sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A queda – Albert Camus

O texto traduz o sentimento de ansiedade, próprio do indivíduo que traz a angustia e a necessidade de ser ouvido, devido à falta de atitude que levou Jean-Baptiste Clamence, protagonista da história, a sentir culpa por não ter dado a atenção a um fato que resultou na morte de uma mulher.
A impossibilidade de retroceder no tempo e transformar a omissão em ação fez do personagem um indivíduo ansioso, a ponto de levar o autor a estruturar o texto em um monólogo, capaz de colocar o leitor na condição do interlocutor desconhecido, inoperante e absorto.

Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que se denominou “juiz-penitente”, deixou o glamour da cidade após uma vasta experiência hedonista, na qual a busca do prazer e da satisfação pessoal chegou a extrapolar o sentimento egocentrista. Instalou o seu escritório, em um botequim conhecido como México-City, na cidade de Amsterdam e em companhia dos frequentadores identificava clientes potenciais.

Quase sempre, divulgava suas ideias às pessoas que conviviam no local, contudo, certo dia, elegeu um cliente do botequim México-City como ouvinte da maioria das suas angustias e inquietações.   
O monologo é composto de frases provocativas e audaciosas. Coloca o protagonista no cento da história, expondo-o à avaliação de conceitos e atitudes que evidenciam um estilo de personalidade  com tendência existencialista.

Diz o protagonista com sentimento egocentrista: “Já reparou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabaram de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam mais, que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa homenagem que talvez tivesse esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há mais obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não é o morto recente que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

Cita a respeito da ausência de caráter: “Quanto a mim, moro no bairro judeu, ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados – é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”

O monólogo traz, também, um desabafo, sofrido, de um homem que não consegue se desvencilhar do sentimento de culpa e o remete a avaliações que o incorpora no contexto  de uma sociedade individualista e pouco preocupada com uma conjuntura mais ampla. Vejamos: “Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”

O livro é um ensinamento, grandioso, que só autores da estirpe de Albert Camus são capazes de levar o leitor à reflexão do comportamento humano, muitos dos quais, seus reflexos, são irreversível para si próprio e para a humanidade.

Informações sobre o autor - Albert Camus, foi escritor e filósofo, nasceu na Argélia e viveu sob o signo da guerra, da fome e da miséria. Morreu em acidente de carro em 1960. Juntamente com Jean-Paul Sartre foi um dos principais representantes do existencialismo francês. Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião. Escreveu O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949). Foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura em 1957.

Referência bibliográfica
Camus, Albert, 1913-1960
A queda  / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. - 16ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.
114p.
Tradução de: La chute
ISBN 987-85-01-01284-5
Romance francês. I. Rumjanek, Valerie. II.Título

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Notícia de um sequestro – Gabriel García Marquez

O autor consegue informar as nuances de uma guerra produzida pelo mais famoso traficante de drogas colombiano, Pablo Emilio Escobar Gaviria. Sem perder o contexto político da história o texto esmiúça o drama de cada personagem sem se importar em que lado ele se encontra. Em muitos momentos o bem e o mal andam de mãos dadas na busca do entendimento racional do contexto que estão submetidos.
A história toma rumos que parece satisfazer aos envolvidos, mas logo depois, os sequestrados, seus familiares e o governo vislumbram um caminho que parece sem volta.
Sem propósito surge o padre García Herreros que se ofereceu para ajudar a intermediar as negociações, e, ao lado de Alberto Villamizar Cárdenas, marido de Maruja Pachón, uma das sequestradas, articula entendimentos para a rendição de Escobar, que por sua vez se esconde atrás dos chamados Extraditáveis para não assumir diretamente os crimes.
Afinal, a luta pela aprovação, na Assembléia Constituinte já infiltrada pelo narcotráfico, da proibição da extradição dos traficantes para os Estados Unidos, após a rendição, era o ponto chave das negociações.
Decidido a não extradição, Escobar se entrega e os que sobreviveram aos sequestros voltaram à rotina da vida com os seus traumas e as suas experiências.

O livro mostra o absurdo da guerra entre o poder constituído e o domínio do tráfico de drogas, a dificuldade de um país em manter os valores sociais e políticos além do sofrimento dos sequestrados, vítimas de uma situação que não contribuíram para ocorrer.

