quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Recurso – John Crisham

Uma empresa montou uma unidade de pesticida em uma cidade do Mississipi. Apesar de gerar empregos para a população durante trinta anos, o lixo químico foi jogado no solo e provocou a contaminação do lençol freático. A água contaminada foi consumida pela população que terminou contraindo câncer e leucemia.

O casal de advogados, Wes e Mary Grace, se endividaram para defender uma causa que durou setenta e um dias de julgamento no tribunal de Hattiesburg no Mississipi, que terminou por condenar a Krane Chemical Corporation a pagar a vultosa soma de quarenta e um milhões de dólares.

Despertados pela decisão, outros escritórios de advocacia moveram ações coletivas, no intuito de ganharem em acordos que pudessem vir acontecer. Enquanto isso, Carl Trudean, proprietário da Kane, articulava através de meios não convencionais, a anulação da condenação.
As ações da empresa despencaram na Bolsa de Valores, e um esperto senador, percebendo o desespero do proprietário, telefonou, lhe oferecendo os serviços da empresa Judicial Vision, especializada em soluções pouco legítimas.

O Recurso foi encaminhado à Suprema Corte do Mississipi, e, enquanto o julgamento não ocorria, a empresa conseguiu substituir a juíza Sheila McCarthy pelo desconhecido advogado Ron Fisk, que garantiu a anulação da condenação.

O compromisso de Ron Fisk, ao aceitar as condições para a indicação de juiz da Suprema Corte, terminou por envolvê-lo em fatos inesperados.
Trata-se de uma ficção, que expõe a justiça americana ao mostra o poder do dinheiro na defesa dos interesses empresariais e o quão fácil é ludibriar o povo através de campanhas que não refletem a realidade dos fatos. Apesar de ser um livro bem escrito e relatar situações nas quais pessoas são transformadas em vítimas do capitalismo político, a história não apresenta surpresas. 

John Grisham - Nascido em 8 de fevereiro de 1955 na cidade norte-americana de Jonesboro, John Grisham começou a escrever nas poucas horas vagas que sua carreira como advogado lhe permitia. Suas especialidades eram defesa criminal e processos por danos físicos. Foi o caso de uma vítima de estupro de apenas 12 anos que o inspirou a escrever sobre o universo jurídico. Esse primeiro romance, Tempo de matar, foi publicado em 1988. Desde então, o ofício de escritor acabou se tornando prioritário em sua vida. Hoje, ele é um dos seis autores mais lidos nos EUA. Sete de seus romances se tornaram filmes de sucesso, como A firma, O dossiê Pelicano, O cliente e O homem que fazia chover. Outros livros do autor: A câmara de gás, A casa pintada, A confraria, A intimação, Esquecer o Natal, O advogado, O júri, O sócio e O testamento. 

Referência bibliográfica
Grisham, John
O Recurso/ John Grisham; tradução de Michele Gerhardt MacCulloch. Rio de Janeiro: Rocco, 2008..
380p.

Tradução de: The appeal
ISBN 978-85-325-0912-3
1. Indústria química - Ficção. 2. Ficção americana. I.NacCulloch, Michelle Gerhardt. II.Título.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Budapeste – Chico Buarque de Holanda


A maior cidade da Hungria, Budapeste, situada nas margens do famoso rio Danúbio, é o resultado da fusão das antigas cidades de Buda e Peste.
Possivelmente, pela dualidade geográfica e da ocorrência de duas tentativas de fusão, o autor a escolheu como cenário para descrever uma história recheada de posições contraditórias.
Esgotado e sufocado no próprio talento José Costa, um escritor fantasma se depara com situações existenciais.
Radicado no Rio de Janeiro, ao se deslocar para um congresso de escritores anônimos, por força do acaso, termina conhecendo Kriska em Budapeste, e, o interesse subjetivo por ela o induziu a se familiariza com a difícil língua húngara.

