto, quando procurava refúgio no hospital, simulando doença, simplesmente para escapar do convívio indesejado.
Sem dúvida, é um marco histórico na literatura mundial, até porque, segundo se comenta, iniciou a melhor fase do respeitado autor.

Informações sobre o autor Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Recordações da casa dos mortos / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução deJosé Geraldo Vieira. - São Paulo: Martin Claret, 2006. 
Título original: Zapiski iz mertvogo doma.
ISBN 85-7232-7'6-9.
308p.
1.Romance russo I.Título.II.

domingo, 31 de outubro de 2010

A Revolução dos Bichos - George Orwell

O livro é uma crítica ferrenha à Revolução Russa e à sociedade européia em especial às castas dominantes inglesas e à imprensa que tangenciava de forma conveniente as críticas ao regime. A forma inusitada encontrada pelo autor para relatar os fatos discordantes das ideologias políticas que vigiam na Europa é  fantástica.
O texto diverte o leitor e permite o aprofundamento para o entendimento do comportamento social humano. 
George Orwell faz uma analogia entre lideres da Revolução Russa e o comportamento dos porcos da Granja dos Bichos. Major, um porco que tinha percepção dos motivos que o mantinha vivo, conscientizou os demais animais da Granja Solar para a necessidade de um rebelião e implantarem uma revolução que transformasse a sociedade “animal” cujos valores decorriam do tratamento equânime.
Major morre mas o conceito de poder usufruir o que produz ficou enraizado durante as reuniões que antecederam à Revolução. Alguns animais se dedicaram além do que faziam quando ainda eram subordinados ao antigo dono da Granja Solar, enquanto outros apesar de participarem do movimento não tiveram a mesma consciência e disposição.
Os animais Napoleão e Bola de Neve tinham conceitos diferentes. O primeiro achava que deveriam se armar e defender a granja enquanto o segundo defendia estimular reações parecidas em outras granjas, na busca de um mundo socialmente mais justo. Napoleão expulsou Bola de Neve e exerceu o poder com “mãos-de-ferro” e implantou notícias infundadas a respeito do antigo companheiro para justificar a sua decisão.
Com o passar do tempo tanto o processo produtivo como o de consumo da Granja tornou-se muito parecido com o que acontecia anteriormente. Quando se questionava sobre os mandamentos que nortearam a Revolução, Garganta, o “porta-voz” de Napoleão, usava o fato de saber ler e demovia os animais trabalhadores de qualquer reação, dando novas interpretações aos mandamentos.  
Entre os animais, os porcos assumiram privilégios e com o passar do tempo as prerrogativas foram aumentando até usufruírem de conforto e segurança diferente dos demais animais, contrariando, assim, os mandamentos que deveriam ser seguidos por todos. O certo é que os porcos não produziam um só quilo de alimento e demonstravam muito apetite. Quanto aos demais animais trabalhavam e não usufruíam de nenhum conforto.
A decepção acontece quando foi percebido que os líderes se transformam em uma casta dominante parecida com os humanos. Era impossível distinguir quem era homem e quem era porco. Os mandamentos que serviram para doutrinar os animais foram, aos pouco, distorcidos e a sociedade que lutou por ideais revolucionários se viu em situações parecidas com as que antes. Ao final, o autor radicaliza e apresenta os líderes da Revolução dos Bichos caminhando em duas pernas, contrariando um dos sete mandamentos da Revolução: “Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.”

O livro foi escrito em 1943 e a história chama a atenção da sociedade para as distorções dos regimes políticos, especialmente os totalitários, e foi criada quando o autor percebeu uma criança de dez anos comandando um imponente cavalo. Cada vez que o animal tentava se desviar do caminho o garoto o chicoteava. Ao perceber aquela situação imaginou se o animal tomasse consciência da sua força física não teriam o mesmo poder sobre ele, deixando-se explorar pelo garoto a exemplo da opressão exercida pelas classes mais favorecidas em relação aos proletariados. Trata-se de uma análise da teoria de Karl Marx de forma independente, criativa e inusitada. É um texto que apesar de ter sido escrito há mais de cinquenta anos se mostra atual.

Informações sobre o autor George Orwell nasceu em Motihari na Índia, no ano de 1903. Completou seus estudos na Universidade de Eton. Aos 19 anos entra para a Polícia Imperial Britânica. Passou muitos anos entre a Índia e a Birmânia. Revolta-se com o imperialismo inglês. Considera seu passado vergonhoso, e por isso muda seu nome. Seu nome verdadeiro é Eric Arthur Blair. Trabalha como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Assim, sente pela primeira vez a opressão da classe trabalhadora. Neste contexto ele começa a escrever. Participa da Guerra Civil Espanhola em 1936, lutando ao lado do P.O.U.M. (Partido Obrero de Unificación Marxista). George Orwell era a favor das classes sociais baixas e se decepcionou com os Partidos Comunistas da época, fiéis aos ditames de Moscou. Era um anti-stalinista, não pelo socialismo, mas contra todo o tipo de totalitarismo. Escreveu "Na pior em Paris e Londres", "A flor da Inglaterra", "Dias na Birmânia", "O caminho para Wigan Pier", 1984, A Revolução dos Bichos, entre outros títulos. ()

Referência bibliográfica
Orwell, George, 1903 - 1950
A revolução dos bichos: um conto de fadas / George Orwell; tradução Heitor Aquino Ferreira; posfácio Christopher Hitchens. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
147p.
Título original: Animal farm : afairy story
INBN 978-85-359-0955-5
1. Ficção inglesa. I. Hitchens, Christipher - II. Título.

sábado, 16 de outubro de 2010

O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez

A história dos pais do autor foi transformada em romance. O cenário da cidade de Cartagena de lás Índias foi o escolhido para enriquecer a narrativa que retrata o sentimento de insatisfação diante do fracasso amoroso, os valores sociais, os efeitos do cólera, a devastação da natureza, a dificuldade no relacionamento conjugal e a rejeição ao processo de envelhecimento.

Florentino Azira, filho de uma aliança ocasional entre Trânsito Azira e Pio Quinto, aos dezoito anos, encanta-se por Fermina Daza filha de um inescrupuloso comerciante que tinha planos de casar a filha com uma pessoa de importância social.
Apesar das ações do viúvo Lourenzo Daza, pai de Fermina, para promover a eparação dos amantes, os sentimentos se eternizaram e foram registrados nas inúmeras cartas de amor escritas por Florentino Azira.   Fermina Daza casa-se com o médico Juvenal Urbino, por mero capricho, ao perceber o interesse da prima Hidelbranda pelo médico, experimenta uma vida fingida e desprovida de prazer. Enquanto Fermina se dedicava aos compromissos sociais, Florentino Azira navegava por muitos relacionamentos amorosos sem se dar o direito de entregar-se a outras paixões. Adquiriu o hábito de cadastrar as características das mais de seiscentas mulheres com as quais se deitou. Envelhece, carcomido, na esperança de só morrer após Juvenal Urbino e um dia reencontrar Fermina.

O conto traz afirmações sobre o amor, sobre o casamento e a velhice, dignas de registro:
“Só me dói morrer se não for de amor.”
 “(...) tinha vivido junto o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso fica quando mais perto da morte.”
 “O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de fazer amor, e é preciso tornar reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.”
 “Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.”
 “Os velhos, entre velhos, são menos velhos.”

