domingo, 16 de dezembro de 2012

O Duplo – Fiódor Dostoiévski


A narrativa imprime contradições da consciência humana e tem como protagonista o funcionário público Golyádikin. O isolamento provocado pelo distanciamento social produz sentimento de solidão, característico de pessoa que necessita ser aceita como parte de uma sociedade que não a vê de forma igualitária.
O texto, ao revelar os diálogos entre Golyádikin e Golyádikin segundo, se apresenta truncado, indicando a alteração da consciência do protagonista. Para facilitar este entendimento, logo no início da história, o autor conduz o protagonista ao consultório do seu médico, para indicar a existência de anormalidade na personalidade.
Golyádikin tentava, a todo custo, ser aceito em determinada classe social de uma Rússia Czarista, e, por não conseguir, terminou por criar o seu duplo como forma de projetar suas expectativas. Esta fantasia imprimiu diálogos desconexos e desencontrados com a realidade dos fatos. Adentrou, sem ser convidado, na casa do chefe durante uma festa e terminou sendo convidado a se retirar.
“O senhor Golyádikin reconhecera por completo seu amigo noturno. O amigo noturno era ele mesmo – o próprio senhor Golyádikin, outro senhor Golyádikin, mas absolutamente igual a ele, era, em suma, aquilo que se chama o seu duplo, em todos os sentidos...”
“(...) até o próprio senhor Golyádikin estaria disposto a considerar tudo isso um delírio quimérico, uma fugaz perturbação mental, um eclipse da mente (...)”
O duplo escreveu ao senhor Golyádikin: “Se te esqueceres de mim não me esquecerei de ti; tudo é possível na vida, não te esqueças tu de mim!” referindo-se a elevação da autoestima, já que quem falava era o próprio Golyádikin.

Um homem dialoga com ele mesmo e mostra o quanto o isolamento social traz consequências para a sua vida. Idealiza que a filha do chefe quer fugir com ele e se coloca à disposição deste interesse fictício. Enquanto projeta o encontro decide impor uma moral descabida.

O texto é riquíssimo, não só pela textura da linguagem, mas, também, por falar de sentimentos do próprio autor.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
O duplo: poema petersburguense / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Alfred Kubin. Texto sobre Kubin de Samuel Titan Jr. 2. São Paulo: Ed. 34, 2011.
256 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-472-2
Tradução de Dvoinik
1. Literatura russa. I. Bezerra, Paulo. II. Kubin, Alfred. Título. III. Titan Jr., Samuel. IV. Título. V. Série.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Eterno Marido - Fiódor Dostoiévski


O desconfiado, hipocondríaco e lamuriento Vieltchâninov padecia de insônia e, frequentemente, tinha sonhos muito estranhos. Ocupava-se na busca de uma solução para a conclusão de um processo que lhe daria a posse de uma propriedade. Deparou-se algumas vezes com Páviel Pávlovitch Trussótzki e percebeu que havia muita coincidência nos encontros, contudo, não conseguia lembrar-se de onde conhecia o seu seguidor que, estranhamente, portava um crepe no chapéu. Certa feita, Páviel vai à casa de Vieltchâninov e se identifica como viúvo de Natália Vassílievna e o informa da existência de Lisa, filha de Natália.
Tudo teria sido natural se, no passado, não tivesse havido um relacionamento amoroso entre Vieltchâninov e a atraente e dominadora Natália Vassílievna.
Lisa morre, dez dias após conhecer Vieltchâninov, e, só após sua morte, Páviel revela a Vieltchâninov que ela era sua filha. A revelação causou enorme descontentamento não só devido ao fato de não ter convivido com Lisa, mas, também, por perceber que a atitude de Páviel demonstrava vingança por ter sido traído.
Páviel tenta um relacionamento com Nadiejda e pede a Vieltchâninov que o acompanhe à casa da pretendente para formalizar o compromisso. Logo após são surpreendidos com um pedido do jovem Alexander Lobov para “limpar o campo” já que a Nadiejda era sua amada. Páviel se nega a desistir de Nadiejda e ouve do jovem a seguinte frase: “O senhor é como um cachorro sobre um monte de feno; não aproveita e não deixa que os outros aproveitem”.