O autor, conhecido como excelente ficcionista, constrói um texto informativo robusto e sem tendências. Relata o ocorrido sem tomar partido e deixa para o leitor a análise do contexto. O fim de Pablo Escobar é conhecido, portanto, não há surpresa, até porque o texto não se propõe a levar o leitor a um final desconhecido, mas participar da emoção e da angustia dos sequestrados, dos seus familiares, do governo e do caminho sem volta de um dos traficantes mais conhecido no mundo.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
Notícia de um sequestro / Gabriel García Márquez; tradução Eric Nepomuceno. - Rio de Janeiro: Record, 1996.
336p.
Tradução de: Noticia de un secuestro
INBN85-01-04694-9
1. Novela colombiana. I. Nepomuceno, Eric, 1948. II. Título.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recordações da Casa dos Mortos – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

Ao falar a respeito do livro Recordações da Casa dos Mortos convém comentar o ocorrido com o seu autor, antes de ter passado pela experiência de presidiário.
A Europa enfrentava conflitos sociais. Vivia um sonho libertário e o socialismo aparecia como alternativa utópica para acabar com o feudalismo existente na Rússia. Ainda jovem, Dostoiévski, envolveu-se na conspiração do revolucionário Mikhael Petrachévski, que tinha o propósito assassinar o Czar Nicolau I.
Apesar de negar o seu envolvimento, o autor foi preso em 1849 e condenado a morte com mais vinte e um companheiros. Com vinte graus abaixo de zero, vestindo túnicas mortuárias, os condenados foram amarrados em postes na Praça Semionovski e experimentaram a desagradável sensação que antecede uma execução: padres, fuzis, tambores e só depois do ritual lhes foi revelado que a punição inicial havia sido substituída por prisão e trabalhos forçados na Sibéria.

No presídio, o protagonista, considerado nobre, convive com criminosos comuns e vivencia, possivelmente, a maior e mais inesquecível experiência de sua vida. Rejeitado por uns e cortejado por outros passa quatro anos de sua vida sofrendo com o frio, as precárias instalações, a deficiente alimentação, e, principalmente, com o tormento de nunca poder ficar sozinho.
Os detentos eram na sua maioria, retraídos, desconfiados, invejosos, valentões e extremamente insensíveis.
O livro é uma obra voltada para a psicologia criminal. As observações do autor a respeito do comportamento humano em situações de culpa enriquecem sobremaneira a obra e remete o leitor a análise de modelos aparentemente corretivos, mas no fundo para nada servem.
Diz o autor: “Não resta dúvida de que o tão gabado regime de penitenciária oferece resultados falsos, meramente aparentes. Esgota a capacidade humana, desfibra a alma, avilta, caleja e só oficiosamente faz do detento “remido” um modelo de sistemas regeneradores.”

O protagonista experimenta na prisão momentos do bem e do mal, do crime e da culpa. Procura uma resposta para a prática do crime, independente da classe social que o homem está inserido e se tudo não bastasse analisa a si próprio: “Mas o tempo fluía e dei em me habituar gradativamente. À medida que os dias passavam, as realidades cotidianas iam me irritando menos. Os meus olhos, por assim dizer, se iam habituando aos acontecimentos, ao ambiente e aos homens.”

O autor fala, também, de esperança ao dizer: “Quando o sol brilha, a gente pensava na liberdade muito mais intensamente do que nos dias cinzentos do outono e nas horas opacas do inverno.”

Não bastassem as observações sobre os criminosos, o autor não abandona as críticas sobre as atrocidades praticadas pelas autoridades do presídio. Além do trabalho forçado, sob condições desumanas, o uso dos grilhões, mesmo nos doentes prestes a morrer, e os castigos exagerados praticados pelas autoridades tomam lugar de destaque no texto, a exemplo do relato de um açoitado ao revelar: “É, atroz, dá a impressão de fogo aplicado demoradamente na pele. Assa as costas como um grelha.”

O livro fala, com maestria, das dificuldades nas relações entre pessoas de diferentes classes sociais e insere o próprio protagonista nesse contexto, quando procurava refúgio no hospital, simulando doença, simplesmente para escapar do convívio indesejado.
Sem dúvida, é um marco histórico na literatura mundial, até porque, segundo se comenta, iniciou a melhor fase do respeitado autor.

Informações sobre o autor Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo. 