Esta é uma história singular que ultrapassa o imaginário da perseverança. Vence as barreiras, refaz os conceitos, retrata o contexto poético a ponto de não nos parecer verdadeira. É uma narrativa espetacular, rica em detalhes de época e sentimentos humanos, bondosamente oferecidos ao deleite do leitor, que só um autor da linhagem de Gabriel García Márquez poderia escrever. A espera do reencontro durou cinqüenta e três anos, quatro meses e onze dias.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
O amor no tempo do cólera / Gabriel García Márquez; tradução Antônio Callado. 35ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
429p.
Tradução de: El amoren los tiempos del cólera
INBN 978-85-01-02872-3
1. Romance colombiano. I. Callado, Antônio, 1917 - 1997. II. Título.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Crocodilo – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

O livro foi escrito no contexto histórico da Rússia Czarista, sob o comando de Alexandre II, cujo governo antiliberal defendia privilégios da aristocracia.
O autor que viveu o regime e suas conseqüências escolheu em linguagem simbólica para satirizar a burocracia russa atribuindo crítica impiedosa à concepção do modelo capitalista.

Dostoiévski elege uma sofisticada galeria em São Petersburgo, um funcionário público, um imigrante alemão e seu crocodilo para simbolizar a aristocracia, a burocracia governamental, e o regime capitalista, sem se descuidar, com maestria, das críticas e opiniões do narrador, Siemión Siemiônitch, que se inclui na história intrometendo-se nos diálogos, registrando situações, valores, conceitos e interesses dos personagens que giram em torno do protagonista.
Em companhia da sua esposa e do narrador, em rápida passagem pela galeria onde o crocodilo estava sendo exposto à visitação, o funcionário público Ivan Matviéitch é engolido inteiro pelo réptil. Daí em diante os conflitos de interesse do próprio protagonista e dos que o cercam são contados na forma metafórica a exemplo do que ocorreu no livro Metamorfose escrito por Franz Kafka.
Ivan, na barriga do crocodilo, preocupa-se com as opiniões dos seus superiores, enquanto o seu experiente amigo, Timofiéi Siemiônitch, avalia a necessidade do seu sacrifício para estimular os investimentos estrangeiros e beneficiar a pátria.
O dono do animal, por sua vez, percebeu uma grande oportunidade de lucro, já que o animal, após engolir o  russo, havia triplicado o seu valor de mercado e aumentado, consideravelmente, o número de visitantes na galeria.
Enquanto isso, o protagonista percebeu uma oportunidade de se tronar famoso e exercer cargos importantes na estrutura governamental, tão logo saísse daquela situação. Ele diz: “(...) sou exposto perante todos e, ainda que escondido, estou em primeiro lugar. Passarei a instruir a multidão ociosa. Ensinando pela experiência, apresentarei com a minha pessoa um exemplo de grandeza e espírito conformado perante o destino! Serei, por assim dizer, uma cátedra da qual hei de instruir a humanidade. São preciosas mesmo as informações sobre o mostro por mim habitado. E, por isto, não só não maldigo o caso que me aconteceu, mas tenho até sólidas esperanças na mais brilhante das carreiras.”
O protagonista faz uma relação da possível retroalimentação entre  ele e o crocodilo para manter vivo o sistema capitalista. Ele diz: “Deste modo, alimentando o crocodilo com a minha pessoa, eu recebo dele também alimento; depreende-se, pois, que nos alimentamos mutuamente.” 
Ivan, na qualidade de funcionário público burocrata, avalia-se no sistema capitalista, aqui representado pelo crocodilo, e conclui sobre a dificuldade de ser aceito. Refere-se, no sentido figurado, à inexistencia de estômago no animal como intolerância do sitema a custos que oneram os processos produtivos: “Mas, considerando que, mesmo para um crocodilo, é difícil digerir uma pessoa como eu, ele deve sentir, nessa ocasião, certo peso no estômago – estômago que ele, diga-se de passagem, não tem -, e eis a razão por que, preocupado em não causar uma dor supérflua ao mostro, eu raramente me viro.”   

O texto histórico apresenta um relato político importante com ênfase nos anseios sociais voltados para mudanças estruturais, sem se descuidar da insegurança trazida pela mudança de paradigma.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.

Referencias bibliográficas
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881
O crocodilo e Notas de Inverno sobre impressões de verão / Fiódor Dostoiévski; tradução de Boris Schnaiderman – São Paulo: Ed. 34, 2000.
168 p. (coleção LESTE)
ISBN 85-7326-186-2
Tradução de Crocodil / Zímnie Zamiétki o Létnikh Vpietchatlêniakh
1.Literatura russa. I. Schnaiderman, Boris. II. Título. III. Série.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bipolar – Terri Cheney

A autora relatar fatos ocorridos no seu cotidiano e a dificuldade de viver com a alternância do estado de euforia e depressão. Mostra a dificuldade de esconder a perturbação psíquica para não prejudicá-la profissionalmente.
O seu estado de espírito definia a sua vida e o mundo real se tornou difícil de ser identificado. As conseqüências dos seus atos, quase sempre, não atendiam às boas intenções, apesar de alguns momentos de euforia lhe tenha favorecido profissionalmente e em outros proporcionaram desconforto e angustia.
O reconhecimento da situação psíquica era um fato real, contudo, a atitude para minimizar a crise se constituía numa barreira intransponível. O desejo para coisas extremas aparecia, sempre, amparado por uma farta energia e após os feitos vinha,  a reboque, a necessidade de restabelecê-la.
O sofrimento de esconder a situação começou a acabar quando, Cheney, decidiu revelar a amigos a sua condição psíquica e foi em busca do controle da sua verdade. Diz, ela: “Contar a verdade é uma dança como qualquer outra, com passos, ritmos e etiqueta. Eu tinha levado a vida inteira para aprender a mentir. E, agora, teria que dedicar um pouco mais de tempo para estudar a arte da revelação.”

O texto é uma contribuição importante para os leigos que desejam conhecer, superficialmente, a vida de uma pessoa bipolar, e, por certo, ajudará a identificar atitudes e comportamentos que levem ao entendimento, aceitação e quebra de preconceitos.

Informações sobre a autora – É advogada especializada em propriedade intelectual e contencioso de entretenimento. Depois de anos lutando secretamente com psicose maníaco depressiva, decidiu abandonar a profissão e se dedicar à causa das doenças mentais. Foi nomeada membro do conselho de consultores do Programa de Pesquisas sobre Desordens do Comportamento da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e fundou um grupo comunitário de apoio no Instituto de Neuropsiquiatria da UCLA. Mora em Los Angeles, Califórnia.

Referências Bibliográficas
Cheney, Terri
Bipolar / Terri Cheney; tradução Júlio de Andrade Filho e Clene Salles. – São Paulo: Larousse do Brasil, 2008.
Título original: Manic.
 ISBN 978-85-7635-284-6
1.    Cheney, Terri, 1959 – 2. Pacientes de transtorno bipolar – Biografia. 3. Transtorno bipolar. I. Título.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Múltipla Escolha - Lya Luft

Indignação, possivelmente, é a palavra mais adequada para descrever o ensaio escrito por Lya Luft.
O título, Múltipla Escolha, insinua a condição do ser humano em escolher o seu destino.
O texto é abrangente, instigante e provocativo, contudo, não apresenta sugestões para a maioria das questões sociais referidas. Oferece posicionamentos a respeito das relações, tendo como pano de fundo a hierarquia da pirâmide familiar.
A autora pontua a maioria dos temas que angustia a sociedade brasileira, com ênfase na ausência do exercício da autoridade familiar, e questiona ações equivocadas nos discursos sobre direitos humanos ao colocar a sociedade como responsável pelos desvirtuamentos de valores éticos.
Múltipla Escolha se apresenta como um discurso de desabafo diante do descontentamento por ausência da ética nas relações, necessária à formação de valores, que contribuem para o encontro com a esperada e remota justiça social.
Os temas abordados pela autora são cotidianos e conhecidos, porém, muitos dos valores distorcidos já se encontram arraigados nos comportamentos sociais e, muitas das vezes, impercebíveis como distorção.
Lya Luft cita: “É estranho pensar que tudo tem sua importância: o modo como levo o copo d’água, o jeito com olho o meu filho, dirijo meu carro, escrevo meu texto, prendo o botão da camisa com o cheiro da pessoa amada, cavo minha cova ou como uma fruta. Tudo modifica o mundo, tudo depende (em parte) de mim.”
Filosofa quando cita: “E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa em qualquer idade, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada, a alegria de viver, e o prazer das coisas.”
Diz mais: “enquanto o corpo encolhe a mente e o coração podem continuar expandindo.”