Dostoiévski insere o amor nas relações pessoais em uma época que os matrimônios eram regidos por interesses familiares e patrimoniais. Fala do desejo sexual sem prudência com a moral, exigida à época.
O titulo do livro, o eterno marido, refere-se à citação usual feita a homens que toleram traição das esposas.  Jorge Amado, possivelmente, o titularia como “o corno manso”.
Enfim, a abordagem deixa a indagação sobre a possibilidade da união entre pessoas capazes de suportar/atrair parceiros que resistem as características típicas deste padrão de relacionamento.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Crime e Castigo, Irmãos Karamázov, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, Noites Brancas, O Crocodilo, Uma história lamentável, O Duplo, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. () 

Referência bibliográfica
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881.
O eterno marido / Fiódor Dostoiéviski; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman. 2. São Paulo: Ed. 34, 2003.
116 p. (Coleção Leste)
ISBN 978-85-7326-283-4
Tradução de Viétchnii Muj
1. Literatura russa. I. Schnaiderman, Boris. II. Título. III. Série.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O homem revoltado – Albert Camus


A leitura do texto requer paciência do leitor para não se apoquentar devido à sua complexidade. Traz a história filosófica sobre a revolta do homem e faz referências a importantes pensadores, quando menciona o niilismo, o surrealismo e o existencialismo. André Breton, Pierre Naville, Sade, Nietzsche e Dostoiévski são citados em várias oportunidades e o leitor precisa ter, pelo menos, noção do que cada um pensava a respeito das crenças e necessidades sociais.

O escrito tangencia um ensaio literário a respeito da revolta do homem e traz reflexões sobre propostas políticas e sociais ocorridas nos últimos anos. Possivelmente, por isso, os questionamentos de Albert Camus, que contestam teorias da época, não tenham sido aceitos por alguns pensadores franceses encabeçados pelo filósofo Jean-Paul Sartre.

Camus, afirma que a revolução e o amor são incompatíveis: “A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe. Mas aquele que ama um ser vivo, se realmente o ama, ele só aceita morrer por ele.” Cita que o homem revoltado se contrapõe à ordem de quem o oprime e reage quando sente que não deve ser oprimido além do que pode admitir. Entende que a revolta não nasce, única e obrigatoriamente entre os oprimidos, pode também surgir do espetáculo da opressão. Neste caso, o revoltado se identifica com o outro indivíduo.

Cita que “Não se pode dar uma coerência ao assassinato, se a recusamos ao suicídio. A mente imbuída da idéia de absurdo admite, sem dúvida, o crime por fatalidade; mas não saberia aceitar o crime por raciocínio. Diante do confronto, assassinato e suicídio são a mesma coisa: ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos.”

Diz que “A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. Mas transformar é agir, e agir, amanhã, será matar, enquanto ela ainda não sabe se matar é legítimo. Ela engendra justamente as ações cuja legitimação lhe pedimos. É preciso, portanto, que a revolta tire as suas razões de si mesma, já que não consegue tirá-las de mais nada. É preciso que ela consinta em examinar-se para aprender a conduzir-se.” E que: “Na nossa posição diária, a revolta desempenha o nosso papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos.”

Afirma que “Para combater o mal, o revoltado, já que se julga inocente, renuncia ao bem e gera novamente o mal.”

O texto é riquíssimo em questionamentos e possibilita tirar conclusões sobre muito do que se propagou a respeito das revoluções sociais.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.


Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
O homem revoltado / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek.- 8ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
210p.
Tradução de: L’homme révolté

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Hipnotista – Lars Kepler

A história é marcada por datas e turnos das ocorrências dos fatos que envolvem profissionais médicos, policiais, famílias e pessoas inocentes, todas elas vítimas do descontrole mental de pessoas padecidas por histórias perversas, que apesar dispostas a alterarem o curso da vida são induzidas, por visão distorcida, à prática de crimes na busca de culpados.
A vingança aparece como forma de punição e purificação da distorção mental em um contexto difícil e abstrato.
Os protagonistas são submetidos a situações de impotência frente ao desconhecido e, muitas vezes, renunciam relações pessoais por suspeitas infundadas e ou fatos decorrentes da necessidade de atenção.
Independente das queixas e repulsas, os envolvidos, levados pelo objetivo mais forte do resgate do filho Benjamim, terminam se perdoando e reconhecem que ações e atitudes, próprias dos humanos, são fruto de carências e expectativas criadas em relação ao outro.