A história é dolente porque os pesos impostos aos personagens entremeiam relacionamentos inimagináveis. As manobras impostas pelas relações culturais e relacionamentos amorosos definidas entre as cidades do Rio de Janeiro e Budapeste, servem para permear entendimentos divergentes e conflitantes, deixando a leitura densa e inconclusa.
Duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas e muitos outros dois, se contrapondo e impossibilitando a tomada de partido nos conflitos psicodélicos, pela obscuridade proposital do conhecimento.
O interesse pela escrita move o protagonista entre dois mundos, duas cidades e duas mulheres. Com Vanda, no Brasil, a expressão não era valorada enquanto com Kriska, na Humgria, a palavra era exaltada.
Assim, o livro atrai pela forma e curiosidade despertada pelos padrões da vida.
No mais, José Costa e Zsoze Kósta são as mesmas pessoas em constantes conflitos existenciais.

Informações sobre o autor - Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d´água (1975), e Ópera do Malandro (1979); a novela Fazenda modelo (1974) e os romances Estovo (1991) e Benjamim (1995).

sábado, 29 de agosto de 2009

Entre quatro paredes - Jean-Paul Sartre


A história coloca três personagens em um inferno hipotético, onde são obrigados a conviverem sem elementos que possam refletir a própria imagem, a não ser os olhos dos habitantes do confuso ambiente.

A filosofia existencialista, defendida por Sartre, responsabiliza o indivíduo na escolha do caminho que melhor lhe agrada e orienta sobre a importância dos sentimentos na vida das pessoas. O filósofo cita: “aquele que me olha é sempre o meu carrasco.
Ou seja, apesar do indivíduo desejar ser refletido na melhor forma, os olhos dos outros ignoram esta aspiração e o enxerga em profundidade, com o rigor que efetivamente ele, o individuo, não gostaria.
Sendo assim, a importância dos outros para cada um de nós, gera influências que podem se tornar um inferno, devido à incapacidade humana de compreender nossas fraquezas. Ele cita: “o inferno são os outros” numa alusão à sua própria imagem refletida nos olhos de quem os observa.
A afirmação sobre a vigilância e o julgamento constante aos quais somos submetidos, não elimina a possibilidade de um paraíso. Neste caso, cabe ao individuo a responsabilidade da escolha do caminho que mais lhe agrada. Resumidamente, apesar de o inferno ser os outros é possível a conquista do paraíso.

Entre quatro paredes, sem janelas, sem pausas para a vida cotidiana e descanso da observação aos olhos dos outros personagens, os três protagonistas foram obrigados a conviverem. Cita um dos protagonistas referindo-se ao piscar dos olhos, como fuga ao julgamento dos outros, como se os seus olhos fechados impossibilitassem as críticas de quem o observa: “A gente abria e fechava; isso se chamava piscar. Um pequeno clarão negro, um pano que cai e se levanta, e aí a interrupção. (...) Quatro mil repousos em uma hora. Quatro mil pequenas fugas”.

Entre as quatro paredes, Garcin, um jornalista pacifista, que pretendia ser herói, mantinha um disfarce e procurava esconder o seu crime. Sua maior agonia era a possibilidade das duas companheiras, no inferno hipotético, descobrirem a sua fraqueza ou covardia que naquela situação não podia ser alterada. Mulherengo, péssimo marido, insensível aos sentimentos da esposa, precisava dos olhos de Inês, outra protagonista, para se desculpar.
Inês, uma funcionária dos correios, com atitudes hostis, cujo ódio e a crueldade lhe nutrem, é a única entre os protagonistas que admite a culpa. Reconhece estar no inferno e mostra o seu caráter, admitindo a situação que se encontram. Adere ao fato e tenta tirar proveito dele. Tinha uma reflexão interior profunda e consciência clara do papel a ocupar.
A burguesa Estelle, cujo casamento foi realizado com um homem mais velho, por interesse financeiro, esconde o seu crime e tenta convencer Garcin e Inês que havia um engano em mantê-la no inferno. Fútil, superficial e desorientada, necessitava dos olhos do jornalista, Garcin, para manter-se desejada vez que os valores superficiais a impedia de enxergar na forma mais adequada e consciente.