O texto merece ser visto como um retrato social que concentra atitudes que ultrapassam direitos e deveres, entretanto, sabe-se que muitos dos que se dedicaram à procura do mundo perfeito terminaram se decepcionando com o resultado. A humanidade é mutável e os valores variam de sociedade para sociedade. É só ver as notícias divulgadas de outras civilizações para entender que o feio, ruim e extravagante para um povo pode ser belo, bom e normal para outros.

Informações sobre a autora - Lya Luft começou a carreira em 1980, aos 41 anos,com a publicação do romance As parceiras, seguido por A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1994), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996), Secreta mirada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro ( 2002), Perdas & Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004), Histórias de Bruxa Boa (2004), além de outros títulos. Formada em letras anglo-germânicas e com mestrado em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya professora de linguística de 1970 a 1980. Atuou como tradutora de várias obras de autores consagrados, como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing.

Referência bibliográfica
Luft, Lya
Múltipla escolha / Lya Luft. - Rio de Janeiro: Record, 2010.
189p.
ISBN 978-85-01-08952-6
1. Luft, Lya, 1938-. 2. Ensaio. I. Título.

sábado, 21 de agosto de 2010

A Peste – Albert Camus

Albert Camus escolhe a cidade de Oran, confinada entre o mar e as portas cerradas, para simbolizar a ocupação nazista na França. A doença disseminada pelos ratos que saiam dos esgotos, dos porões e das fábricas invade a cidade, contamina a população e obriga os seus dirigentes a aguardarem, pacientemente, o fim do processo dominador. Uma espécie de atitude de inferioridade que o ser humano assume quando se depara com determinadas situações. A cidade que serve de palco para a história é finita apesar do horizonte marítimo. Os seus limites físicos servem para simbolizar a impotência em relação ao poderio armamentista da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

A peste bubônica ataca a cidade e mata, diariamente, um número razoável de concidadãos, como se refere o autor, tempo em que os vivos, sem saber quando serão escolhidos pela peste, aguardam pacientemente e ordeiramente o destino, restando-lhes, apenas, a prática da solidariedade.
O relato simbólico da peste foca as relações pessoais, a amizade não declarada, a prática do bem, o questionamento de valores religiosos, a família, o sofrimento taciturno e introvertido, a separação amorosa, e os privilégios das classes sociais mais poderosas.
A peste atacou bons e maus, adultos e crianças, religiosos e ateus. Não se sabia o antídoto da defesa, por isso, submeteram-se a imposição. O remédio veio com o tempo. O soro da liberdade foi anunciado com veemência e recebido pela população com alegria e festejo. A fraternidade foi exercitada durante todo processo simbólico, contudo, a desigualdade se apresentou na forma de acesso aos gêneros alimentícios, nas quarentenas e, ao que parece, apesar do sofrimento não remeteu a mudanças significativas.

A Peste é um livro fantástico. Mostra a mudança de valores quando o ser humano é submetido a situações de impotência. O que parece importante deixa de ser e o coletivo passa a tomar corpo em detrimento do individual. Os pecadores podem ser aceitos e os santos renegados. A Peste conduz o leitor a experimentar situações que lembra fatos políticos ocorridos no mundo, não só, na simbologia da Segunda Guerra Mundial, mas, também, nos Estados autoritários experimentados na Europa, na Ásia, e nas Américas.

A analogia entre a impotência humana sob a epidemia e a exclusão da liberdade é a trama escolhida para despertar as agruras da humanidade. O autor exige uma moral simultânea de conhecimento da necessidade e o exercício de poder: "Na realidade, um homem deve lutar pelas vítimas. Mas, se deixa de gostar de todo o resto, de que serve lutar?"

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
A peste / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek Chaves. - 18ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
218p.
Tradução de: La peste
ISBN 987-85-01-01487-0
Romance francês. I. Chaves, Valerie Rumjanek.II.Título

domingo, 25 de julho de 2010

O Rei da Noite – João Ubaldo Ribeiro

O livro de crônicas do baiano João Ubaldo Ribeiro aborda temas do cotidiano que interferem nas relações, no comportamento e na psique. Tudo é dito de forma hilária, contudo, o que nos parece muito divertido concentra relatos de atitudes e sentimentos que interferem no dia-a-dia das pessoas, e, certamente, marcaram a vida do autor.

Ele descreve sobre os equívocos cometidos por pessoas que não sabem se comportar em reuniões sociais; o sofrimento de fumantes dispostos a largarem o vício; os traumas de infância provocados pelas famílias; os conflitos psicológicos levados pelo conforto da ociosidade e a necessidade da atividade física; o padrão de beleza nacional em relação às mulheres de cinturas fina e bundas grande; a banalidade das cirurgias plásticas; as experiências no uso da alimentação macrobiótica; as minorias da sociedade; a evolução tecnológica, apreciada desde a infância, e a difícil adaptação no momento atual; a ignorância em relação à prevenção de doenças, especialmente a Aids; a exploração sexual por estrangeiros; as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, quando o assunto é sexo; as surpresas em relação aos mitos; a mudança comportamental nos relacionamentos conjugais e o uso da família como suporte; o medo da família em relação à droga; a pressão feminina nas relações familiares; o retrato cultural em relação aos mentirosos, cujo termo regional ele se refere a colhudeiros; as relações de empregos, especialmente os temporários e  extravagantes;  o sofrimento dos escritores ao aguardarem as tiragem das primeiras edições dos livros; as campanhas para prevenção à saúde e seus interesses econômicos; e, além de outros temas, a preocupação da sociedade em relação à segurança pública e a sua incapacidade na gestão dos processos, através de ações individualizadas.

O livro é um deleite, o leitor se diverte do início ao fim do texto. Sua forma não inibe a percepção sobre os temas, ao contrário, ressalta e estimula o debate e remete a lembranças de fatos do cotidiano.

O título O Rei da Noite é, também, a crônica de abertura e se torna o convite, irrecusável, para a leitura das demais.

Informações sobre o autor – Baiano da Ilha de Itaparica começou a escrever cedo, aos vinte e um anos, publicou Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro, A casa dos budas ditosos, Diário do farol, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu o prêmio Camões, atribuído aos maiores escritores da língua portuguesa.