O texto é escrito em linguagem direta e de fácil compreensão. Mantém o leitor atento do início ao fim da história.

Informações sobre o autor – Lars Kepler é o pseudônimo do casal sueco de Alexandre Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. Escreveu O Hipnotista e O Executor. Alexandre escreveu outros romances publicados sobre o seu próprio nome.

Referência bibliográfica
Kleper, Lars
O hipnotista /Lars Kleper; tradução de Alexandre Martins. – Rio de janeiro : Intrínseca, 2011.
480p.; 123cm.
Tradução de: The  hypnotist.
ISBN 978-85-8057- 091-5
1. Ficção sueca. I. Martins, Alexandre. II. Título.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Morte de Ivan Ilitch - Leon Tolstói

O texto aborda questionamentos sobre o sentido da vida e a busca do entendimento a respeito da fase que a maioria dos humanos rechaça: a morte. A futilidade, a intolerância, o zelo moral e a busca desmedida do reconhecimento e valorização profissional são questionados no momento que o homem se depara com o sentimento de finitude e a real proximidade da morte. Por ser único e diferente para cada ser humano, o processo da morte não abarca experiências pessoais que possam servir de subsídio para o entendimento do fato.

Ivan Ilitch, personagem escolhido por Tolstói para retratar a fase final da vida, busca entender o porquê do sofrimento exacerbado e duradouro que antecede à morte, experimentado por algumas pessoas enquanto outras  passam por processos rápidos e menos sofridos. Há causas que determinem o sofrimento ou a sutileza?  A escolha do caminho a ser trilhado pelo homem é decisiva para os acontecimentos que antecedem ao fim? É possível nos preparar para minimizar os efeitos do sofrimento ou seremos, sempre, pegos de surpresa? Ignorar é uma escolha para fugir da realidade finita ou ela se presta como esperança para postergação à prova final da vida? O sofrimento se apresenta como um acerto de contas contrapondo-se à futilidade escolhida pelo homem ou ele, o sofrimento, oferece oportunidade para a liberação das amarras que o cercam durante a sua existência?

O protagonista se depara com uma realidade entediante: viveu em busca de valores que não ajudaram a suportar os momentos que antecederam à morte e não consegue identificar nada que pudesse auxiliá-lo a concluir como seria a vida que devesse ter experimentado. A angústia por esta busca cresce, a cada momento, que se aproxima da morte. Ivan Ilitch considera a esposa e a filha com estorvos capazes de impedirem uma visão realista do processo e passa a se sentir mais confortável na companhia de um servo, que se dedica ao patrão sem pedir nada em troca.

O texto, irretocável e riquíssimo em questionamentos, é um intenso depoimento da perspectiva da morte e envolve sentimentos de perda e, ao mesmo tempo, de libertação ao tomar consciência dos apegos equivocados.

Informações sobre o autor – Leon Nikolaievitch Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, A Morte de Ivan Ilitch e Anna Karenina. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples. () 

Referência bibliográfica
Tostói, Leon, gráf.. 1828-1910
A Morte de Ivan Ilitch/ Leon Nikolaievitch Tostói; tradução Vera Karam. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
122p.; 18 cm. -  (Coleção L&PM POCKET; v.16)
ISBN 978-85-254- 0600-2
1. Ficção russa - novelas. I. Título. II. Série

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski


A história tem como pano de fundo uma cidade na Rússia e aborda os conflitos entre quatro irmãos, filhos de três mulheres, e o avarento e depravado pai, detentor de uma fortuna proveniente dos dotes de suas duas esposas, Adelaída e Sófia.
Fiódor Pavlovitch Karamázov, pai de Dmitri, Ivan, Alieksêi e do bastardo Pável, era um homem egoísta, sem princípios éticos e morais, contudo, detentor de recursos que o permitia exercer poder e acessibilidade.

Dimitri, único filho de Karamázov com Adelaída, criado por um primo de sua mãe, requereu a sua parte na herança e, logo, os conflitos entre ele e o pai começaram. Em consequência da disputa pelo dinheiro, Dimitri conhece a jovem Grúchenka, amante do pai, e se apaixona por ela. Termina o noivado com a rica Catierina e resolve disputar, com o pai, o amor da sua amante.

Ivan e Alieksêi, filhos de Karamázov com Sófia, sua segunda esposas, falecida prematuramente, tentaram negociar um acordo com o pai, com a intermediação do respeitado monge Zossima, objetivando convencê-lo a pagar o que lhes eram devidos, contudo, a intransigência do velho terminou por contrariar os interesses dos herdeiros.