Independente da intensidade, todos os protagonistas se olhavam e esta visão não passava do inferno de cada um. Cada um sabia os motivos de estar ali, conduto, tentavam esconder dos outros os fatos que os levaram à situação, para serem vistos como pessoas boas, exceto Inês, que não tinha esperança de mudança.

Enquanto Estelle e Garcin tentaram esconder os seus crimes, Inês expõe o por ela praticado e chama a atenção dos demais condenados, igualmente a ela, a permanecerem de forma irreversível, no lugar onde um é o espelho do outro. Tenta fazer com que Estelle enxergue Garcin através da avaliação dos seus olhos, como alternativa, já que ela o avaliava de forma superficial.

A história segue com Inês tentando conquistar Estelle, que por sua vez procura se relacionar com Garcin, e - sabedores de que a consciência é liberdade condenada a existir - sem possibilidade de fuga Garcin se antecipa ao fechamento das cortinas e diz: "Pois bem, continuemos..."

Jean-Paul Charles Aymard Sartre - Filósofo, escritor e crítico francês, conhecido representante do existencialismo. Era um militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Recusou a receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1964. Dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma essência posterior à existência. Escreveu "Os Dados Estão Lançados", "Os Caminhos da Liberdade", "O Sequestro de Veneza", "As Palavras", "A Náusea", e "O Muro".

Referência bibliográfica
Sartre, Jean-Paul, 1905 - 1980 
Entre quatro paredes / Jean-Paul Sartre; tradução de Alcione Araújo e Pedro Hussak. - 4ª ed.. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008..
127p.
Tradução de: Huis clos
INBN 978-85-200-0559-0
1. teatro francês (Literatura). I. Araújo, Alcione. II Hussak, Pedro. III. Título.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Noites Brancas – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

A solidão vivida por pessoas que habitam grandes cidades é narrada por Dostoiéviski no livro Noites Brancas. Em decorrência, vêm os sonhos de firmar relacionamentos fortes e duradouros. Assim, o autor constrói o protagonista da história.

Diz ele: E as pessoas abanam a cabeça e murmuram: “Como os anos passam depressa!” E perguntam ainda: “Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver ou não?” “Olha”, dizemos para nós mesmos, “repara que frio faz neste mundo. Basta que passem mais uns anos para que chegue a espantosa solidão, a trêmula velhice que traz consigo a tristeza e a dor. O teu mundo fantástico há de perder então as suas cores, murcharão e morrerão os teus sonhos, e, como as folhas amarelas que tombam das árvores, também eles se desprenderão de ti...”

O sonhador, protagonista da história, manifesta, com sutileza, que as imposições da vida não podem ser ignoradas, apesar de seguir contemplando a possibilidade de viver experiências em uma atmosfera fantasiosa de devaneios.

Em uma das noites brancas de São Petersburgo o tímido sonhador conheceu Nástienhka, jovem, ingênua, e também sonhadora, que derramava lágrimas apoiada em uma balaustrada, à espera de um prometido amor. Durante quatro noites brancas os dois de encontram e trocam confidências, até que ele, o sonhador, resolve expor seu encantamento pela jovem que tinha uma vida restrita a satisfazer os caprichos da avó. O diálogo é meloso, digno de jovens apaixonados, que sonham por um mundo romântico. Os encontros se resumem a experimentar a satisfação da proximidade, do diálogo, e do toque, beirando ao amor platônico.
O personagem romântico constrói juntamente com Nástienhka uma atmosfera fantasiosa, capitaneado pelos desejos de um mundo fictício, criado por sonhos, que termina norteando um diálogo sentimentalista.