Referência bibliográfica
Ribeiro, João Ubaldo
O rei da noite / João Ubaldo Ribeiro. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
197p.
ISBN 978-85-7302-929-1
1. Crônica brasileira. I.Título.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Criação Imperfeita – Marcelo Gleiser

A descrição sobre a origem do Universo, feita pelo físico Marcelo Gleiser, conduz o leitor a acreditar que se a Natureza fosse perfeita não estaríamos aqui.
A maioria dos cientistas procura por uma explicação da origem do Universo baseada nas simetrias, contudo, Gleiser esclarece que se não fosse as assimetrias, provavelmente, a vida não existiria. Pode-se concluir que as mutações ocorridas na Natureza são responsáveis pela evolução da vida até chegar ao nível da consciência humana. A nossa existência se deve às imperfeições no processo de reprodução genética.

Sobre os humanos o autor esclarece que pouco importa se somos ou não os únicos seres conscientes no Cosmo, já que as distâncias no Universo impossibilitam qualquer tentativa de contato.

A procura por uma “Teoria Final”, perfeita, que esclareça a criação do Universo, pesquisada com obstinação pelos cientistas, provavelmente, nunca será elucidada.  Vivemos em um Universo imperfeito, bem diferente das nossas expectativas de simetria e beleza. Aliás, a assimetria, diferente do que muitos imaginam, em muitas situações, é quem traz a encanto.

Gleiser prepara os leitores menos familiarizados com as leis da física, esclarece as teorias e descobertas feitas pela ciência, nos leva a entender o processo da criação com o uso de uma linguagem clara e sem agressão às crenças religiosas. Consegue esvaziar nossa expectativa a respeito da necessidade de busca por um sentido do homem na Terra. Para ele somos obra do acaso e estamos aqui por um processo evolutivo.

Marcelo Gleiser diz que a nossa visão de mundo é determinada pelo que podemos ver e medir e que a Fé brota da nossa dificuldade de lidar com o imprevisto, o que foge ao nosso controle ou não somos capazes de compreender. Somos únicos e especiais, não porque fomos criados por Deus, ou por sermos resultado de uma intensionalidade cósmica, mas, porque estamos vivos e temos consciência da nossa existência.

O livro é contemporâneo e remete o leitor à reflexão de conceitos familiares e religiosos que oferecem conforto psicológico. Apesar de o tema ser complexo a linguagem é simples, direta e a forma estimula a leitura. Ao encerrar a última página, ninguém sai como entrou... 

Informações sobre o autor – Marcelo Gleiser é professor de Filosofia Natural e de Física e Astronomia no Dertmouth College, onde dirige um grupo de pesquisa em física teórica. É autor de “A dança do universo” e “O fim da terra e do céu”, ambos vencedores do Prêmio Jabuti.
 
Referência bibliográfica
Gleiser, Marelo, 1959
Criação imperfeita / Marcelo Gleiser. 3ª edição - Rio de Janeiro: Record, 2010.
366p.
ISBN 978-85-01-08997-7
1. Criação. 2. Religião. 3. Matéria – Constituição. 4. Deus. I. Título.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mãe e o sentido da vida – Irvin D. Yalom

O autor narra seis situações de psicoterapias voltadas para questões de pacientes com dificuldades de relacionamentos, medo da morte e sentimentos de perdas.
O texto entrelaça histórias e envolvimento do psiquiatra além das revelações autobiográficas a respeito das dificuldades, na infância, que interferiram na relação com a sua mãe.
As simbologias reveladas nos sonhos são usadas para indagações e busca de sentido dos sofrimentos na tentativa de encaminhar mudança comportamental que possam minimizar a angustia dos pacientes.

Ao escrever Quando Nietzsche chorou, Irvin criou um embate entre o doutor Josef Breuer e o filósofo Friedrich Nietzsche, agora, no texto em questão, o autor relata um embate contundente entre ele, o psiquiatra, e uma paciente, médica, que resolveu competir e interagir no tratamento de forma pouco comum, chegando a liderar grupos de debates de pessoas com câncer. Paula, a paciente, questiona o psiquiatra, e o acusa de traidor por não entender o seu afastamento.

Na primeira reunião com um dos grupos a paciente surpreendeu o psiquiatra com a leitura de uma parábola:  “ Um rabino teve uma conversa com o Senhor sobre o paraíso e o inferno. Vou mostrar-lhe o inferno, disse o Senhor, e levou o rabino para um aposento em que havia uma grande mesa redonda. As pessoas sentadas em volta dela estavam famintas e desesperadas. No centro da mesa havia uma enorme panela de cozido, com um cheiro tão delicioso que a boca do rabino se encheu de água. Cada pessoa em torno da mesa segurava uma colher com um cabo longuíssimo. Mas, apesar de as colheres alcançarem a panela, seus cabos eram mais compridos que os braços dos candidatos a comensais: assim, incapazes de levar o alimento à boca, nenhum deles conseguia comer. O rabino viu que seu sofrimento era realmente terrível.
“Agora, vou mostrar-lhe o paraíso”, disse o Senhor, e foram para outro aposento, exatamente igual ao primeiro. Lá estavam a mesma grande mesa redonda, a mesma panela de cozido. As pessoas, tal como antes, estavam munidas das mesmas colheres de cabo longuíssimo – mas lá, todas eram bem nutridas e cheinhas, riam e conversavam. O rabino não conseguiu entender. “è simples, mas exige uma certa habilidade”, disse o Senhor. “Nesta sala, como você vê, eles aprenderam a alimentar uns aos outros.”

O texto é recheado de informações técnicas, contudo pode ser compreendido pelo leitor pouco familiarizado com o estudo da psicanálise. A sua forma possibilita analise de quanto os sentimentos interferem na vida  quando os motivos não são identificados.

Informações sobre o autor – Irvin D. Yalom é um escritor americano, filho de imigrantes russos. Formou-se em psiquiatria na Universidade de Stanford. O seu primeiro romance foi “Quando Nietzsche Chorou”. Escreveu também “A Cura de Schopenhauer”, “Mentiras no divã”, “De Frente para o Sol” e “Os desafios da terapia”. 

Referência bibliográfica
Yalom, Irvin, 1931
Mãe e o sentido da vida: histórias de psicoterapia / Irvin D. Yalom; tradução de Lucia Ribeiro da Silva. -Rio de Janeiro: Agir, 2008.
246p.
Tradução de: Momma and the Meaning of Life
ISBN 978-85-220-0921-3
1. Psicoterapia – Estudo de casos – Ficção. I. Silva, Lucia Ribeiro da II.Título

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Cidade das Feras - Isabel Allende

O filho de um médico e de uma dona de casa, com câncer, precisou se separar da família, aos quinze anos, devido à necessidade de tratamento da mãe. Foi encaminhado para Nova York ao encontro da avó paterna Kate Cold. Lá chegando, com pouco dinheiro no bolso e sem saber se locomover na cidade, foi surpreendido com a ausência da avó no aeroporto e teve de se submeter aos préstimos de uma garota que tinha o intento de roubá-lo.
Alexander Cold, sem dinheiro, teve que se revolver pedindo informações até chegar à casa da avó.
A recepção não foi das melhores. A escritora, aventureira, que presta serviços para a Internathional Geographic não fez gracinhas para o neto. Assim que o recepcionou em seu exótico apartamento o preveniu sobre as aventuras que os esperavam: viajariam para a Floresta Amazônica em uma expedição que tinha o objetivo registrar a existência de uma fera que estava aterrorizando aos que visitavam a região.