Alieksêi, que tinha uma vida simples no mosteiro e era discípulo dos ensinamentos de Zossima, buscou minimizar os efeitos dos conflitos e descontentamentos, não só em relação à parte financeira, mas, também, às atitudes pessoais e relacionamentos amorosos dos irmãos Dimitri e Ivan.

Pável, por sua vez, filho bastardo de Karamázov e da demente perambulante Lizavieta, foi parido no jardim da casa do depravado pai e devido à morte da mãe terminou sendo adotado pelo casal Grigori e Marfa, empregados do velho malquisto. Devido à adoção, acabou como serviçal na casa do próprio pai e teve a oportunidade de conhecer os irmãos, analisar suas personalidades e arquitetar um crime que envolveu todos eles.

O autor caracteriza Dimitri como um homem debochado e impulsivo; Ivan como um filósofo e intelectual questionador; Alieksêi com elevada capacidade de percepção e exacerbada habilidade de relacionamento; e, Pável como discreto, invejoso, dissimulado e estrategista vingativo.

O texto se destaca pela capacidade do autor em discorrer, de forma ficcional, assuntos familiares que contrapõem interesses pessoais e abalam as relações humanas. A história escancara de forma perversa o comportamento humano e deixa para o leitor a responsabilidade da analise e avaliação dos variados tipos de comportamentos, personalidades e crenças.
Trata-se de uma obra aberta, onde os personagens são caracterizados de forma precisa, sem perder a linguagem própria, característica do nível social e do contexto que cada um se insere, já que os irmãos Karamásov tiveram, apenas, o pai como ponto de confluência. No demais, devido à ausência de um ambiente familiar acolhedor, o destino proporcionou a cada um dos filhos experiências discrepantes: formação intelectual, construção da personalidade, e acessibilidade social. As diferenças retratadas em cada personagem enriquecem a trama arquitetada para o autor alcançar o seu pleno objetivo.
Dostoiévski nos brinda com questionamentos que incomodam o conforto mental. Expõe cada personagem ao extremo da ética e da moral: “Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante.”
Os Irmãos Karamázov é considerada, por muitos estudiosos, uma obra-prima da literatura russa. Trata-se do último romance escrito pelo autor. Segundo comenta-se, apesar das suas novecentos e noventa e nove páginas, é uma obra inacabada.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamázov, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Os Irmãos Karamázov / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Ulysses Bôscolo. - São Paulo: Ed. 34, 2008. 
Título original: Brátya Karamázovy.
ISBN 978-85-7326-411-1.
999p.
1.Ficção russa. I. Bezerra, Paulo. II. Bôscolo, Ulysses. III. Título. IV. Série.

domingo, 11 de março de 2012

O Mito de Sísifo – Albert Camus

Camus utilizou-se de Sísifo, personagem da mitologia grega, para centralizar questionamentos filosóficos na busca da percepção da vida e o determinismo de responsabilidade das ações que possam nortear o caminhar do homem no sentido metafísico e nas relações interpessoais.

Sísifo age de forma talentosa e consegue amenizar a fúria de Zeus, rei dos deuses, quando ordenou Tânatus, deus da morte, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Ele elogia a sua beleza e obtém a concordância de Tânatus para colocar um colar em seu pescoço, com o qual manteve a morte aprisionada. Hades, que governava o mundo subterrâneo dos mortos, se uniu a Ares, deus das guerras, e fisgou Sísifo, que antes de se afastar da mulher pediu a ela que não o enterrasse após sua morte. Tão logo se viu no inferno, conseguiu a concordância de Hades para retornar e se vingar da atitude da esposa. Desta forma Sísifo retomou o seu corpo e fugiu. Devido à habilidade de Sísifo, a morte só lhe alcançou na velhice. Insatisfeitos, os deuses o condenaram, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha e, sempre que chegava próximo ao topo uma força poderosa a rolava de volta até o ponto de partida. Assim, segundo a mitologia grega, a humanidade ficou sabendo não ter a mesma liberdade divina.  

