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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Eterno Marido - Fiódor Dostoiévski


O desconfiado, hipocondríaco e lamuriento Vieltchâninov padecia de insônia e, frequentemente, tinha sonhos muito estranhos. Ocupava-se na busca de uma solução para a conclusão de um processo que lhe daria a posse de uma propriedade. Deparou-se algumas vezes com Páviel Pávlovitch Trussótzki e percebeu que havia muita coincidência nos encontros, contudo, não conseguia lembrar-se de onde conhecia o seu seguidor que, estranhamente, portava um crepe no chapéu. Certa feita, Páviel vai à casa de Vieltchâninov e se identifica como viúvo de Natália Vassílievna e o informa da existência de Lisa, filha de Natália.
Tudo teria sido natural se, no passado, não tivesse havido um relacionamento amoroso entre Vieltchâninov e a atraente e dominadora Natália Vassílievna.
Lisa morre, dez dias após conhecer Vieltchâninov, e, só após sua morte, Páviel revela a Vieltchâninov que ela era sua filha. A revelação causou enorme descontentamento não só devido ao fato de não ter convivido com Lisa, mas, também, por perceber que a atitude de Páviel demonstrava vingança por ter sido traído.
Páviel tenta um relacionamento com Nadiejda e pede a Vieltchâninov que o acompanhe à casa da pretendente para formalizar o compromisso. Logo após são surpreendidos com um pedido do jovem Alexander Lobov para “limpar o campo” já que a Nadiejda era sua amada. Páviel se nega a desistir de Nadiejda e ouve do jovem a seguinte frase: “O senhor é como um cachorro sobre um monte de feno; não aproveita e não deixa que os outros aproveitem”.

Dostoiévski insere o amor nas relações pessoais em uma época que os matrimônios eram regidos por interesses familiares e patrimoniais. Fala do desejo sexual sem prudência com a moral, exigida à época.
O titulo do livro, o eterno marido, refere-se à citação usual feita a homens que toleram traição das esposas.  Jorge Amado, possivelmente, o titularia como “o corno manso”.
Enfim, a abordagem deixa a indagação sobre a possibilidade da união entre pessoas capazes de suportar/atrair parceiros que resistem as características típicas deste padrão de relacionamento.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
O eterno marido / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman. 2. São Paulo: Ed. 34, 2003.
116 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-283-4
Tradução de Viétchnii Muj
1. Literatura russa. I. Schnaiderman, Boris. II. Título. III. Série.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Levantado do chão - José Saramago

A saga, de três gerações, da família Mau-Tempo é retratada em paralelo com os acontecimentos políticos ocorridos em Portugal. O sapateiro Domingos e a sua esposa Sara Conceição representam a primeira geração, escolhida pelo autor para caracterizar o sofrimento e a tolerância passiva de uma política social repressora, imposta em benefício dos latifundiários.
A segunda geração, representada por João Mau-Tempo, toma consciência que a transformação política depende de questionamentos que leve à valorização do trabalho. Esta mudança de atitude resultou em afrontamento aos proprietários rurais, que recebiam a complacência da igreja.
A terceira geração, liderada por Manuel Espada, casado com a filha de João Mau-Tempo, agiu de forma contundente contra a aceitação das políticas impostas ao povo. Os opositores ao sistema se depararam com a repressão.

Saramago utiliza-se de um cenário rural, na região do Alentejo, para romanescar a luta dos portugueses em busca de transformações políticas. As influências das guerras, do regime totalitário salazarista e da Revolução dos Cravos são tomadas como referências, não literais, para discorrer sobre os reflexos na vida da população carente.