Na Amazônia, o protagonista conhece Nadia, filha do guia local, que se torna sua companheira na aventura.
Os ensinamentos em relação aos enigmas da natureza amazônica foram absorvidos por Alex durante a convivência com Nadia e ao perceber a diferença entre as suas experiências e convicção aderiu aos conceitos naturalistas e tornou-se defensor de uma tribo indígena conhecida como Povo da Neblina.
A tribo acreditava que a sua permanência e preservação dependia da existência da fera, portanto, procurava manter distantes os interessados nas riquezas da região, conhecida como Olho do Mundo, numa demonstração de interatividade da natureza.
A expedição tornou-se uma aventura digna de emoção, desconfiança e surpresas.
Há momentos que os participantes, com objetivos divergentes, não conseguem identificar, entre si, os aliados, devido às atitudes suspeitas. O que parecia lógico tornou-se surpreendente e os desaparecimentos de Nadia e Alex, seqüestrados pelo Povo da Neblina deixou, ainda mais, sem rumo os membros da expedição.

A aventura é contada em linguagem acessível, mesclada com simbologia e crenças religiosas comuns na Floresta Amazônica, rodeada de visões e aparições de Xamã além de incorporações de “personalidade” animalesca. Alex o protagonista da história foi respeitado como um jaguar e Nadia se sentiu a rainha do céu;  disse: “Ela era Águia, a ave de vôo mais alto, a rainha do céu, aquela que faz seu ninho onde só os anjos conseguem chegar”.

O livro mostra a que ponto a ambição leva o homem na conquista dos objetivos econômicos e políticos, o envolvimento de estruturas e autoridades nos processos e chama a atenção para o desconhecimento em relação às etnias, cuja percepção só ocorre com a aproximação e convivência.

Informações sobre a autora - Isabel Allende tem nacionalidade chilena, é filha de diplomata e sobrinha do presidente chileno Salvador Allende. Após o golpe militar no Chile e a morte de Salvador Allende, em 1973, o clima de terror obrigou-a a abandonar o país e refugiar-se na Venezuela. Em Caracas, trabalhou como repórter e professora de idiomas. Escreveu histórias infantis, além de peças teatrais. Depois de se divorciar do primeiro marido, Miguel Frías, Isabel Allende mudou-se para a Califórnia (EUA), onde, em 1988, se casou com o americano Willie Gordon. Escreveu "A Casa dos Espíritos" (1982), "De amor e de sombra" (1984), "Eva Luna" (1985), "Histórias de Eva Luna" (1989), "Paula" (1991), "Plano infinito" (1993), "Afrodite" (1994) e "Filhas da fortuna" (1999).

Referência bibliográfica
Allende, Isabel, 1942
A cidade das feras / Isabel Allende; tradução de Mario Pontes: - 4ª Ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
280p.
Tradução de: La ciudad de las bestias
ISBN 85-286-0977-4
Romance chileno. I. Pontes, Mario, 1932-.II. Título

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Matusalém: Veredas do Destino – Itaberaba Sulz Lyra

O livro conta a história de um imigrante romeno que inicia uma caminhada pelo Brasil à procura de uma jovem.
Hospedou-se em um hotel, de segunda categoria, sob gestão da polonesa Kristina que tinha envolvimento com o policial Antenógenes Lima, conhecido como “Boca de Ouro”, em troca da garantia de segurança do negócio.
Kristina interessou-se pelo romeno e começou a tratá-lo diferente dos demais hóspedes.
Certo dia, por falar francês, foi convidado a se encontrar, em um bar, com um marinheiro francês. Daí em diante a aventura assume uma forma policial. “Boca de Ouro” foi agredido pelo marinheiro francês, Jean Marcel, e no tumulto outros personagens que não eram do agrado do policial, passaram, também, a ser suspeitos do crime, inclusive o imigrante romeno.
Para não ser preso o romeno fugiu juntamente com o marinheiro, causando surpresa a Kristina que se encontrava gestante do imigrante. 
Trabalharam em um curtume e ao receber uma proposta de promoção, que condicionava a mudança de domicílio, resolveu largar tudo para não ser reconhecido já que tinha mudado a sua identidade de Ivã Antonesco Utov para Matusalém.
Ao abandonar o emprego e seguir viagem no lombo de um animal, deparou-se com um olheiro do bando de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Foi levado ao encontro do mesmo, caiu no agrado do cangaceiro que o presenteou com um punhal de sua coleção e o autorizou seguir a viagem em busca de novas fronteiras. Encontra Madailene, a mulher que motivou a aventura, e se depara com uma grande surpresa.

O livro é recheado de opiniões políticas e sociais. A história da aventura do apaixonado Ivã que migrou para o Brasil atrás da sua amada é cativante. O leitor percebe as sutilezas que envolvem as questões de uma sociedade pluralista que, em muitas oportunidades, procura esconder sua origem.
A linguagem é clara e a forma direta e objetiva. 
 
Informações sobre o autor – Itaberaba Sulz Lyra nasceu na cidade de Nova Viçosa, Bahia, se formou em administração de empresas pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou no sistema financeiro e exerceu o mandato de vereador na cidade de Salvador, além de outros cargos públicos.

Referência bibliográfica
Lyra, Itaberaba Sulz.
Matusalém: veredas do destino / Itaberaba Sulz Lyra. – Salvador: Helvécia, 2001.
240p. ; 21 cm
ISBN 85-87826-06-9

1.Literatura brasileira. I. Título.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Estrangeiro – Albert Camus

Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, que objetiva evidenciar conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.
A frieza e a ausência de emoção do protagonista Meursault, levadas pelo comportamento racional, põe em questão atitudes que o ser humano se dá como responsável por seus atos.

O texto encaminha o leitor para a análise do personagem em vez da trama. O que está em questão são as emoções ou a falta delas vividas pelo personagem disposto a decidir o caminho da vida e satisfeito com o resultado lógico do seu futuro.
A lógica é tamanha que em determinados momentos o leitor tende a desejar que o fim da trama seja outro, imaginando falta de percepção do protagonista em relação aos riscos que corre, contudo, este não é o objetivo do autor. Descobre, por fim, que tudo que foi praticado não passa de uma opção racional pela falta de interesse da existência de outras pessoas e da precariedade da morte de forma definida como inevitável.

No banco dos réus Meursault volta a surpreender. Não demonstra arrependimento dos atos praticados, se sente libertado e aceita a morte como processo natural da vida independente da forma.
A racionalidade chega ao ponto do protagonista concluir que deve colaborar para que a guilhotina não falhe, para não se ter que recomeçar o processo. 

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
O estrangeiro / Albert Camus;tradução de Valerie Rumjanek.- 30ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
126p.
Tradução de: L´étranger
ISBN 987-85-01-01486-3
Romance francês. I. Rumjanek,Valerie.II.Título

sábado, 29 de maio de 2010

Cartas filosóficas – François-Marie Arouet (Voltaire)

Voltaire utiliza temas como religião, teatro, medicina, política e ciência para demonstrar a inter-relação entre a linguagem e o procedimento. A abordagem, crítica, aguça a reflexão do leitor. Faz um comparativo entre o comportamento dos ingleses e franceses, assinala as diferenças entre os dois povos e ressalta o quanto a conduta interfere na vida, no bem-estar e no futuro das nações.

Os diálogos, referidos em suas cartas, incitam debates sobre temas que muitas vezes passam despercebidos, a exemplo da conversa com adeptos da seita quacres (tremedores), ao se referir à ausência de padres em seus templos: “Por que entregaríamos nossos filhos a amas mercenárias, quando temos leite para lhe dar?”