Ao se referir ao raciocínio absurdo, Albert Camus, fala da construção da vida sobre o amparo da esperança. Quanto mais se espera o amanhã mais próximo estamos da morte e conclui que o mundo cruel é estranho. “Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas idéias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).”
Cita, ainda: “Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”
Diz, mais: “Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que ficar, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que se pode atribuir às conclusões da filosofia existencial.”
Conclui, sobre o raciocínio absurdo: “Pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado. (...) Se eu me convencer que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o seu equilíbrio reside na perpétua oposição entre minha revolta consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que  minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais.”

Albert Camus aborda as questões do homem absurdo (aquele que não se separa do tempo) referindo-se ao amor, o ator e o conquistador. Em relação ao amor cita o personagem Don Juan lembrando que quanto mais se ama mais se concretiza o absurdo. A representação teatral oferece ao homem absurdo a possibilidade de ver além de si mesmo, contudo, não o impõe mudança que possa lhe submeter qualquer angústia.  Sobre as conquistas interpreta como uma escolha do homem em prejuízo da contemplação, como algo necessário a mantê-lo atuante, apesar da percepção que um dia terá que cessar.
O autor aborda a arte como alternativa para expressar o mundo inexplicável. Cita Dostoiévski, Kafka, Malraux, Balzac e Sade como romancistas capazes de explorar o suicídio filosófico.
Faz analogia ao trabalho repetitivo, dos dias atuais, à tarefa determinada a Sísifo, pelos deuses. Intui que a  busca do homem pelo cotidiano o afasta da tomada de consciência da vida, impondo-se à mediocridade mental conformista.

O Mito de Sísifo é um texto questionador, não só pelas características do ensaio literário, mas, também, pela abordagem filosófica que adiciona incômodo reflexivo diante de um cotidiano e valores morais.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
O mito de Sísifo  / Albert Camus; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. – Rio de Janeiro: Record, 2010.
138p.
Tradução de: Le mythe de Sisyphe
ISBN 987-85-7799-269-0
Ensaio francês. I. Roitman, Ari. II. Watch, Paulina. III. Título

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Levantado do chão - José Saramago

A saga, de três gerações, da família Mau-Tempo é retratada em paralelo com os acontecimentos políticos ocorridos em Portugal. O sapateiro Domingos e a sua esposa Sara Conceição representam a primeira geração, escolhida pelo autor para caracterizar o sofrimento e a tolerância passiva de uma política social repressora, imposta em benefício dos latifundiários.
A segunda geração, representada por João Mau-Tempo, toma consciência que a transformação política depende de questionamentos que leve à valorização do trabalho. Esta mudança de atitude resultou em afrontamento aos proprietários rurais, que recebiam a complacência da igreja.
A terceira geração, liderada por Manuel Espada, casado com a filha de João Mau-Tempo, agiu de forma contundente contra a aceitação das políticas impostas ao povo. Os opositores ao sistema se depararam com a repressão.

Saramago utiliza-se de um cenário rural, na região do Alentejo, para romanescar a luta dos portugueses em busca de transformações políticas. As influências das guerras, do regime totalitário salazarista e da Revolução dos Cravos são tomadas como referências, não literais, para discorrer sobre os reflexos na vida da população carente.

Refere-se ao desemprego: “E há o desemprego, primeiro os mais moços, depois as mulheres, por fim os homens. Vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável. Não se vêem nestas alturas feitores nem capatazes nem manajeiros, muito menos se veriam patrões, todos fechados em suas casas, ou longe na capital e noutros resguardos. A terra é só crosta seca ou lamaçal, não importa. Cozem-se ervas, vive-se disso, e os olhos ardem, o estômago faz tambor, e vêm as longas, dolorosas diarréias, o abandono do corpo que se desfaz de si próprio, fétido, canga insuportável.  Apetece morrer, e há quem morra.”
Sobre o despertar da mudança, o autor cita: (...) o tempo verdadeiro dos homens e o que neles é mudança não se rege por vir o sol ou ir a lua, coisas que afinal só fazem parte da paisagem, (...) Às vezes requer-se uma impaciência dos corpos, senão um exaspero, para que as almas enfim se movam (...)
E, sobre os efeitos das ações repressoras: “Não se trata os homem como nós temos sido tratados, depois falaremos, os ares ficaram enturvecidos depois destas prisões, deixa passar o tempo até que tudo se componha, isto é como uma rede de pesca, leva mais tempo a consertar do que a romper, e Manuel Espada rematou assim, Espero o tempo que for preciso.”
 