De volta à realidade, o sonhador se vê desiludido, em um quarto escuro e sujo, e diz: “Talvez a culpa de tudo isso fosse aquele raio de sol que de súbito surgiu por entre as nuvens, para logo depois voltar a esconder-se por detrás de outra ainda mais escura, que anunciava chuva, de tal maneira que todas as coisas se tornaram ainda mais lúgubres e mais sombrias...”

Percebe-se, que o personagem, desiludido, utiliza-se das noites brancas de São Petersburgo para estabelecer relação de perspectiva, prevendo dias mais sombrios e sem sonhos. Apesar do sentimento de dúvida a respeito de novos momentos de felicidade, conclui que os vividos com Nástienhka foram verdadeiros e induz o leitor a acreditar que a felicidade não é eterna, contudo pode ser experimentada em momentos da vida.

O título da obra Noites Brancas se refere a um fenômeno comum na Europa em que, mesmo à noite, o sol não se põe completamente.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.

sábado, 1 de agosto de 2009

A Metamorfose – Franz Kafka

O texto metafórico, escrito por Kafka, faz uma crítica rigorosa à instituição familiar.
Apesar de não ser autobiográfico, muito do que se ler remete à Carta ao Pai, também escrita pelo autor, no qual retrata o seu relacionamento com o pai.
Os conflitos, levados pela falta de aceitação da figura paterna, permeiam a obra do autor e possibilita inúmeras reflexões. Isto ocorre, também, nos livros O Castelo, e O Processo.
Kafka surpreende e encanta pela complexidade existencial. Transforma o cotidiano em um estado surrealista e imprime perplexidade na reflexão do tema.

Considerada uma das obras literárias mais importantes do século vinte, o livro A Metamorfose, convida o leitor a acompanhar os sentimentos de Gregor Samsa, caixeiro viajante, surpreendido, ao acordar, com o corpo na forma de um inseto. Gregor, já inseto, pensava e sentia como humano e sua família demonstrava sentimentos de repulsa e desconforto com a situação.

O surrealismo escolhido por Kafka para discutir o tema, alcança objetividade clara e direta, no momento que o leitor embarca no conceito filosófico da obra. O autor manipula o personagem e surpreende o leitor logo na primeira frase do texto: Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamofoseado num inseto monstruoso”.

Kafka mostra as transformações ocorridas em função de mudanças provocadas pela orígem do dinheiro que promovia a manutenção da família, pela imposição moral e alienação intelectual, ausência de liberdade, sentimento de culpa, além de outros temas relacionados à humanidade.
Isolado em seu quarto, excluído pela empresa e ignorado pela família, Gregor, sentiu, no corpo de um inseto, os reflexo das atitudes humanas e percebeu o incômodo da submissão social.

O surrealismo, escolhido por Kafka para transgredir a sociedade, valendo-se da situação para excluir-se da família e dos valores sociais impostos, é algo inimaginável para a época, já que o livro foi escrito em 1912. Além dos conflitos familiares, Kafka, escolhe a forma para questionar as imposições do regime capitalista, negando-se a trabalhar.

O leitor que enfocar o personagem como vilão em vez de vítima pode perceber a tendência da obra, na qual, Kafka, travestido de Gregor, mostra a imposição de mudança comportamental na família, cuja sobrevivência dependia financeiramente dele. Metamorfoseado, Gregor, liberta-se da pressão político-social e o que parece castigo transforma-se em liberdade.

Eleger A Metamorfose como um das obras literárias mais importantes do século vinte, sem dúvida não é exagero.

Informações sobre o autor - Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. Filho de um abastado comerciante judeu cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Crime e Castigo – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Um estudante pobre que habitava um pequeno quarto de uma pensão na cidade de Petersburgo, na Russia, foi o personagem escolhido por Dostoiévski para expor os efeitos psicológicos, originados em conceito fictício, que classifica a humanidade em seres especiais e seres materialistas.

