sábado, 29 de maio de 2010

Cartas filosóficas – François-Marie Arouet (Voltaire)

Voltaire utiliza temas como religião, teatro, medicina, política e ciência para demonstrar a inter-relação entre a linguagem e o procedimento. A abordagem, crítica, aguça a reflexão do leitor. Faz um comparativo entre o comportamento dos ingleses e franceses, assinala as diferenças entre os dois povos e ressalta o quanto a conduta interfere na vida, no bem-estar e no futuro das nações.

Os diálogos, referidos em suas cartas, incitam debates sobre temas que muitas vezes passam despercebidos, a exemplo da conversa com adeptos da seita quacres (tremedores), ao se referir à ausência de padres em seus templos: “Por que entregaríamos nossos filhos a amas mercenárias, quando temos leite para lhe dar?”

Sobre vacinas, cujo processo era bem diferente do atual, o autor cita: “Dizem a meia voz na Europa cristã que os ingleses são loucos e temerários: loucos porque dão a varíola a seus filhos para impedi-los de tê-la; temerários, porque transmitem de coração leve a essas crianças uma doença certa e terrível, visando prevenir um mal incerto.”

Ao escrever sobre os acadêmicos, Voltaire diz: “A necessidade de falar, o inconveniente de não ter nada a dizer e a vontade de ter espírito são três coisas capazes de tornar ridículo mesmo o maior homem.”

As Cartas Filosóficas formam uma espécie de síntese do moderno liberalismo, antevendo conceitos, atualmente aceitos, focados em personagens, responsáveis por idéias que provocaram mudanças sociais. Shakespeare, Newton, Locke, e Swift, são citados como alguns dos causadores das variações históricos.  Voltaire abre uma perspectiva crítica, a partir da qual o leitor se deleita, de forma descomprometida, e tem à sua frente o mundo com o retrato aos seus questionamentos.

Informações sobre o autor - François-Marie Arouet (Voltaire) nasceu na França em 1694 e ficou conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. Filósofo iluminista é conhecido pela acuidade na defesa das liberdades civis e religiosas. Escreveu nas mais várias formas literárias. Sua obra influenciou importantes decisões políticas a exemplo da Revolução Francesa. 

Referência bibliográfica
Voltaire, 1694-1778
Cartas filosóficas / Voltaire; tradução de Márcia Valéria Martinez Aguiar; revisão da tradução Andréa Stahel M.da Silva.- São Paulo: Martins Fontes, 2007, (Voltaire vive)
176p.
Título original: Lettres philosophiques
ISBN 978-85-336-2349-1
1. Filosofia francesa 2. Voltaire, 1694-1778 I.Título II. Série.

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Caim – José Saramago

Caim, a história de ficção escrita por Saramago, tem o propósito de instigar o leitor sobre um tema polêmico e de difícil conclusão.
O leitor deve considerar a capacidade narrativa e a criatividade do autor ao desenvolver uma história baseada no Velho Testamento, que coloca o primeiro criminoso da história divina como protagonista e questionador dos desígnios de Deus.
O filho primogênito de Adão e Eva, Caim, matou o irmão Abel por ciúme e tornou-se um andarilho a testemunhar acontecimentos, relatados como castigos do Criador.
Sodoma e Gomorra, Torre de Babel, Arca de Noé, e o testemunho de fé de Abraão ao levar o filho Isaac para o sacrifício, são alguns das indagações colocados por Saramago.
Destruir Sodoma e Gomorra sem poupar as crianças e os justos; impedir a construção da Torre de Babel sabendo que de nada adiantaria construí-la; e encomendar a Noé uma Arca para boiar no dilúvio e repovoar o mundo são histórias do Velho Testamento, narradas pelo autor de forma inusitada.

Não bastassem os questionamentos bíblicos, Saramago dá uma pincelada nas relações pessoais. Cita: “Por baixo das palavras que dizes percebo que há outras que calas.”
Cita, ainda: “Diz-se então que o asno é teimoso como um burro quando afinal do que se trata é de um problema de comunicação, como muitas vezes sucede entre os humanos.”

O autor resume parte dos questionamentos em um diálogo entre Caim e Lilith: “Ninguém vai acreditar em ti, Não penso dizer isto a mais ninguém, o teu mal é que não trazes contigo nenhuma prova, um objeto qualquer deste outro presente. Não foi um presente, mas vários, Dá-me um exemplo. Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu e que o senhor com um sopro deitou abaixo, logo a de uma cidade em que os homens preferiam ir para a cama com outros homens e o castigo de fogo e enxofre que o senhor tinha feito cair sobre eles sem poupar as crianças, que ainda não sabiam o que iam querer no futuro, a seguir o ajuntamento de gente no pé de um monte a que chamavam sinai e a fabricação de um bezerro que adoraram e por isso morreram muitos, (...)”

Enfim, os leitores de Saramago já estão acostumados à forma da escrita, sem a importância dada à construção das frases, como é percebido no texto acima, porém, o que importa é a questão. Apesar de se saber que, em muitas ocasiões, temas banais se tornam importantes devido à forma como são apresentados, Saramago se destaca pelo assunto.

Compartilhar ou não com Saramago sobre a existência de Deus, não impede a leitura da obra. A fé é reservada e particular, sua intensidade muda de acordo a necessidade do indivíduo.
Temas polêmicos a exemplo da criação do universo e da existência humana devem perpassar por avaliação interior e individual, sem tentativas de persuasão a quem quer que seja. Neste sentido, o texto não impõe desvio de conduta, contudo, induz o leitor a refletir sobre a forma de comunicação usada pelas religiões.

Informações sobre o autor José Saramago nasceu em 1922 em Portugal. Filho de agricultores, foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Vive entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. 

Referência bibliográfica
Saramago, José
Caim: romance / José Saramago. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
172p.
ISBN 978-85-359-1539-6
1. Romance português. I.Título.

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