Em Levantado do Chão, o autor oferece ao leitor um romance político social, com versatilidade ensaística e linguagem característica do meio rural, entremeda por citações filosóficas que permitem vivenciar metaforicamente as agruras dos que, ainda hoje, vivem em situações parecidas às relatadas no texto escrito em 1980.

Informações sobre o autor - José Saramago nasceu em 1922 em Azínhaga, Golegã, Portugal e morreu em 2010 na Província de Las Palmas, Canárias, Espanha. Filho de agricultores foi serralheiro, desenhista, funcionário público, tradutor e jornalista. Tornou-se conhecido internacionalmente com o romance Memorial do Convento. Recebeu o Prêmio Camões em 1995 e o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Viveu entre Lisboa e a aldeia de Lanzarote, nas Canárias. Escreveu Terra do Pecado, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez, As Intermitências da Motre, A Viagem do Elefante, Caim, Claraboia, dentre outros trabalhos.

Referência bibliográfica
Saramago, José, 1922 -2010
Levantado do chão / José Saramago. 15ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
368p.
ISBN 978-85-286-0063-6
1. Romance português. I. Título.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

Eva, mãe de Kevin, escreve várias cartas a Franklin, seu esposo, relembrando os fatos que possam ter sido determinante para justificar o comportamento esquisito do filho, que resultou na chacina de sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um colégio de Nova York.
A notícia sobre a gravidez e as recomendações para alteração dos hábitos alimentares incomodou a mãe de Kevin, não só em relação à mobilidade profissional, mas, também, quanto à mudança de foco. Afinal, Eva não se sentia preparada para alterar seus hábitos no relacionamento que tinha com fotógrafo Franklin. Kevin, veio ao mundo muito mais para satisfazer ao desejo do pai do que para contribuir na formação de uma estrutura familiar.
O parto sem anestesia, aos 37 anos, foi associado à derrota devido às limitações físicas e ao sofrimento. O bebê chegava ao momento de sair da barriga e Eva o trazia de volta para evitar a dor.
Kevin emite sinais de anormalidade. Em muitas ocasiões eram observadas pela mãe que não obtinha a atenção devida do pai, que considerava a maioria dos acontecimentos normais, próprios de crianças e adolescentes.
Eva cansou de tentar chamar a atenção do marido para o comportamento inadequado do filho e decide compensar o sentimento de insatisfação diante do fracasso, deixando-se engravidar. Desta feita, nasce Celia, tímida, insegura e amável. É ignorada pelo pai e se torna vítima das travessuras do irmão.

O livro evidencia a ausência de atitude, passividade e tolerância excessiva dos pais para com o comportamento dos filhos, que podem levar a distorção de personalidade.
“Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontra e o quão pouco possa evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo que seus filhos têm, e a convicção deles de que você saberá protegê-los é contagiosa.”

A história é enriquecida nas duas últimas cartas escritas por Eva. Nelas algumas surpresas são reveladas.
Apesar da intensidade sórdida dos atos praticados, o texto induz ao leitor acompanhar a angustia da mãe, cujo filho arquitetou atos abomináveis que levaram aos assassinatos e à destruição da família.

Ao ver a fotografia que ilustra a capa do livro, Vicente, meu neto de dois anos, apontou para o livro e disse: “- gato malo!” Ele tem razão, Kevin é um gato malo!

Informações sobre o autor – Lionel Shriver nasceu com o nome de Margaret Ann Shriver em 1957, na Carolina do Norte, Estados Unidos, e mudou de nome aos 15 anos. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia, viveu em Nairóbi, Bangcoc e Belfast. Precisamos falar sobre o Kevin ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha, em 2005. Sétimo romance da autora que escreveu The Female of the Species; Checker and the Derailleurs; Ordinary Decent Criminals; Game Control; A Perfectly Good Family; e The Post-Birthday.

Referências bibliográficas
Shriver, Lionel, 1957 -
Precisamos falar sobre o Kevin / Lionel Shriver; tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
454p
Título original: We Need to Talk  Abaut Kevin.
ISBN 978-85-98078-26-7
1.Adolescentes (Meninos) – Ficção. 2. Ensaio secundário – Ficção. 3. Massacre – Ficção. 4. Romance americano - I. Vieira, Beth. II. Ribeiro, Vera. III. Título.

Ocorreu um erro neste gadget