Conforme o conceito era permitido às pessoas consideradas especiais não se aterem às leis e regras definidas, diante da sua posição social e intelectual. Estas pessoas poderiam, inclusive, cometer crimes, sem necessariamente refletirem sobre o fato, ou sofrerem retaliações.
Cabia aos indivíduos classificados como materialistas, o cumprimento das leis e regras definidas pelos ditos seres especiais.

Rodion Românovitch Raskólnikov, protagonista da história, se considerava um indivíduo especial, e tinha em Napoleão sua fonte de inspiração. Sendo assim, se deu o direito de cometer dois crimes.
A primeira vítima foi uma velha agiota, Alena Ivanovana, que se aproveitava das necessidades financeiras de pessoas carentes. A segunda, Isabel, tornou-se vítima devido ao fato de ter flagrado o criminoso no momento que executava a sua irmã.

Enquanto planejava os detalhes da ação, o criminoso entendia que, matando a velha agiota estava fazendo um benefício social à humanidade. Assim, com tempo disponível e inteligência rebuscada, desenvolveu um plano perfeito para não deixar vestígios do crime.

Dostoiévski, ao escrever a história, abandona o mistério policial e foca os dramas psicológicos vividos pelo criminoso, e por outros personagens que compartilham da trama. Entre eles, há coisas em comum, que afloram de forma e em momentos diferentes da vida.

Crime e Castigo é apoiado em dilemas morais aguçados por desprezo social, arrogância, prepotência, repressão, uso inadequado do poder, machismo, e jogo de interesses.
Neste ponto, o protagonista da história, apesar de pobre, ao se classificar como uma pessoa especial, não abre mão de conceitos, mesmo que estes viessem a prejudicá-lo, na sua condenação.
O fato de sua irmã, Dúnia ter sido prometida ao funcionário público, Piotr Pietróvitch Lújin, por interesse financeiro, deixou Rodion R. Raskólnikov irritado, ao ponto de afrontar o pretendente, fato este, que lhe rendeu muito trabalho após o desenlace da relação.

Piotr P. Lújin tinha um amor doentio por si mesmo e auto-estima elevada. Achava que desposar uma mulher carente, nova, inexperiente, desprotegida, e que tivesse sido questionada socialmente, lhe assegurava total submissão e gratidão.

Outro personagem marcante é o burguês, Svidrigáilov, que se casou com a rica Marfa Pietrovna. Ela pagou as dívidas do trapaceiro e assinou um contrato que permitia a ele sair com mulheres, desde que não repetisse a parceira. Apesar de Svidrigáilov declarar que preferia mulheres bem jovens, manteve o casamento com Marfa até tornar-se suspeito por sua misteriosa morte.
Este fato, o levou a Petersburgo, com a esperança de concretizar o desejo, de iniciar um relacionamento com Dúnia, irmã de Raskólnikov, cuja admiração se iniciou na época em que ela, Dúnia, era empregada da sua falecida esposa.

O texto é perturbador, e a teoria que se baseia a história é ainda mais extravagante. A ausência de fundamento e critério aceitos socialmente, nos remete a reflexões sobre responsabilidade em fatos, cujas definições não transparecem critérios e formas definidas. Assim, as ações, obedecem a critérios subjetivos, individualizados, e fora do controle.

A história publicada originalmente em 1866 termina com uma sequência de tragédias, instigada pelo vazio de vidas sem sentido, cujas personagens, se entregam à própria sorte.
Dostoiévski brinca com a imaginação do leitor, coloca o protagonista da história em situações de suspeito e, ao mesmo tempo, colaborador nas investigações do crime.
Finda com o questionamento sobre a necessidade de busca, do homem, de relações que possibilite aquietar a mente.
Coloca, ainda, a moral religiosa como fonte de conforto espiritual, submetendo a intelectualidade do protagonista a conceitos simples expressados por uma jovem prostituta, disposta a submeter-se a situações de sofrimento em busca do reconhecimento humano.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.