terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra - Mia Couto

O jovem Mariano, protagonista da história, foi requisitado para coordenar os procedimentos, comuns às famílias moçambicanas, da morte do velho Dito Mariano. Chegando à ilha Luar-do-Chão, tomou conhecimento, de forma inusitada, dos muitos fatos ocorridos na sua ausência e outros que ajudaram a elucidar questões a respeito da sua origem.

A história, aparentemente folclórica, envereda por crenças e valores regionais que precisam ser satisfeitos para alcançar os objetivos traçados pelo personagem central, o velho Dito Mariano.
Ciente da proximidade de sua morte, Dito Mariano, se faz de morto e orienta o jovem através de escritos que lhes são apresentados nas mais variadas situações.
Os procedimentos a serem cumpridos e as revelações de fatos da sua história envolve o protagonista, do início ao fim do texto.
Além dos rituais exigidos, o jovem foi obrigado a assumir importantes tarefas para salvaguardar a cultura local e as tradições familiares, que entravam em contradição com políticas progressistas.

As observações sobre a natureza se revelam a cada momento com ditos populares, próprios de um povo simples, porém, posseira de sabedoria: “O rio é como o tempo! Nunca houve princípio, concluía. O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo, é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício. O rio é como uma cobra que tem a boca na chuva e a calda no mar.” Com este linguajar o autor constrói a história de um povo e nela se inclui.

O texto é leve e curioso. O leitor que se deixar envolver na fala da ilha Luar-do-Chão, certamente, terá oportunidade de experimentar uma cultura enraizada em fundamentos onde a natureza é a essência da própria existência: “Desde o funeral que não pára de chover. Nos campos, a água é tanta que os charcos se cogumelam, aos milhares. Poeiras brancas ondulam à tona de água. Parece que a terra vomita esses pós brancos que, por descálculo, Juca Sabão teve a fatal ideia de semear. Quem disse que a terra engole sem nunca cuspir?”.

O livro aborda a história de uma família e suas crenças. Revela a natureza, na forma rudimentar. Retrata a política e seus conflitos, tangenciando a história, com foco nas possíveis consequências sociais.

Informações sobre o autor –  Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românticas. Seu romance Terra Sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. O escritor publicou, entre outros: O outro pé da sereia; A varanda do frangipani; Venenos de Deus, remédio do diabo; O fio das missangas.

Referência bibliográfica
Couto, Mia – 1955
Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra/ Mia Couto - São Paulo. Companhia das Letras, 2003.
262p.
INBN 978-85-359-0343-0
1. Romance moçambicano (Português) - I. Título.


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Um comentário:

  1. Significado da frase ( O rio é uma cobra que tem a boca na chuva e a cauda no mar ? ) ?

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