Refere-se ao desemprego: “E há o desemprego, primeiro os mais moços, depois as mulheres, por fim os homens. Vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável. Não se vêem nestas alturas feitores nem capatazes nem manajeiros, muito menos se veriam patrões, todos fechados em suas casas, ou longe na capital e noutros resguardos. A terra é só crosta seca ou lamaçal, não importa. Cozem-se ervas, vive-se disso, e os olhos ardem, o estômago faz tambor, e vêm as longas, dolorosas diarréias, o abandono do corpo que se desfaz de si próprio, fétido, canga insuportável.  Apetece morrer, e há quem morra.”
Sobre o despertar da mudança, o autor cita: “(...) o tempo verdadeiro dos homens e o que neles é mudança não se rege por vir o sol ou ir a lua, coisas que afinal só fazem parte da paisagem, (...) Às vezes requer-se uma impaciência dos corpos, senão um exaspero, para que as almas enfim se movam (...)
E, sobre os efeitos das ações repressoras: “Não se trata os homem como nós temos sido tratados, depois falaremos, os ares ficaram enturvecidos depois destas prisões, deixa passar o tempo até que tudo se componha, isto é como uma rede de pesca, leva mais tempo a consertar do que a romper, e Manuel Espada rematou assim, Espero o tempo que for preciso.”
 

Em Levantado do Chão, o autor oferece ao leitor um romance político social, com versatilidade ensaística e linguagem característica do meio rural, entremeda por citações filosóficas que permitem vivenciar metaforicamente as agruras dos que, ainda hoje, vivem em situações parecidas às relatadas no texto escrito em 1980.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Azínhaga, Golegã, Portugal e morreu em 2010 na Província de Las Palmas, Canárias, Espanha. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Camões em 1995 e o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Viveu entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. Escreveu Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez, As Intermitências da Motre, A Viagem do Elefante, Caim, Claraboia, dentre outros trabalhos.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922 -2010
Levantado do chão / José Saramago. 15ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
368p.
ISBN 978-85-286-0063-6
1. Romance português. I. Título.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Cidade das Feras - Isabel Allende

O filho de um médico e de uma dona de casa, com câncer, precisou se separar da família, aos quinze anos, devido à necessidade de tratamento da mãe. Foi encaminhado para Nova York ao encontro da avó paterna Kate Cold. Lá chegando, com pouco dinheiro no bolso e sem saber se locomover na cidade, foi surpreendido com a ausência da avó no aeroporto e teve de se submeter aos préstimos de uma garota que tinha o intento de roubá-lo.
Alexander Cold, sem dinheiro, teve que se revolver pedindo informações até chegar à casa da avó.
A recepção não foi das melhores. A escritora, aventureira, que presta serviços para a Internathional Geographic não fez gracinhas para o neto. Assim que o recepcionou em seu exótico apartamento o preveniu sobre as aventuras que os esperavam: viajariam para a Floresta Amazônica em uma expedição que tinha o objetivo registrar a existência de uma fera que estava aterrorizando aos que visitavam a região.

Na Amazônia, o protagonista conhece Nadia, filha do guia local, que se torna sua companheira na aventura.
Os ensinamentos em relação aos enigmas da natureza amazônica foram absorvidos por Alex durante a convivência com Nadia e ao perceber a diferença entre as suas experiências e convicção aderiu aos conceitos naturalistas e tornou-se defensor de uma tribo indígena conhecida como Povo da Neblina.
A tribo acreditava que a sua permanência e preservação dependia da existência da fera, portanto, procurava manter distantes os interessados nas riquezas da região, conhecida como Olho do Mundo, numa demonstração de interatividade da natureza.
A expedição tornou-se uma aventura digna de emoção, desconfiança e surpresas.
Há momentos que os participantes, com objetivos divergentes, não conseguem identificar, entre si, os aliados, devido às atitudes suspeitas. O que parecia lógico tornou-se surpreendente e os desaparecimentos de Nadia e Alex, seqüestrados pelo Povo da Neblina deixou, ainda mais, sem rumo os membros da expedição.

A aventura é contada em linguagem acessível, mesclada com simbologia e crenças religiosas comuns na Floresta Amazônica, rodeada de visões e aparições de Xamã além de incorporações de “personalidade” animalesca. Alex o protagonista da história foi respeitado como um jaguar e Nadia se sentiu a rainha do céu;  disse: “Ela era Águia, a ave de vôo mais alto, a rainha do céu, aquela que faz seu ninho onde só os anjos conseguem chegar”.