Referência bibliográfica
Dostoiéviski, Fiódor, 1821-1881. 
Recordações da casa dos mortos / Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski;
tradução deJosé Geraldo Vieira. - São Paulo: Martin Claret, 2006. 
Título original: Zapiski iz mertvogo doma.
ISBN 85-7232-7'6-9.
308p.
1.Romance russo I.Título.II.

domingo, 31 de outubro de 2010

A Revolução dos Bichos - George Orwell

O livro é uma crítica ferrenha à Revolução Russa e à sociedade européia em especial às castas dominantes inglesas e à imprensa que tangenciava de forma conveniente as críticas ao regime. A forma inusitada encontrada pelo autor para relatar os fatos discordantes das ideologias políticas que vigiam na Europa é  fantástica.
O texto diverte o leitor e permite o aprofundamento para o entendimento do comportamento social humano. 
George Orwell faz uma analogia entre lideres da Revolução Russa e o comportamento dos porcos da Granja dos Bichos. Major, um porco que tinha percepção dos motivos que o mantinha vivo, conscientizou os demais animais da Granja Solar para a necessidade de um rebelião e implantarem uma revolução que transformasse a sociedade “animal” cujos valores decorriam do tratamento equânime.
Major morre mas o conceito de poder usufruir o que produz ficou enraizado durante as reuniões que antecederam à Revolução. Alguns animais se dedicaram além do que faziam quando ainda eram subordinados ao antigo dono da Granja Solar, enquanto outros apesar de participarem do movimento não tiveram a mesma consciência e disposição.
Os animais Napoleão e Bola de Neve tinham conceitos diferentes. O primeiro achava que deveriam se armar e defender a granja enquanto o segundo defendia estimular reações parecidas em outras granjas, na busca de um mundo socialmente mais justo. Napoleão expulsou Bola de Neve e exerceu o poder com “mãos-de-ferro” e implantou notícias infundadas a respeito do antigo companheiro para justificar a sua decisão.
Com o passar do tempo tanto o processo produtivo como o de consumo da Granja tornou-se muito parecido com o que acontecia anteriormente. Quando se questionava sobre os mandamentos que nortearam a Revolução, Garganta, o “porta-voz” de Napoleão, usava o fato de saber ler e demovia os animais trabalhadores de qualquer reação, dando novas interpretações aos mandamentos.  
Entre os animais, os porcos assumiram privilégios e com o passar do tempo as prerrogativas foram aumentando até usufruírem de conforto e segurança diferente dos demais animais, contrariando, assim, os mandamentos que deveriam ser seguidos por todos. O certo é que os porcos não produziam um só quilo de alimento e demonstravam muito apetite. Quanto aos demais animais trabalhavam e não usufruíam de nenhum conforto.
A decepção acontece quando foi percebido que os líderes se transformam em uma casta dominante parecida com os humanos. Era impossível distinguir quem era homem e quem era porco. Os mandamentos que serviram para doutrinar os animais foram, aos pouco, distorcidos e a sociedade que lutou por ideais revolucionários se viu em situações parecidas com as que antes. Ao final, o autor radicaliza e apresenta os líderes da Revolução dos Bichos caminhando em duas pernas, contrariando um dos sete mandamentos da Revolução: “Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.”

O livro foi escrito em 1943 e a história chama a atenção da sociedade para as distorções dos regimes políticos, especialmente os totalitários, e foi criada quando o autor percebeu uma criança de dez anos comandando um imponente cavalo. Cada vez que o animal tentava se desviar do caminho o garoto o chicoteava. Ao perceber aquela situação imaginou se o animal tomasse consciência da sua força física não teriam o mesmo poder sobre ele, deixando-se explorar pelo garoto a exemplo da opressão exercida pelas classes mais favorecidas em relação aos proletariados. Trata-se de uma análise da teoria de Karl Marx de forma independente, criativa e inusitada. É um texto que apesar de ter sido escrito há mais de cinquenta anos se mostra atual.