Sobre vacinas, cujo processo era bem diferente do atual, o autor cita: “Dizem a meia voz na Europa cristã que os ingleses são loucos e temerários: loucos porque dão a varíola a seus filhos para impedi-los de tê-la; temerários, porque transmitem de coração leve a essas crianças uma doença certa e terrível, visando prevenir um mal incerto.”

Ao escrever sobre os acadêmicos, Voltaire diz: “A necessidade de falar, o inconveniente de não ter nada a dizer e a vontade de ter espírito são três coisas capazes de tornar ridículo mesmo o maior homem.”

As Cartas Filosóficas formam uma espécie de síntese do moderno liberalismo, antevendo conceitos, atualmente aceitos, focados em personagens, responsáveis por idéias que provocaram mudanças sociais. Shakespeare, Newton, Locke, e Swift, são citados como alguns dos causadores das variações históricos.  Voltaire abre uma perspectiva crítica, a partir da qual o leitor se deleita, de forma descomprometida, e tem à sua frente o mundo com o retrato aos seus questionamentos.

Informações sobre o autor - François-Marie Arouet (Voltaire) nasceu na França em 1694 e ficou conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. Filósofo iluminista é conhecido pela acuidade na defesa das liberdades civis e religiosas. Escreveu nas mais várias formas literárias. Sua obra influenciou importantes decisões políticas a exemplo da Revolução Francesa. 

Referência bibliográfica
Voltaire, 1694-1778
Cartas filosóficas / Voltaire; tradução de Márcia Valéria Martinez Aguiar; revisão da tradução Andréa Stahel M.da Silva.- São Paulo: Martins Fontes, 2007, (Voltaire vive)
176p.
Título original: Lettres philosophiques
ISBN 978-85-336-2349-1
1. Filosofia francesa 2. Voltaire, 1694-1778 I.Título II. Série.

R

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Caim – José Saramago

Caim, a história de ficção escrita por Saramago, tem o propósito de instigar o leitor sobre um tema polêmico e de difícil conclusão.
O leitor deve considerar a capacidade narrativa e a criatividade do autor ao desenvolver uma história baseada no Velho Testamento, que coloca o primeiro criminoso da história divina como protagonista e questionador dos desígnios de Deus.
O filho primogênito de Adão e Eva, Caim, matou o irmão Abel por ciúme e tornou-se um andarilho a testemunhar acontecimentos, relatados como castigos do Criador.
Sodoma e Gomorra, Torre de Babel, Arca de Noé, e o testemunho de fé de Abraão ao levar o filho Isaac para o sacrifício, são alguns das indagações colocados por Saramago.
Destruir Sodoma e Gomorra sem poupar as crianças e os justos; impedir a construção da Torre de Babel sabendo que de nada adiantaria construí-la; e encomendar a Noé uma Arca para boiar no dilúvio e repovoar o mundo são histórias do Velho Testamento, narradas pelo autor de forma inusitada.

Não bastassem os questionamentos bíblicos, Saramago dá uma pincelada nas relações pessoais. Cita: “Por baixo das palavras que dizes percebo que há outras que calas.”
Cita, ainda: “Diz-se então que o asno é teimoso como um burro quando afinal do que se trata é de um problema de comunicação, como muitas vezes sucede entre os humanos.”

O autor resume parte dos questionamentos em um diálogo entre Caim e Lilith: “Ninguém vai acreditar em ti, Não penso dizer isto a mais ninguém, o teu mal é que não trazes contigo nenhuma prova, um objeto qualquer deste outro presente. Não foi um presente, mas vários, Dá-me um exemplo. Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu e que o senhor com um sopro deitou abaixo, logo a de uma cidade em que os homens preferiam ir para a cama com outros homens e o castigo de fogo e enxofre que o senhor tinha feito cair sobre eles sem poupar as crianças, que ainda não sabiam o que iam querer no futuro, a seguir o ajuntamento de gente no pé de um monte a que chamavam sinai e a fabricação de um bezerro que adoraram e por isso morreram muitos, (...)”

Enfim, os leitores de Saramago já estão acostumados à forma da escrita, sem a importância dada à construção das frases, como é percebido no texto acima, porém, o que importa é a questão. Apesar de se saber que, em muitas ocasiões, temas banais se tornam importantes devido à forma como são apresentados, Saramago se destaca pelo assunto.

Compartilhar ou não com Saramago sobre a existência de Deus, não impede a leitura da obra. A fé é reservada e particular, sua intensidade muda de acordo a necessidade do indivíduo.
Temas polêmicos a exemplo da criação do universo e da existência humana devem perpassar por avaliação interior e individual, sem tentativas de persuasão a quem quer que seja. Neste sentido, o texto não impõe desvio de conduta, contudo, induz o leitor a refletir sobre a forma de comunicação usada pelas religiões.

Informações sobre o autor José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores, foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. 

Referência bibliográfica
Saramago, José
Caim: romance / José Saramago. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
172p.
ISBN 978-85-359-1539-6
1. Romance português. I.Título.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Albatroz Azul – João Ubaldo Ribeiro

Belinha, a única filha de Tertuliano em idade frutífera, casada com Saturnino Bororó, estava grávida e esperava que fosse mais uma mulher a somar às muitas já paridas. Ocorre que, Tertuliano tinha certeza, que desta vez, na barriga da filha crescia um menino.
Pesquisou o nome mais apropriado para o neto, mesmo antes de nascer, e concluiu que ele se chamaria Raymundo Penaforte. Guardou para si os preparativos e ficou aguardando chegar o dia que a parteira Altina Pequena seria chamada para ajudar no parto de Penaforte.

Durante o trabalho de parto, Altina mandou convocar Tertuliano, logo ele confirmou a aparição da lua cheia no céu. Ao chegar à casa de Belinha, Altina lhe informou que o menino estava nascendo de bunda e Tertuliano refletiu de imediato, sobre os sinais que havia recebido durante a gestação de Penaforte. Assim que o menino foi habilmente manipulado pelas mãos da parteira, lhe foi entregue para completar o ritual: “Depois de puxá-lo sem esforço, como se não tivesse havido nenhuma dificuldade antes, Altina passou o menino ainda gosmento a seu avô, que o levou com o traseirinho na direção da lua e assim o manteve em quanto rezava um padre-nosso e uma ave-maria...”.
Ou seja, o menino tinha nascido com o “cu para a lua”, e os que assim nascem sempre têm um destino promissor.

Nestor Gato Preto, velho amigo de Tertuliano, conhecedor de muitas seitas e religiões, o convidou para um passeio e revelou que o garoto era detentor de duas vidas.
Daí em diante restava preparar o futuro da criança. Primeiro, foi a escolha de Zé Honório e dona Roxa Flor como padrinhos. Casal com patrimônio e experiência suficiente para, na eventualidade, cuidar do futuro de Raymundo Penaforte.

Após o nascimento do neto e a revelação sobre suas duas vidas, Tertuliano, firmou idéia que uma das vidas, do neto, seria vivida por ele, após sua morte. Aliás, nada e ninguém conseguiram desvencilhar Tertuliano, da idéia, que ele estava caminhando, rapidamente, para a morte.

O conceito sobre a proximidade da morte levou o velho Tertuliano Jaburu a refletir sobre a história da sua vida.
O pai de Tertuliano, Juvenal Peixoto do Amaral Botelho Gomes era filho de Nuno Miguel Botelho Gomes, e foi criado por Antônia Vicência, a Cencinha, que tinha como filhas Albina e Catarina. Durante a convivência, Juvenal, pai de Tertuliano, dormia com as duas moças, e terminou por engravidá-las.