O livro mostra a que ponto a ambição leva o homem na conquista dos objetivos econômicos e políticos, o envolvimento de estruturas e autoridades nos processos e chama a atenção para o desconhecimento em relação às etnias, cuja percepção só ocorre com a aproximação e convivência.

Informações sobre a autora - Isabel Allende tem nacionalidade chilena, é filha de diplomata e sobrinha do presidente chileno Salvador Allende. Após o golpe militar no Chile e a morte de Salvador Allende, em 1973, o clima de terror obrigou-a a abandonar o país e refugiar-se na Venezuela. Em Caracas, trabalhou como repórter e professora de idiomas. Escreveu histórias infantis, além de peças teatrais. Depois de se divorciar do primeiro marido, Miguel Frías, Isabel Allende mudou-se para a Califórnia (EUA), onde, em 1988, se casou com o americano Willie Gordon. Escreveu "A Casa dos Espíritos" (1982), "De amor e de sombra" (1984), "Eva Luna" (1985), "Histórias de Eva Luna" (1989), "Paula" (1991), "Plano infinito" (1993), "Afrodite" (1994) e "Filhas da fortuna" (1999).

Referência bibliográfica
Allende, Isabel, 1942
A cidade das feras / Isabel Allende; tradução de Mario Pontes: - 4ª Ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
280p.
Tradução de: La ciudad de las bestias
ISBN 85-286-0977-4
Romance chileno. I. Pontes, Mario, 1932-.II. Título

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A cidade do sol - Khaled Hosseini

O livro A cidade do Sol escrito por Khaled Hosseini também autor do best-seller “O Caçador de Pipas”, relata as histórias de duas mulheres no Afeganistão. Comove o leitor pela alienação religiosa que permeia a história intensificada pelo conturbado período das guerras civis, a invasão soviética, e a ocupação americana.

Duas mulheres amaldiçoadas pela sorte são humilhadas de forma deplorável, jamais imaginada por povos do ocidente.

Mariam, trinta e três anos, filha ilegítima de Jalil, empresário de uma cidade próxima à fronteira com o Irã, se viu obrigada pelas esposas do pai a se casar com o estúpido Rashid, de 45 anos, tradicional comerciante de sapatos, sabendo da obrigação de lhe dar muitos filhos.
O relacionamento tornou-se intolerável quando Rashid passou a desejar um herdeiro e Mariam teve uma série de abortos. Ele a penalizou pela incapacidade de procriar, espancando-a sem piedade.

Laila, a outra mulher da história, aos quatorze anos, filha de um professor que morava próximo à casa de Mariam e Rashid, foi surpreendida quando um foguete disparado durante as guerras civis explodiu sua casa, matando os seus pais.
Grávida do namorado Tariq, também adolescente, que havia mudado de cidade sem se dar conta do ocorrido, resolve aceitar o convite do estúpido Rashid e torna-se a sua segunda esposa.
No início, o conflito entre as duas mulheres foi estimulado por Rashid ao declarar sua preferência por Laila. Ele sabia que Laila estava grávida de Tariq, e ela insinuava que o filho que carregava na barriga era do comerciante de sapatos.
Posteriormente, as duas mulheres se voltam contra o marido devido às atitudes agressivas e resolveram se unir para derrotá-lo e driblar o regime político.

O livro trata de forma emocionante das privações, humilhações, e ofensas e das emoções que culmina com o reencontro de Laila e Tariq.

Por fim, a carta escrita por Jalil à filha Mariam é uma exposição sobre o despreparo do homem ao se deparar com as vicissitudes da vida.

“..., no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer. Viver e ter esperança.”

Informações sobre o autor - Khaled Hosseini é médico nascido em Cabul capital do Afeganistão, com naturalização estadunidense. Sua mãe era professora e o seu pai trabalhou no Ministério do Exterior afegão. Em 1976 mudou-se com a família para Paris por conta do emprego do seu pai. Enquanto estavam em Paris, os comunistas assumiram o poder. Formou-se em medicina na Universidade da Califórnia em San Diego, Estados Unidos.