Informações sobre o autor George Orwell nasceu em Motihari na Índia, no ano de 1903. Completou seus estudos na Universidade de Eton. Aos 19 anos entra para a Polícia Imperial Britânica. Passou muitos anos entre a Índia e a Birmânia. Revolta-se com o imperialismo inglês. Considera seu passado vergonhoso, e por isso muda seu nome. Seu nome verdadeiro é Eric Arthur Blair. Trabalha como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Assim, sente pela primeira vez a opressão da classe trabalhadora. Neste contexto ele começa a escrever. Participa da Guerra Civil Espanhola em 1936, lutando ao lado do P.O.U.M. (Partido Obrero de Unificación Marxista). George Orwell era a favor das classes sociais baixas e se decepcionou com os Partidos Comunistas da época, fiéis aos ditames de Moscou. Era um anti-stalinista, não pelo socialismo, mas contra todo o tipo de totalitarismo. Escreveu "Na pior em Paris e Londres", "A flor da Inglaterra", "Dias na Birmânia", "O caminho para Wigan Pier", 1984, A Revolução dos Bichos, entre outros títulos. ()

Referência bibliográfica
Orwell, George, 1903 - 1950
A revolução dos bichos: um conto de fadas / George Orwell; tradução Heitor Aquino Ferreira; posfácio Christopher Hitchens. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
147p.
Título original: Animal farm : afairy story
INBN 978-85-359-0955-5
1. Ficção inglesa. I. Hitchens, Christipher - II. Título.

sábado, 16 de outubro de 2010

O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez

A história dos pais do autor foi transformada em romance. O cenário da cidade de Cartagena de lás Índias foi o escolhido para enriquecer a narrativa que retrata o sentimento de insatisfação diante do fracasso amoroso, os valores sociais, os efeitos do cólera, a devastação da natureza, a dificuldade no relacionamento conjugal e a rejeição ao processo de envelhecimento.

Florentino Azira, filho de uma aliança ocasional entre Trânsito Azira e Pio Quinto, aos dezoito anos, encanta-se por Fermina Daza filha de um inescrupuloso comerciante que tinha planos de casar a filha com uma pessoa de importância social.
Apesar das ações do viúvo Lourenzo Daza, pai de Fermina, para promover a eparação dos amantes, os sentimentos se eternizaram e foram registrados nas inúmeras cartas de amor escritas por Florentino Azira.   Fermina Daza casa-se com o médico Juvenal Urbino, por mero capricho, ao perceber o interesse da prima Hidelbranda pelo médico, experimenta uma vida fingida e desprovida de prazer. Enquanto Fermina se dedicava aos compromissos sociais, Florentino Azira navegava por muitos relacionamentos amorosos sem se dar o direito de entregar-se a outras paixões. Adquiriu o hábito de cadastrar as características das mais de seiscentas mulheres com as quais se deitou. Envelhece, carcomido, na esperança de só morrer após Juvenal Urbino e um dia reencontrar Fermina.

O conto traz afirmações sobre o amor, sobre o casamento e a velhice, dignas de registro:
“Só me dói morrer se não for de amor.”
 “(...) tinha vivido junto o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso fica quando mais perto da morte.”
 “O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de fazer amor, e é preciso tornar reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.”
 “Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.”
 “Os velhos, entre velhos, são menos velhos.”

Esta é uma história singular que ultrapassa o imaginário da perseverança. Vence as barreiras, refaz os conceitos, retrata o contexto poético a ponto de não nos parecer verdadeira. É uma narrativa espetacular, rica em detalhes de época e sentimentos humanos, bondosamente oferecidos ao deleite do leitor, que só um autor da linhagem de Gabriel García Márquez poderia escrever. A espera do reencontro durou cinqüenta e três anos, quatro meses e onze dias.

Informações sobre o autor – O escritor colombiano, Gabriel José García Márquez, apelido Gabo, nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, na Colômbia. Cedo abandonou a casa dos pais e trabalhou em diferentes empregos. Fez seus estudos em Barranquilla e chegou a iniciar o curso de direito em Bogotá, época em que publicou seu primeiro conto. Exerceu o jornalismo em Cartagema, Barranquilla e no El Esplendor, de Bogotá. Foi correspondente das Nações Unidas em Nova York. Recebeu Prêmio Nobel de literatura por sua obra que entre muitos outros livros inclui “Cem anos de Solidão”.

Referência bibliográfica
García Márquez, Gabriel, 1928 -
O amor no tempo do cólera / Gabriel García Márquez; tradução Antônio Callado. 35ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
429p.
Tradução de: El amoren los tiempos del cólera
INBN 978-85-01-02872-3
1. Romance colombiano. I. Callado, Antônio, 1917 - 1997. II. Título.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Crocodilo – Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski

O livro foi escrito no contexto histórico da Rússia Czarista, sob o comando de Alexandre II, cujo governo antiliberal defendia privilégios da aristocracia.
O autor que viveu o regime e suas conseqüências escolheu em linguagem simbólica para satirizar a burocracia russa atribuindo crítica impiedosa à concepção do modelo capitalista.