A possibilidade de Nuno voltar a se casar em Portugal deixou Cencinha agitada. Afinal, a esperada herança do português seria dirigida a sua nova e jovem esposa. Não deixou por menos, chamou o afilhado, namorado das filhas, e determinou que tomasse as providências. Juvenal visitou o mais conhecido e eficaz mestre da feitiçaria e “encomendou” o impedimento da realização do casamento de Nuno.
Tudo não passava de uma decepção, já que os trabalhos não haviam surtido o efeito desejado. Nuno Miguel havia se casado e a sua mulher estava grávida. A notícia chegou a Itaparica como uma ducha de água fria. O prestígio do mestre feiticeiro caiu por terra, até que, certo dia um mensageiro chegou informando que a nova mulher de Nuno havia morrido, com o filho na barriga.

Cencinha se apressou em formalizar o casamento de Juvenal com uma das suas filhas, antes da viagem dele para Portugal, que tinha a finalidade de assumir a herança. Nuno poderia exigir que Juvenal se casasse com uma portuguesa, caso ele chegasse solteiro em Portugal, e Cencinha, preocupada com esta possibilidade, resolveu que Juvenal se casaria com Catarina, sua filha mais querida, contudo, havia um problema a ser resolvido: Tertuliano era filho de Albina, mas, Cecinha e Juvenal concordaram com a idéia de que um filho homem agradaria a Nuno Miguel. Como Catarina tinha uma filha, Juvenal decidiu comunicar a Tertuliano Jaburu, avô de Raymundo Penaforte, que daquele dia em diante, ele, Tertuliano, não mais seria filho de Alba e sim de Catarina.

Tertuliano Jaburu, apesar de uma vida bem vivida e aceitar a morte com naturalidade, não se desvencilhava dos conflitos existenciais, entre os quais, estava o fato de ter mudado de mãe. Na cadeira de balanço, refletia sobre a vida e a morte até que apareceu o marujo holandês Hendrick Beekman, morto durante a expulsão dos holandeses da Bahia, e lhe revelou um segredo.
Assim surge o Albatroz Azul, livre, majestoso, solto no céu...

O leitor embarca no clima e na linguagem regional da Ilha de Itaparica, na Bahia, e se delicia com um texto folclórico, comprometido com histórias hilárias de crendices, que aqueles que por lá passaram, percebem na atmosfera a maresia carregada de hábitos, crenças, manipulações e convicções de um povo habituado a forma simples de ser. 

Informações sobre o autor – Baiano da Ilha de Itaparica começou a escrever cedo, aos vinte e um anos, publicou Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro, A casa dos budas ditosos, Diário do farol, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu o prêmio Camões, atribuído aos maiores escritores da língua portuguesa. 

Referência bibliográfica
Ribeiro, João Ubaldo
O albatroz azul / João Ubaldo Ribeiro. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
236p.
ISBN 978-85-209-2386-3
1. Romance brasileiro. I.Título.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O menino de pijama listrado – John Bonye

A história de ficção é baseada nos horrores do Holocausto, contada por um garoto alemão, cujo pai, foi designado por Hitler, para comandar o campo de concentração de Auschwitz.

Bruno, o protagonista da história, tinha nove anos quando foi obrigado a abandonar, em Berlin, os amigos Karl, Daniel, e Martin, além da avó Nathali e o avô Matthias, e, acompanhar o pai, que havia sido designado para comandar o campo de concentração de Auschwitz, que o autor apelidou de Haja-Vista.

Desde que Bruno chegou a Haja-Vista, detestou a casa e o lugar, não só pelo que tinha deixado para traz, mas, também por ser um lugar sem vida, sem amigos e sem escola. Não bastassem estas condições, a única pessoa que se aproximava de sua idade era a sua irmã Gretel, porém, os dois, competiam entre si em todas as situações.
O fato do escritório de Ralf, pai de Bruno, ser na própria residência, fazia com que o entra e sai de soldados na casa se tronasse constante. Esta situação despertava a curiosidade do garoto, até porque não lhe era permitido adentrar ao escritório, tampouco acompanhar os diálogos lá ocorridos. Não bastasse o impedimento, nas reuniões sociais, tanto ele como a irmã Gretel, recebiam a recomendação para se recolherem aos seus quartos.

O habito de ler histórias de aventuras, despertou, em Bruno, o interesse por descobertas de lugares e coisas desconhecidas. Na casa em Berlin ele tinha muitos lugares para explorá-la, contudo, em Haja-Vista, após ter descoberto, através da janela do seu quarto, pessoas, além da cerca, usando o que ele chamou de pijama listrada, resolveu contornar a cerca do campo de concentração, sem saber exatamente o que se tratava, e terminou fazendo contato com Shumel, um garoto judeu que tinha a sua idade e nascido no mesmo dia que ele.
Após a conversa com Shumel, o qual se tornou seu melhor e único amigo em Haja-Vista, as visitas se tornaram diárias, oportunidade que Bruno lhe brindava com merendas levadas nos bolsos da calça.
Os diálogos entre Shumel e Bruno eram recheados de cordialidades, apesar de eventualmente, haver citações sobre a grandiosidade do povo alemão em detrimento aos judeus. Situação, contornada habilmente pelo garoto judeu, já que tinha, em Bruno, a alternativa de reforçar a fraca dieta do campo de concentração. Para Bruno, o interesse era dialogar com alguém disposto a ouvi-lo, já que em sua família, poucos estavam atentos à sua necessidade, a não ser Maria, a empregada, e Pavel, o médico idoso, encarregado de descascar verduras.

É sabido que na Alemanha, na época da grande guerra, formam cometidas muitas atrocidades contra judeus, contudo, o povo não se rebelava contra a prática dos crimes, não se sabe se por temor aos castigos do exército que servia a Hitler, ou por conforto do discurso equivocado de ser um povo de casta superior aos demais humanos.
Bruno se contradizia: em algumas situações ele se colocava como defensor dos oprimidos, em outras, se incluía entre os que se julgavam superiores. Ao que parece, o protagonista adsorveu diálogos de desaprovação de atitudes entre sua avó e seu pai, que influenciaram no conflito dos conceitos.
Certa vez, em uma reunião familiar, Nathali, avó de Bruno, disse ao filho, ao vê-lo com um uniforme novo, após a sua promoção: “Eu me pergunto – será que foi nisso que eu errei com você Ralf. Imagino se todas aquelas performances que eu exigir de você o levaram a isso. Fantasiar-se de fantoche. Você fica aí no seu uniforme como se isso o tornasse alguém especial. Nem se importa com o seu verdadeiro significado. O que ele representa.”

Ao ser informado, pelo pai, que voltaria para Berlin, juntamente com a sua irmã e sua mãe, Bruno, que já havia se adaptado a Haja-Vista, decidiu de comum acordo com o amigo Shumel, entrar no campo de concentração e ajudá-lo a localizar o pai, do garoto judeu, que havia sumido. Esta foi uma aventura idealizada por Bruno, devido às leituras habituais sobre explorações, relatadas nos livros que gostava de ler.
O fato trouxe uma grande e tenebrosa surpresa, que para entendê-la, o leitor precisará conhecer um pouco das práticas no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

O texto é escrito na forma direta e simples, recheado de diálogos ingênuos e comportamentos infantis de adolescentes. Oferece a oportunidade de visão do holocausto a partir de uma criança alemã, componente de uma família, cujo pai, era envolvido nos crimes de guerra. 

Informações sobre o autor - Nasceu na Irlanda em 1971, e é autor de mais sete romances. Os livros do autor foram traduzidos para mais de trinta idiomas.  

