A crítica metafórica, escrita por Franz Kafka em 1914, traz pitadas proféticas dos excessos burocráticos da justiça e as agruras dos regimes totalitários.A história de Josef K., funcionário de uma instituição financeira, apresenta momentos de alucinações e se aproxima de uma realidade, cruel, vivida por um jovem acusado - sem saber do que - por uma justiça burocrática, incompreensível, autoritária, perdulária e inacessível.
Ao narrar O Processo, Kafka, aborda a insatisfação feminina devido à forma como as mulheres são tratadas pela sociedade. Esta abordagem surge, também, em outro livro escrito pelo autor, O Castelo. Em O Processo, a mulher do oficial da justiça, cuja casa em que mora serve para a realização de reuniões de interrogatórios, mostra-se insatisfeita e disposta a ir para qualquer lugar com Josef K., protagonista da história.
Josef K., em visita à casa do oficial da justiça, flagrou o estudante de direito Berthold, aguardando a mulher do citado funcionário para levá-la até o juiz de instrução com o objetivo de manter relacionamentos amorosos.
A enfermeira Leni, outra mulher da história, cuida do advogado responsável pela defesa do processo de Josef K., se oferece a ele. Sentou-se em seu colo, no primeiro dia que o conheceu e mostra-se disposta a ajudá-lo.
O leitor fica sem saber se as atitudes femininas relatadas por Kafka, em seus livros, tiveram a intenção de refletir a realidade à época ou se os textos afloram uma percepção, equivocada, da sua auto-estima.
Em momentos de delírios, Josef K., ridiculariza a justiça. Afirma que a falta de investigação ou a interrupção dela, ocorria por preguiça, esquecimento e, até, devido ao medo característico dos funcionários públicos. Contrapõe-se ao relatar que a continuidade das investigações poderia ocorrer para forçar a oferta de suborno, por parte do acusado. Cita que o funcionário responsável pela negociação do suborno vestia-se bem, por recomendação dos colegas, para facilitar o desempenho na tarefa. Ou seja: a empáfia criada pela vestimenta induz a elevação do valor do suborno.
Kafka refere-se à justiça com severidade. Em algumas situações, o autor expõe e castiga os funcionários que não desempenham as tarefas de forma eficaz. Dois guardas são chicoteados pelo espancador, por não cumprirem adequadamente as tarefas.
A capacidade do autor de dizer e desdizer, afirmar e contradizer, intuir e desentender chega a ponto de descrever cenas não ligadas diretamente à história, só para levar o leitor a divergir do que já havia concordado. Afirma que as nossas opiniões, muitas vezes, são expressões do desespero. Chama a atenção para o fato de nos pronunciarmos a respeito de determinadas coisas conforme as nossas conveniências.
Kafka é terrível! Leva o leitor para onde ele quer, em seguida, o devolve a sua própria consciência e afirma com maestria: “A compreensão correta de uma coisa e a má compreensão desta mesma coisa não se excluem de todo”.
O livro é assim. Quando se imagina que a solução foi justa, de justiça, ocorre o pior: condenam e matam um homem que não sabe do que foi acusado, sem direito à defesa.
Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.
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Kafka usa de seu mundo concreto e duvidoso para criar e desfazer conceitos. Kafka não é exatamente teórico mas ao mesmo tempo nos faz conceber milhões de visões de mundo.
ResponderExcluirExcelente postagem ! parabéns, pela forma clara e verdadeira de como expressou sua visão do livro.
Mariana,
ResponderExcluirGrato, pelo seu bondoso comentário.
o livro é um tanto indigerível,porém muito interessante.
ResponderExcluirNossa, o post é um pouquinho "antigo", mas tudo bem, eu posto o comentário mesmo assim, pois o livro exige isso. Um excelente e intrincado romance, cheio de metáfora e contradições. Kafka é um verdadeiro ventríloquo que não necessita de fios para manipular algo ou alguém em sua narrativa. Excelente post!
ResponderExcluirAssim que eu vi a lista de livros ao lado reslovi favoritar o blog e até indicá-lo no meu blog. É até um pouco de pretensão indicá-lo aqui, mas sinto que tenho de fazê-lo:
http://anima-vita.blogspot.com/
Sinto que encontrei um lugar onde posso dividir opiniões e comentários!
Todos temos nossas culpas, vivemos num processo profundo e minucioso. Acredito que o Tribunal seria a consciência de K. por isso não há a possibilidade da absolvição. K. vive em delírio nos tribunais itinerantes e insalubres com funcionários onipresentes e instâncias superiores ilusórias. Block, um velho comerciante decadente, perdido na sua insignificância e implorando o auxílio de um advogado doente e inerte.
ResponderExcluirO fato de não sabermos do que somos acusados é o de menos, até porque somos tão individualistas que achamos sempre estar agindo corretamente e nos perdemos. Enfim, o processo é um enredo de nossas ações e a expiação delas.
Um Forte abraço
Ricardo
Senti o mesmo que o Ricardo do comentário acima: o ´"Tribunal" é a consciência do Joseph K., por isso não existe a absolvição "real", somente existem a absolvição ostensiva, sujeita à revisão a qualquer momento, e a protelação eterna.
ResponderExcluirOu ainda a saída oferecida pelo padre, a "fuga", a aceitação do mito, a aceitação da culpa (conforme já lhe havia dito a mulher, olha aí o simbolismo, a mulher, encarnação do pecado na alegoria cristã) e não a absolvição pelo reconhecimento da inocência, mas sim o "Perdão Eterno" dos pecados inerentes à própria condição humana - perdão esse que requer a aceitação de que a nossa condição carrega, inerente a si, o pecado. Requer a aceitação do mito e da submissão. Da submissão de valores metafísicos e também materiais, já que a Igreja simboliza também o poder político e econômico.
Em suma: Na cultura em que vivemos, nossa Consciência, incrustada de valores e princípios adquiridos ao longo das décadas, é um tribunal no qual não há mais absolvição real: apenas a absolvição ostensiva ou a protelação eterna são alternativas à condenação. Para evitar o julgamento, outra alternativa é viver o mito oferecido pelo padre. Ou insistir na inocência e ser massacrado pelo sistema, como insistiu em fazer o Joseph K.
Talvez por isso ele era olhado com tanta estranheza pelos vizinhos na janela, lá no início do filme. Era "culpado" de seu crime de ser autêntico.
Pela segunda vez assisti ao filme, porém, agora após ler a obra. Vejo dois aspectos: Um ligado à inacessibilidade à justiça, representada pelo jogo burocrático e incompreensível. Apesar de, ao que parece, K. ser um homem instruído não domina o processo, logo, submete-se àqueles que conhecem-no um mínimo, ou pelo menos acha que conhecem. O outro aspecto, aí sim, está ligado á mente de K., onde o processo é algo interno, que o prende nos meandros de sua psique ofuscada pelo orgulho, luxúria, etc. Joseph K. vê-se refém de sua própria lei interior.
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