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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski


A história tem como pano de fundo uma cidade na Rússia e aborda os conflitos entre quatro irmãos, filhos de três mulheres, e o avarento e depravado pai, detentor de uma fortuna proveniente dos dotes de suas duas esposas, Adelaída e Sófia.
Fiódor Pavlovitch Karamázov, pai de Dmitri, Ivan, Alieksêi e do bastardo Pável, era um homem egoísta, sem princípios éticos e morais, contudo, detentor de recursos que o permitia exercer poder e acessibilidade.

Dimitri, único filho de Karamázov com Adelaída, criado por um primo de sua mãe, requereu a sua parte na herança e, logo, os conflitos entre ele e o pai começaram. Em consequência da disputa pelo dinheiro, Dimitri conhece a jovem Grúchenka, amante do pai, e se apaixona por ela. Termina o noivado com a rica Catierina e resolve disputar, com o pai, o amor da sua amante.

Ivan e Alieksêi, filhos de Karamázov com Sófia, sua segunda esposas, falecida prematuramente, tentaram negociar um acordo com o pai, com a intermediação do respeitado monge Zossima, objetivando convencê-lo a pagar o que lhes eram devidos, contudo, a intransigência do velho terminou por contrariar os interesses dos herdeiros.

Alieksêi, que tinha uma vida simples no mosteiro e era discípulo dos ensinamentos de Zossima, buscou minimizar os efeitos dos conflitos e descontentamentos, não só em relação à parte financeira, mas, também, às atitudes pessoais e relacionamentos amorosos dos irmãos Dimitri e Ivan.

Pável, por sua vez, filho bastardo de Karamázov e da demente perambulante Lizavieta, foi parido no jardim da casa do depravado pai e devido à morte da mãe terminou sendo adotado pelo casal Grigori e Marfa, empregados do velho malquisto. Devido à adoção, acabou como serviçal na casa do próprio pai e teve a oportunidade de conhecer os irmãos, analisar suas personalidades e arquitetar um crime que envolveu todos eles.

O autor caracteriza Dimitri como um homem debochado e impulsivo; Ivan como um filósofo e intelectual questionador; Alieksêi com elevada capacidade de percepção e exacerbada habilidade de relacionamento; e, Pável como discreto, invejoso, dissimulado e estrategista vingativo.

O texto se destaca pela capacidade do autor em discorrer, de forma ficcional, assuntos familiares que contrapõem interesses pessoais e abalam as relações humanas. A história escancara de forma perversa o comportamento humano e deixa para o leitor a responsabilidade da analise e avaliação dos variados tipos de comportamentos, personalidades e crenças.
Trata-se de uma obra aberta, onde os personagens são caracterizados de forma precisa, sem perder a linguagem própria, característica do nível social e do contexto que cada um se insere, já que os irmãos Karamásov tiveram, apenas, o pai como ponto de confluência. No demais, devido à ausência de um ambiente familiar acolhedor, o destino proporcionou a cada um dos filhos experiências discrepantes: formação intelectual, construção da personalidade, e acessibilidade social. As diferenças retratadas em cada personagem enriquecem a trama arquitetada para o autor alcançar o seu pleno objetivo.
Dostoiévski nos brinda com questionamentos que incomodam o conforto mental. Expõe cada personagem ao extremo da ética e da moral: “Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante.”
Os Irmãos Karamázov é considerada, por muitos estudiosos, uma obra-prima da literatura russa. Trata-se do último romance escrito pelo autor. Segundo comenta-se, apesar das suas novecentos e noventa e nove páginas, é uma obra inacabada.

Informações sobre o autor – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamázov, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Os Irmãos Karamázov / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Ulysses Bôscolo. - São Paulo: Ed. 34, 2008. 
Título original: Brátya Karamázovy.
ISBN 978-85-7326-411-1.
999p.
1.Ficção russa. I. Bezerra, Paulo. II. Bôscolo, Ulysses. III. Título. IV. Série.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

Eva, mãe de Kevin, escreve várias cartas a Franklin, seu esposo, relembrando os fatos que possam ter sido determinante para justificar o comportamento esquisito do filho, que resultou na chacina de sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um colégio de Nova York.
A notícia sobre a gravidez e as recomendações para alteração dos hábitos alimentares incomodou a mãe de Kevin, não só em relação à mobilidade profissional, mas, também, quanto à mudança de foco. Afinal, Eva não se sentia preparada para alterar seus hábitos no relacionamento que tinha com fotógrafo Franklin. Kevin, veio ao mundo muito mais para satisfazer ao desejo do pai do que para contribuir na formação de uma estrutura familiar.
O parto sem anestesia, aos 37 anos, foi associado à derrota devido às limitações físicas e ao sofrimento. O bebê chegava ao momento de sair da barriga e Eva o trazia de volta para evitar a dor.
Kevin emite sinais de anormalidade. Em muitas ocasiões eram observadas pela mãe que não obtinha a atenção devida do pai, que considerava a maioria dos acontecimentos normais, próprios de crianças e adolescentes.
Eva cansou de tentar chamar a atenção do marido para o comportamento inadequado do filho e decide compensar o sentimento de insatisfação diante do fracasso, deixando-se engravidar. Desta feita, nasce Celia, tímida, insegura e amável. É ignorada pelo pai e se torna vítima das travessuras do irmão.

O livro evidencia a ausência de atitude, passividade e tolerância excessiva dos pais para com o comportamento dos filhos, que podem levar a distorção de personalidade.
“Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontra e o quão pouco possa evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo que seus filhos têm, e a convicção deles de que você saberá protegê-los é contagiosa.”

A história é enriquecida nas duas últimas cartas escritas por Eva. Nelas algumas surpresas são reveladas.
Apesar da intensidade sórdida dos atos praticados, o texto induz ao leitor acompanhar a angustia da mãe, cujo filho arquitetou atos abomináveis que levaram aos assassinatos e à destruição da família.

Ao ver a fotografia que ilustra a capa do livro, Vicente, meu neto de dois anos, apontou para o livro e disse: “- gato malo!” Ele tem razão, Kevin é um gato malo!

Informações sobre o autor – Lionel Shriver nasceu com o nome de Margaret Ann Shriver em 1957, na Carolina do Norte, Estados Unidos, e mudou de nome aos 15 anos. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia, viveu em Nairóbi, Bangcoc e Belfast. Precisamos falar sobre o Kevin ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha, em 2005. Sétimo romance da autora que escreveu The Female of the Species; Checker and the Derailleurs; Ordinary Decent Criminals; Game Control; A Perfectly Good Family; e The Post-Birthday.

Referências bibliográficas
Shriver, Lionel, 1957 -
Precisamos falar sobre o Kevin / Lionel Shriver; tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
454p
Título original: We Need to Talk  Abaut Kevin.
ISBN 978-85-98078-26-7
1.Adolescentes (Meninos) – Ficção. 2. Ensaio secundário – Ficção. 3. Massacre – Ficção. 4. Romance americano - I. Vieira, Beth. II. Ribeiro, Vera. III. Título.