Referência bibliográfica
Boyne, John
O menino de pijama listrado: uma fábula / John Boyne; tradução de Augusto Pacheco Calli - São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
186p.
ISBN 978-85-359-1112-1
1. Amizade - Ficção 2. Berlim (Alemanha) - Ficção 3. Ficção irlandesa 4. Jovens - Ficção I.Título.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Relato de um Náufrago – Gabriel García Márquez

Na noite que antecedeu o retorno do destróier Caldas, da frota da marinha colombiana, dos Estados Unidos, onde havia sido reparado, um grupo de marinheiros preparou uma festa de despedida, se encheram de uísque, abraçaram e beijaram as namoradas que estavam deixando para traz, saíram do descanso forçado provocado pela reforma da embarcação e assumiram seus postos de trabalho.

Ao enfrentarem uma tempestade no mar do Caribe, o comando do Caldas determinou que oito tripulantes parassem de curtir a ressaca, em seus aposentos, e subissem para contrabalançar a embarcação, desalinhada pelas fortes ondas. Entre os tripulantes estava o protagonista da história, Luís Alexandre Velasco.

Onda pra lá, onda pra cá, os oito tripulantes foram arremessados ao mar, juntamente com um carregamento, nada comum em uma embarcação de defesa nacional. O destróier carregava contrabando de eletrodomésticos, trazidos dos Estados Unidos com destino à Colômbia, enquanto o país vivia sob a ditadura militar do general Gustavo Rojas Pinilla.

Velasco, o único sobrevivente entre os que caíram no mar, conseguiu agarrar-se a uma balsa e ficar dez dias, a deriva, lutando pela sobrevivência, sem comer, e sem beber.
Enquanto a marinha colombiana anunciava a inexistência de sobreviventes, Velasco, foi levado à Colômbia, pelas correntes marinhas, e, após dez dias de convivências com tubarões, gaivotas, e fantasma de um dos companheiros que não sobreviveu a fúria do mar, arrastou-se até a terra firme, e pediu ajuda de moradores, que o levaram, em comitiva, a caça de cuidados médicos.

Surpresa, com a sobrevivência de Velasco, a marinha não mudou a versão dos fatos, contudo, o transformou em herói nacional. Enquanto isso, o náufrago, ganhava dinheiro com propaganda das marcas do relógio e do sapato que usava, por terem resistido às intempéries.

Esquecido pelo sistema político que o projetou, Velasco, resolveu procurar o jornal El Espectador, e contar a sua versão da história.
Assim, o jovem jornalista, Gabriel García Márquez, ouve o náufrago e publica em quatorze dias consecutivos a verdadeira história. O fato toma novo rumo, e apesar das tentativas de ingerência dos militares para impedir a divulgação da narrativa tornou-se de interesse do público.

O texto não tem a forma característica de outras obras de Gabriel García Márquez. Os acostumados a ler o autor, percebe, com facilidade, que não se trata de mais uma obra idealizada por um dos gênios da literatura, mas, o “Relato de um náufrago”, chamado Luís Alexandre Velasco. Aliás, o autor cita: "há livros que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre, e este é um deles". 

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.  

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Retrato de um náufrago / Gabriel García Márquez; tradução Remy Gorga; Ilustrações de Caribé. 35ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
134p.
Tradução de: Relato de un naufrago
ISBN 978-85-01-01120-6
1. Velasco, Luis Alejandro. 2. Sobrevivência (após acidentes aéreos, náufragos etc.). 3. Marinheiros - Colômbia - Biografia. I.Título.

terça-feira, 23 de março de 2010

Leite Derramado – Chico Buarque de Hollanda

Chico, fala da dificuldade do idoso memorizar fatos recentes e concatenar idéias de forma lógica e objetiva. Mistura temas da história política brasileira, com relatos, aparentemente sem nexo, com o intuito de mostrar o valor que tem a qualidade nas relações pessoais, e a influência, que estas produzem, no bem-estar dos indivíduos.

Os conflitos de valores incutidos por preconceitos sociais conflitam com sentimentos vividos pelo protagonista da história. Neste ponto, Matilde, a inesquecível mulata que se tornou mulher de Eulálio Montenegro d'Assumpção, é colocada, em sua vida, com a pecha de tê-lo traído. A inclusão de Matilde na história, com as características raciais descritas, tem como alvo sublimar preconceituosos e enaltecer a forma como são vistas as mulheres, mesmo quando são criadas em ambientes considerados nobres.
No caso específico, o autor deixa subentendido que Matilde pode ter fugido com o francês Dubosc, sem deixar vestígios, abandonando o marido e a filha Maria Eulália.
Apesar de ela ter a pele escura, o autor destaca que os seios são brancos, procurando contradizer, de forma simbólica, a lógica equivocada entre a cor da pele e os valores do indivíduo. Expõe a personagem, quando relata o seu apetite sexual e o desinteresse por assuntos intelectuais, ao ponto de citar sua tímida postura nas reuniões sociais.

Em vários momentos, o autor utiliza-se do protagonista, que tem a memória desfalecente e repetitiva, e relata os encontros entre Eulálio e Matilde, antes do casamento.
Diz o protagonista, que se sentia o responsável por despertar o calor sexual em Matilde, mas, recebia em retribuição o sentimento de se sentir o maior homem do mundo: “Eu descia correndo e lhe abria a porta da cozinha, que Matilde apenas ultrapassava. Encostava-se na parede da cozinha, a respiração curta, e me arregalava os olhos negros. Em silêncio nos olhávamos por cinco, dez minutos, ela com as mãos na altura dos quadris, agarrando, torcendo a própria saia. E corava pouco a pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol. A um palmo de distância dela, eu era o maior homem do mundo, eu era o Sol. Via seus lábios entreabrirem, e acima deles brotavam umas gotículas de suor, enquanto suas pálpebras devagar cediam. Enfim eu me jogava contra o corpo dela, pressionava o corpo dela contra a parede da cozinha, sem contatos de pele, e sem avanços de mãos ou de pernas, por algum acordo jamais expresso. Com meu tronco eu a esmagava, quase, até que ela dizia, eu vou, Eulálio, e seu corpo tremia inteiro, levando o meu a tremer junto.”

No leito de um hospital, o moribundo Eulálio Montenegro d'Assumpção narra a sua história e têm como ouvintes, de forma alternada, a sua filha e uma das enfermeiras do hospital. Nas entrelinhas, fala do desejo de retornar a casa em Copacabana, das dificuldades financeiras, do descaso da sociedade em relação aos idosos, da equivocada forma de se fazer política, da falta de atenção do poder no que se refere à segurança pública, do tráfico de drogas, e da desilusão amorosa.

Aborda, com insistência e de forma repetitiva, a sua paixão pela mulher que nunca conseguiu tirar da memória, apesar da confusão mental que vivenciava ao completar seus cem anos de vida.

O texto tem forma diferenciada, requer disciplina do leitor para adaptar-se à sua característica, caso contrário, poderá parecer repetitivo, contudo, o autor consegue atingir o seu intento: roubar a memória de um idoso que sofre de amor e abandono. 

Informações sobre o autor - Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d´água (1975), e Ópera do Malandro (1979); a novela Fazenda modelo (1974) e os romances Estovo (1991), Benjamim (1995), e Budapeste (2003). 

Referência bibliográfica
Buarque, Chico
Leite derramado / Chico Buarque. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
195p.
ISBN 978-85-359-1411-5
1. Romance brasileiro I.Título.

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