terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recordações da Casa dos Mortos – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Ao falar a respeito do livro Recordações da Casa dos Mortos convém comentar o ocorrido com o seu autor, antes de ter passado pela experiência de presidiário.
A Europa enfrentava conflitos sociais. Vivia um sonho libertário e o socialismo aparecia como alternativa utópica para acabar com o feudalismo existente na Rússia. Ainda jovem, Dostoiévski, envolveu-se na conspiração do revolucionário Mikhael Petrachévski, que tinha o propósito assassinar o Czar Nicolau I.
Apesar de negar o seu envolvimento, o autor foi preso em 1849 e condenado a morte com mais vinte e um companheiros. Com vinte graus abaixo de zero, vestindo túnicas mortuárias, os condenados foram amarrados em postes na Praça Semionovski e experimentaram a desagradável sensação que antecede uma execução: padres, fuzis, tambores e só depois do ritual lhes foi revelado que a punição inicial havia sido substituída por prisão e trabalhos forçados na Sibéria.

No presídio, o protagonista, considerado nobre, convive com criminosos comuns e vivencia, possivelmente, a maior e mais inesquecível experiência de sua vida. Rejeitado por uns e cortejado por outros passa quatro anos de sua vida sofrendo com o frio, as precárias instalações, a deficiente alimentação, e, principalmente, com o tormento de nunca poder ficar sozinho.
Os detentos eram na sua maioria, retraídos, desconfiados, invejosos, valentões e extremamente insensíveis.
O livro é uma obra voltada para a psicologia criminal. As observações do autor a respeito do comportamento humano em situações de culpa enriquecem sobremaneira a obra e remete o leitor a análise de modelos aparentemente corretivos, mas no fundo para nada servem.
Diz o autor: “Não resta dúvida de que o tão gabado regime de penitenciária oferece resultados falsos, meramente aparentes. Esgota a capacidade humana, desfibra a alma, avilta, caleja e só oficiosamente faz do detento “remido” um modelo de sistemas regeneradores.”

O protagonista experimenta na prisão momentos do bem e do mal, do crime e da culpa. Procura uma resposta para a prática do crime, independente da classe social que o homem está inserido e se tudo não bastasse analisa a si próprio: “Mas o tempo fluía e dei em me habituar gradativamente. À medida que os dias passavam, as realidades cotidianas iam me irritando menos. Os meus olhos, por assim dizer, se iam habituando aos acontecimentos, ao ambiente e aos homens.”

O autor fala, também, de esperança ao dizer: “Quando o sol brilha, a gente pensava na liberdade muito mais intensamente do que nos dias cinzentos do outono e nas horas opacas do inverno.”

Não bastassem as observações sobre os criminosos, o autor não abandona as críticas sobre as atrocidades praticadas pelas autoridades do presídio. Além do trabalho forçado, sob condições desumanas, o uso dos grilhões, mesmo nos doentes prestes a morrer, e os castigos exagerados praticados pelas autoridades tomam lugar de destaque no texto, a exemplo do relato de um açoitado ao revelar: “É, atroz, dá a impressão de fogo aplicado demoradamente na pele. Assa as costas como um grelha.”

O livro fala, com maestria, das dificuldades nas relações entre pessoas de diferentes classes sociais e insere o próprio protagonista nesse contexto, quando procurava refúgio no hospital, simulando doença, simplesmente para escapar do convívio indesejado.
Sem dúvida, é um marco histórico na literatura mundial, até porque, segundo se comenta, iniciou a melhor fase do respeitado autor.

Informações sobre o autor Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Recordações da casa dos mortos / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução deJosé Geraldo Vieira. - São Paulo: Martin Claret, 2006. 
Título original: Zapiski iz mertvogo doma.
ISBN 85-7232-7'6-9.
308p.
1.Romance russo I.Título.II.

3 comentários:

  1. Otimo comentário, vlw.

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  2. “Quando o sol brilha, a gente pensava na liberdade muito mais intensamente do que nos dias cinzentos do outono e nas horas opacas do inverno.”

    Esplêndido.

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  3. Assim com existem belas músicas que retratam o estado em que se encontrava o compositor. A exemplo desta, existem belíssimas obras literárias que deixam evidente o estado psicológico de situações vividas pelo autor.
    Vale a pena conferir tal obra de Fiódor.
    Úrsula Nunes

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