Dostoiévski elege uma sofisticada galeria em São Petersburgo, um funcionário público, um imigrante alemão e seu crocodilo para simbolizar a aristocracia, a burocracia governamental, e o regime capitalista, sem se descuidar, com maestria, das críticas e opiniões do narrador, Siemión Siemiônitch, que se inclui na história intrometendo-se nos diálogos, registrando situações, valores, conceitos e interesses dos personagens que giram em torno do protagonista.
Em companhia da sua esposa e do narrador, em rápida passagem pela galeria onde o crocodilo estava sendo exposto à visitação, o funcionário público Ivan Matviéitch é engolido inteiro pelo réptil. Daí em diante os conflitos de interesse do próprio protagonista e dos que o cercam são contados na forma metafórica a exemplo do que ocorreu no livro Metamorfose escrito por Franz Kafka.
Ivan, na barriga do crocodilo, preocupa-se com as opiniões dos seus superiores, enquanto o seu experiente amigo, Timofiéi Siemiônitch, avalia a necessidade do seu sacrifício para estimular os investimentos estrangeiros e beneficiar a pátria.
O dono do animal, por sua vez, percebeu uma grande oportunidade de lucro, já que o animal, após engolir o  russo, havia triplicado o seu valor de mercado e aumentado, consideravelmente, o número de visitantes na galeria.
Enquanto isso, o protagonista percebeu uma oportunidade de se tronar famoso e exercer cargos importantes na estrutura governamental, tão logo saísse daquela situação. Ele diz: “(...) sou exposto perante todos e, ainda que escondido, estou em primeiro lugar. Passarei a instruir a multidão ociosa. Ensinando pela experiência, apresentarei com a minha pessoa um exemplo de grandeza e espírito conformado perante o destino! Serei, por assim dizer, uma cátedra da qual hei de instruir a humanidade. São preciosas mesmo as informações sobre o mostro por mim habitado. E, por isto, não só não maldigo o caso que me aconteceu, mas tenho até sólidas esperanças na mais brilhante das carreiras.”
O protagonista faz uma relação da possível retroalimentação entre  ele e o crocodilo para manter vivo o sistema capitalista. Ele diz: “Deste modo, alimentando o crocodilo com a minha pessoa, eu recebo dele também alimento; depreende-se, pois, que nos alimentamos mutuamente.” 
Ivan, na qualidade de funcionário público burocrata, avalia-se no sistema capitalista, aqui representado pelo crocodilo, e conclui sobre a dificuldade de ser aceito. Refere-se, no sentido figurado, à inexistencia de estômago no animal como intolerância do sitema a custos que oneram os processos produtivos: “Mas, considerando que, mesmo para um crocodilo, é difícil digerir uma pessoa como eu, ele deve sentir, nessa ocasião, certo peso no estômago – estômago que ele, diga-se de passagem, não tem -, e eis a razão por que, preocupado em não causar uma dor supérflua ao mostro, eu raramente me viro.”   

O texto histórico apresenta um relato político importante com ênfase nos anseios sociais voltados para mudanças estruturais, sem se descuidar da insegurança trazida pela mudança de paradigma.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski - Nasceu em Moscou, em 1821. Cursou engenharia e estreou na literatura em 1845. Foi condenado à morte em 1849, por envolvimento com política liberal. Minutos antes do fuzilamento, sua pena foi modificada por um período de exílio na Sibéria. Morreu em São Petersburgo, em 1881. É autor de Irmãos Karamazóv, Crime e castigo, O Jogador, Notas de Subsolo, O Eterno Marido, e Recordações da Casa dos Mortos. É considerado o mais importante romancista russo.

Referencias bibliográficas
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881
O crocodilo e Notas de Inverno sobre impressões de verão / Fiódor Dostoiévski; tradução de Boris Schnaiderman – São Paulo: Ed. 34, 2000.
168 p. (coleção LESTE)
ISBN 85-7326-186-2
Tradução de Crocodil / Zímnie Zamiétki o Létnikh Vpietchatlêniakh
1.Literatura russa. I. Schnaiderman, Boris. II. Título. III. Série.